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Festival Afro Urbano realiza primeira exposição racial em Brasília

Primeira exposição com temática racial reuniu cinco artistas negros do Distrito Federal. A exposição ficou disponível no sábado (27) e domingo (28), com entrada gratuita

Foto: Divulgação

Luciana Costa
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Durante todo o mês de novembro, o Festival Afro Urbano celebrou o Dia da Consciência Negra com atividades culturais: exposição de arte, literatura, contação de histórias infantis e apresentações musicais, todas produzidas por artistas negros. Para fechar com chave de ouro, foi realizado a primeira exposição com temática racial do Museu de Arte de Brasília (MAB).

Após 14 anos fechado para reformas, o MAB foi reinaugurado em abril e recebe a produção de artistas visuais negros da capital do país. A exposição “Existindo e Resistindo – uma celebração às vidas negras” conta com 13 obras, entre elas uma produção exclusiva e inédita do renomado artista Antônio Obá. Ao lado dele, quatro nomes da nova geração de Brasília: as fotógrafas Ester Cruz e Beatriz Andrade, e os artistas plásticos Ricardo Caldeira e Victor Hugo Soulivier.

A valorização das raízes africanas incentiva a reflexão sobre a igualdade racial no Brasil, além de divulgar o trabalho de artistas e empreendedores negros de Brasília. Os sócios e cofundadores da Cassangue Produções, Carolina Martins e Luís Noronha, contam que a produtora nasceu com este intuito de promover a arte neste recorte racial.

A importância do Afro Urbano está em mostrar a cultura e arte negra, de forma que reafirme a identidade dos brasilienses negros. “Queremos mostrar que somos muito mais que dores, muito mais do que é noticiado. A produção é o que mais nos move para mostrar como um farol, para ocupar este espaço cultural na cidade com uma arte potente”, afirma Luís.

A ausência de eventos culturais em decorrência da pandemia da Covid-19 atingiu fortemente o grupo artístico, que compreende a importância do festival, e logo que os produtores contataram os artistas, todos aceitaram prontamente a parceria. “As parcerias se viabilizaram de uma forma muito fluida e orgânica, porque são pessoas que entendem a necessidade desses eventos, mas nem só de causa se faz um evento, é preciso de aporte financeiro. Fomos em busca de patrocínio e apoio de empresas, que se engajaram na causa, porém ainda não foi possível cobrir todos os custos”, relatou Carolina.

Como alternativa, a Cassangue Produções está arrecadando recursos para remunerar os artistas e arcar com os custos de montagem da exposição por meio de uma vaquinha virtual. “Para as pessoas que puderem ajudar, pessoas que também acreditam na arte na cultura como forma de potencializar a vida e para quem está engajado na causa antirracista”, pedem os sócios.

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“Um festival urbano para mostrar a arte negra”

O artista visual e escritor negro, Ricardo Caldeira, dedica-se profissionalmente à arte desde 2010 e comenta que a realização de um festival afro neste momento de recuperação pós-pandemia tem um significado enorme, tendo em vista que o setor cultural e artístico foi prejudicado. “É importante como uma forma de valorização e de viabilização da cultura. Tanto para colocar o nosso trabalho em movimento, mas também para que seja um espaço de troca e de vivência em comunidade”, comenta.

Autor da obra “Verônica”, que traz a representação de uma mulher em estado de êxtase, onde a expressão corporal mostra como a emoção se manifesta no nosso corpo. A escolha dos elementos, como o traço, a cor, a tinta, o volume, o próprio material, criam uma composição que expressão para além do corpo da mulher. “Eu falo e busco trazer todo o corpo de todo o universo que nos acompanha, o papel compõe obra assim como a Terra compõem o nosso corpo”, explica Ricardo Caldeira, morador de São Sebastião-DF.

“Não é um festival para pessoas negras, é um festival sobre pessoas negras”

A carência do brasiliense por atividades diferentes foi perceptível pela maior movimentação das pessoas. O Afro Urbano recebeu brasilienses de todas as cores, idades e classes, cumprindo o objetivo de conscientizar a sociedade sobre a riqueza da cultura negra. Vieira Neto, 24, maranhense branco tem interesse por mostras culturais pela cidade: “Sempre que tem, eu apareço”.

Ele conta que vê poucas mostras voltadas para a arte negra em espaços tradicionais, como o Museu Nacional, e pontuou que a exposição, além de ser voltada para a arte negra, valoriza o trabalho local. “As fotos, por exemplo, foram tiradas no cerrado, dá para perceber a vegetação típica daqui. É interessante ver essa valorização da cultura negra em Brasília, uma cidade que não foi pautada com esta base, dando brechas para que as pessoas construam este espaço”, opina Vieira.

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Ao longo de todo o fim de semana, contou com a participação do público e dos colaboradores. Músicos da cena independente da cidade performaram no palco com o melhor na nova MPB, R&B, pop e muito samba, já o percussionista senegalês Moustapha Diene, indicado ao Grammy Latino de 2021 marcou presença no domingo.








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