Menu
Brasília

Fim de festa

Arquivo Geral

19/09/2016 7h00

Atualizada 18/09/2016 13h51

Agora é o fim. Mesmo. Acabou. Não tem mais volta. Nunca mais terá. Quem viu, viveu, regozije-se: nunca mais teremos nada parecido por aqui.

Falo, é claro, do encerramento dos Jogos Paralímpicos Rio 2016, ontem à noite, na Cidade Maravilhosa. Não apenas, porém, do fim dos Jogos. Falo do fim de um período de ouro para o esporte brasileiro – deveria ter sido, pelo menos. Nos últimos 12 anos (não pensem que estou errado, falo desde o início da preparação do Rio de Janeiro para receber os Jogos Pan-Americanos de 2007) o Brasil, o Rio de Janeiro, tornaram-se o centro das atenções do esporte mundial. Sem exagero, poderíamos dizer que fomos o centro das atenções do planeta. Acabou.

Em 2007, sem contar com o apoio dos governos do estado e da União, rivais políticos (vejam quanta imbecilidade…), o Rio de Janeiro realizou, sim, um Pan-Americano histórico. Recebeu 41 países do continente e mostrou-se capaz de receber grandes competições esportivas. Tanto é verdade que, dois anos depois, aí com o apoio das demais esferas políticas governamentais, num dia 2 de outubro, o Rio foi escolhido para sediar os Jogos Olímpicos e Paralímpicos de 2016. Um feito inimaginável para a América do Sul.

Antes de seguir, vale falar que, apesar de todo o sucesso, o Pan de 2007 deixou seus erros. O velódromo, por exemplo. Construído para servir a qualquer tipo de competição de alto nível, acabou sendo desfeito e perdido – e o novo, construído para os Jogos Olímpicos, por diversas razões foi a última obra a ficar pronta. O parque aquático Maria Lenk, apesar da bela homenagem à grande nadadora, acabou em segundo plano na Olimpíada. Elefantes brancos, dirão os críticos mais ferozes. Eu prefiro falar que gostaria de ver uma apuração criteriosa sobre a razão pela qual decidiram erguer coisas novas. Coisas de Brasil.

Enquanto o Brasil, ou melhor, o Rio de Janeiro, era escolhido para receber os Jogos Olímpicos e Paralímpicos, vivíamos a ilusão de uma economia plena, perfeita, resistente às crises internacionais. E com isso, com orgulho e otimismo, recebemos a Copa das Confederações (2013) e a Copa do Mundo (2014). Na primeira, poucos países, mas o mundo atento a tudo. Ergueram alguns novos estádios, mas nada comparável à farra do Mundial. Novos elefantes brancos. Mas fomos campeões, com uma aula de bola sobre a Espanha (campeã da Europa e do Mundo). Este era o Brasil esportivo com que sonhávamos.

Veio o Mundial. Milhares de turistas curtindo nosso país. O Rio de Janeiro, em obras para a Olimpíada, viu-se invadido pelo planeta, em especial os hermanos argentinos que lotaram o Sambódromo com seus trailers e ônibus. Vivíamos uma imensa festa até o dia 8 de julho quando a Alemanha não respeitou os donos da casa e nos humilhou. O baque da derrota nos fez ver o quanto estávamos errando com as construções de estádios onde não havia necessidade; as obras de mobilidade que não terminavam; os protestos nas ruas por uma economia que começava a fazer água. A derrota no esporte nos trazia à mente a derrota social.

Só que a Olimpíada é da cidade. E o Rio de Janeiro tornou-se uma ilha num país cheio de problemas econômicos. Não que sobrasse dinheiro na sede dos Jogos, mas pelo menos a prefeitura dizia que tinha caixa – isso enquanto o estado decretava estado de emergência e assustava os visitantes, que começaram a cancelar reservas para vir. O caos começava a se instalar, principalmente porque diversas obras ficavam pelo caminho. Exatamente como na Copa do Mundo. O mundo esportivo, porém, continuava a olhar para cá. Com carinho.

Nos Jogos, alguns momentos que jamais sairão da memória. A medalha de ouro no salto com vara; a participação popular; o ouro do vôlei masculino e a tristeza das meninas; o ouro, finalmente, no futebol masculino e os momentos de Marta melhor do que Neymar… Isso para o Brasil, é claro, mas como não falar de Michael Phelps, de Usain Bolt, de Novak Djokovic, de Rafael Nadal? Sim, o centro do mundo esportivo estava aqui, no Rio de Janeiro, no Brasil.

Depois vieram os Jogos Paralímpicos. Não estávamos (estamos) acostumados. Nossos olhos ainda não estão treinados para o “diferente”. Mas as histórias que superação que fomos vendo e ouvindo, dia após dia, criaram um clima tal que não queríamos que terminasse. Por tudo o que se falou, porque somos orgulhosos, porque gostamos de ver todos olhando para nós. Mas acabou. Ontem. E, agora, com sinceridade, temo pelo que possa vir a acontecer com o esporte brasileiro. Faltarão investimentos, estou certo – mesmo porque nossa economia vai mal, muito mal. Os elefantes brancos, cada vez mais, se tornarão fontes de prejuízo. As obras inacabadas ficarão lá por tempos e tempos, sem terminar.

Que pena. O Brasil não merecia isso. Claro que valeu tudo o que passamos, mas nós merecemos mais. Quando, de novo, com sinceridade não sei. Sem querer ser pessimista, já disse a meus filhos que os levei a tudo o que pude porque eles não terão de novo esta chance. Desde ontem a noite o Brasil deixou de ser a menina dos olhos do planeta esportivo. Que pelo menos dentro de casa as coisas não piorem tanto assim.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado