Jéssica Antunes
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Todo domingo é igual. Nas primeiras horas da manhã, milhares de carros estacionam nas vagas, ao longo do meio-fio, nas calçadas e no canteiro central. O evento, que ficou conhecido como Feirão da Orca de Taguatinga, bloqueia passagens, enquanto as vendas custam acontecer. Desde ontem, o Governo de Brasília tenta controlar a bagunça, para alívio de quem não tem interesse nas ofertas. Vendedores e clientes, por outro lado, reclamam.
O cenário ontem era diferente. Cones deixados ao longo do meio- fio impediam a parada dos carros e, consequentemente, os engarrafamentos eram menores. Auditores do Departamento de Trânsito (Detran) presentes com guincho e empilhadeira alertavam para os perigos.
Multas
Nas primeiras horas do dia, houve pelo menos 15 autuações por estacionamento irregular. Ainda assim, alguns carros ocupavam duas vagas para guardar o lugar a outros.
“As vendas já estão difíceis e o Detran ainda atrapalha o funcionamento da feira”, reclamou o jardineiro Mauro Araújo, de 43 anos, que vende carros de forma particular. “Só estamos aqui na metade de um dia da semana, que nem é útil. A quantidade de veículos não atrapalha tanto assim”, defende o frequentador.
O coro contra a operação é sustentado pelo aposentado Ademir Dias, 62 anos. Há três fins de semana ele tentava vender seu carro para pagar dívidas. “A situação já está complicada e ainda dificultam a tentativa de reverter isso. Quem está errado sabe que está errado, mas não tem lugar para todos pararem”, diz.
Ademir conseguiu vender o carro, mas por R$ 2 mil a menos do que o valor pedido inicialmente. “Apertou a situação em casa”, explica o aposentado.
Todo fim de semana
A ação do Detran vai acontecer em todos os domingos de feira sob comando da Secretaria da Segurança Pública e da Paz Social, com o objetivo de organizar o trânsito entre o Pistão Sul e Águas Claras. Com isso, querem garantir que o tráfego flua normalmente, sem prejudicar o acesso da população. A operação começará sempre a 0h de domingo. Também participam Polícia Militar, DER, Agefis e Administração de Taguatinga e equipes do Núcleo de Acompanhamento e Avaliação Operacional (Nuaop), da pasta.
Mercado afetado pela crise
De janeiro para cá, as vendas de carros usados diminuíram 50%”, reclama Roney de Sousa, 33 anos. Ele trabalha há oito anos em uma concessionária próximo ao aeroporto, mas vai, aos domingos, tentar complementar a renda em Taguatinga. “É um dia perdido, que eu poderia ficar com a família, mas tenho que trabalhar. Eles reclamam em casa, mas não tem jeito”, lamenta.
Roney explica que leva à feira os carros de menor valor, mas que podem render melhores negócios. “Ano passado não estava difícil desse jeito. Piorou agora”, revela. Os últimos dados oficiais do segmento são de julho. Naquele mês, as lojas venderam 18.178 carros usados em julho deste ano – 6,7% a menos que os 19.484 do mês anterior.
Quem não tem interesse nos veículos, no entanto, comemora a fiscalização do Detran. “Tem um mercado aqui que fica impossível de entrar por causa dessa feira. O trânsito entre Taguatinga e Águas Claras fica caótico. Melhor que haja um controle”, acredita a empresária Martha Figueiredo, de 40 anos