Eric Zambon
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Em frente ao posto de atendimento da Polícia Federal, no Na Hora do Riacho Fundo, várias pessoas esperam por um milagre. Não tem a ver com as operações criminais corriqueiras da corporação, mas com a emissão de passaportes, suspensa desde ontem por falta de orçamento. Com passagens compradas e sem previsão de receber o documento, indispensável para viagens ao exterior, muitos passaram uma quarta-feira frustrante em frente aos guichês de atendimento.
“Como eu só vou (viajar) em setembro, espero que tudo esteja normal até lá, senão vai ser complicado”, desabafou a bancária Dalma Rita, 48 anos, que pretende ir à Austrália para um encontro de ex-colegas de trabalho. Ela não poupou críticas à Polícia Federal e ao Governo. “Se falta dinheiro para desempenhar um serviço, é por problema de gestão, com certeza”, disparou.
Casos como o de Rita foram registrados aos montes na unidade, mas diante da promessa do Ministério do Planejamento de conceder suplementação de R$ 102 milhões para a PF retomar o serviço, a frustração pode se transformar apenas em susto.
Para o presidente da Associação Brasileira das Agências de Viagens no DF (Abav-DF), Carlos Vieira, é cedo para analisar qualquer impacto da suspensão na economia de turismo da capital ou de qualquer outra unidade da federação. “Quem estava planejando viajar em julho já estava organizado. Talvez um ou outro estava descuidado, mas não vai influenciar muito nas férias”, opinou.
Ele se mostrou otimista quanto à resolução do problema em poucos dias, mas também alfinetou o Governo. “Mais uma vez o serviço público não funciona. O País não pode ficar sem esse serviço, porque isso integra a economia em vários níveis”, analisou. “Não é só o setor de viagens que sofre, existe uma cadeia produtiva. Relações diplomáticas deixarão de acontecer, negócios não serão feitos”, concluiu o presidente da Abav-DF. Vieira acredita em uma resolução até segunda.
Saiba mais
- O atendimento da Polícia Federal no Riacho Fundo é o único local de emissão de passaporte no DF. A unidade da Rodoviária do Plano Piloto descontinuou o serviço em agosto do ano passado.
- A unidade emitia, em média, 380 documentos por dia, podendo realizar até 1,5 mil atendimentos em um único expediente.
- Cada brasileiro gasta cerca de R$ 257 para conseguir um passaporte, mas, conforme a PF, esse dinheiro vai para um fundo de investimento da própria corporação, não necessariamente para a confecção dos documentos. A Polícia teria feito nove avisos ao Ministério do Planejamento sobre a falta de previsão orçamentária para o serviço, desde o ano passado, mas só teria recebido metade da verba em 2017.
Sem previsão de entrega
A PF suspendeu a emissão de passaportes agendados depois do último dia 27, para o azar da jornalista Ellen Mohamed, 24 anos. Ontem, ela foi ao local, conforme agendamento feito pelo site, e recebeu a notícia de que não havia previsão para a entrega do documento. Aos prantos, ainda atacou a postura dos atendentes no guichê.
Segundo a jovem, seu passaporte é válido até 20 de setembro deste ano e sua viagem para Nova York está prevista para agosto. Devido a acordos internacionais, os EUA aceitam visitantes mesmo com a proximidade do vencimento de seus documentos de viagem. Ellen, portanto, faria a renovação apenas por precaução.
“Eu cheguei a perguntar para o moço se, mesmo dando entrada no processo, eu poderia preservar o meu passaporte antigo e ele disse que sim. Depois de carimbar ‘cancelado’ no meu documento, ele olhou para mim e perguntou se eu ia viajar por agora. Eu fiquei com muita raiva. Ele não prestou atenção”, desabafou.
A jornalista revelou que só poderia rezar para tudo dar certo e não escondeu sua frustração crescente. “A gente fica um ano pagando as prestações, juntando dinheiro, se privando de tudo, e de repente acontece uma coisa dessas”, reclamou. E ainda teve bom humor para emendar: “mas a gente é brasileiro e não desiste. Vamos aguardar”.
A Polícia Federal se negou a comentar a dificuldade orçamentária ou qualquer repercussão a respeito. Por meio de nota divulgada em seu site, a corporação se limita a garantir que “acompanha atentamente a situação junto ao Governo Federal para o restabelecimento completo do serviço”.