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Brasília

Faltam chances aos jovens da periferia do DF

Arquivo Geral

14/12/2016 7h00

Data:13-12-2016 Diferença racial e economica Foto: Myke Sena

Jéssica Antunes e Raphaella Sconetto
redacao@jornaldebrasilia.com.br

As cidades com maiores proporções de jovens no Distrito Federal são as mais vulneráveis. São regiões com maiores índices de defasagem escolar, onde se começa a trabalhar mais cedo, que têm rendas mais baixas, menos acesso à internet e onde se casa ainda na adolescência. São, também, locais onde mais se concentram negros. A desigualdade histórica entre as regiões administrativas continua, conforme o Perfil da Juventude do Distrito Federal, divulgado ontem pela Codeplan.

Hoje, um em cada quatro brasilienses tem entre 15 e 29 anos e é considerado jovem. Ao todo, correspondem a 700 mil dos 2,9 milhões dos habitantes. As regiões administrativas com o maior número de jovens proporcionalmente ao de moradores são as que têm menor renda, como Varjão e Cidade Estrutural.

Saiba mais

  • A promessa da Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude é de que, em 2016, inicie diálogo nas 31 regiões administrativas para saber se as sugestões da Conferência Distrital de Juventude deste ano continuam atendendo aos principais anseios desse público.
  • De acordo com a subsecretária de Juventude da pasta, Aline Bezerra, os dados demonstram localidades que precisam de maior atenção para concentração de esforços, políticas e recursos.

Varjão

Com uma população estimada em 9.215 e renda domiciliar per capita de R$ 627,81, o Varjão é líder no número de jovens na capital e também tem a maior parcela negra entre as regiões administrativas: aproximadamente 78%.

Ali, pouco mais da metade dos habitantes na faixa etária concluiu o Ensino Médio até os 24 anos e somente 8% terminaram o Ensino Superior. Apenas algo em torno de 12% dos que trabalham recebem mais que dois salários mínimos, e é uma das regiões que menos têm acesso à internet.

A Estrutural é a segunda região com maior número de jovens. Ali, a desempregada Leislene da Silva Santos, de 28 anos, vive com dois filhos e o marido. Ela tinha 16 anos quando se casou. “Abandonei a escola no segundo ano porque tive que trabalhar e não conseguia conciliar”, conta.

Hoje, perto do limite da idade que abarca a juventude, ela planeja voltar e concluir o ensino. Para a cabeleireira fora de função, o esquecimento do governo colabora para a vulnerabilidade da população jovem da região. Em casa, ela tem acesso à internet pelo telefone celular, mas critica a falta de estrutura do local.

Negros mais afastados do centro

Rodrigo Ulhoa, engenheiro eletricista de 43 anos, crê que a questão da desigualdade racial nas regiões administrativas é mais profunda. “A população negra, infelizmente, não tem acesso ao estudo, ao trabalho, como eu e outras pessoas brancas tiveram, e acaba ficando mais à margem da demografia da cidade”, afirma.

De fato, segundo o estudo, o maior número de brasilienses que consideram ter pele preta está em regiões afastadas do centro, como Varjão, Estrutural, Fercal, Itapoã e Paranoá (78% a 70%). O menor, em áreas nobres como Plano Piloto, Sudoeste/Octogonal, Lagos Norte e Sul e Park Way (33% a 43%).

Desempregado, Diogo Francisco, 27, relaciona a pesquisa com a realidade nacional. “A maioria do Brasil é de negros. Não há justificativa para o Varjão ter mais negros, é normal”, considera o morador da cidade, que também é negro.

“Aqui só tem pessoas mais humildes e o pessoal vê com preconceito. Já ouvi pessoas falarem que não frequentam o Varjão por ter medo de ser assaltado. Aí já veem o negro achando que ele tem alguma ligação com o crime”, critica.

Na estatística, maioria é branca

Na Estrutural, 51% dos jovens chegaram a concluir o Ensino Médio, apenas 7% terminaram o Ensino Superior e a taxa de desocupação alcança os 29%. Cerca de 26% dos moradores jovens da Estrutural não estudam nem trabalham, mas, daqueles que conseguem um emprego, apenas 7% recebe acima de dois salários mínimos.

“São justamente as cidades com maior proporção de jovens as que têm maior números de negros e as que mantêm os piores indicadores. Tem menos gente que cumpriu o ensino na idade correta, menos índices de Ensino Superior, renda bem mais baixa. Podemos dizer também que é onde se deixa mais cedo os estudos e se casam mais jovens”, ponderou Lidia Barbosa, técnica da Codeplan.

Somente 42 mil dos brasilienses afirmam ter pele negra. Águas Claras é onde há
mais equilíbrio.

Somente 42 mil dos brasilienses afirmam ter pele negra. Em Águas Claras, segundo o estudo, está concentrado o maior equilíbrio entre negros e não negros, sendo que a maioria afirma ser afrodescendente: 52% contra 47%. Na ponta do lápis, ali, no Areal e no Setor Habitacional Arniqueiras, que fazem parte da região, estão mais de 77 mil jovens afrodescendentes.

Essa informação é questionada por alguns dos moradores. “Frequento bem os lugares de Águas Claras e vejo a população branca, muito maior do que a dita negra”, aponta o engenheiro eletricista Rodrigo Ulhoa, de 43 anos.

A companhia usou dados da Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios (Pdad) em parceria com a Secretaria de Políticas para Crianças, Adolescentes e Juventude.

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