Menu
Brasília

Estupro gera transtornos e deixa sequelas. Em 5 meses, foram quase 300 casos

Arquivo Geral

26/06/2011 15h11

Ana Paula Andrella
ana.fernandes@jornaldebrasilia.com.br

 

Pesadelos, síndrome do pânico, náuseas e depressão profunda. Foram essas as marcas que acompanharam Letícia (nome fictício) por pouco mais de um ano, após ela ter sido vítima de estupro. Assim como Letícia, quase 300 pessoas foram estupradas em 2011, até maio. O que mostra que esse tipo de crime, com uma média de 57 ocorrências por mês, vem crescendo no DF. E a maioria das vítimas é crianças. Em 2010, outras 600 pessoas foram violentadas no DF.

 

As ocorrências de estupros divulgadas na semana passada chocaram os moradores do DF. Mas se as ocorrências assustam quem ouve falar dos abusos, as marcas deixadas por um crime horrendo como o estupro são capazes de mudar totalmente a vida de quem passou por essa terrível experiência.

 

Letícia acordou cedo na manhã de uma terça-feira para trabalhar, em abril do ano passado. Estava disposta, sentindo-se bem, com a autoestima elevada. Fez um penteado elegante, arrumou-se toda e foi para a parada de ônibus onde sempre tomava o transporte e seguia para o trabalho – local onde só teve coragem de voltar mais de um ano depois do abuso a que foi submetida.

 

Enquanto esperava o ônibus, um carro parou, derrapando, em frente a ela. Rapidamente, um casal puxou Letícia para dentro do veículo. Enquanto se dirigiam para um matagal, obrigaram-na, sob ameaça de uma arma, a consumir drogas – um anúncio da violência que viria.

 

“Eles me deram tanta droga que eu comecei a ter tremedeiras e desmaios. Não consegui ver para onde estavam me levando, mas senti que guiavam para um matagal, porque o chacoalhava muito, até que pararam no meio do nada e pediram para que eu tirasse a roupa”, relata Letícia.

 

Sessão de horrores

“Eu me recusei. Então o homem, com um punhal, rasgou minhas roupas, enquanto a mulher revistava minha bolsa. Eles acharam meus comprimidos anticoagulantes, que preciso tomar com frequência. O homem urinou nos comprimidos e me fez engolir todos”, relata. Após obrigá-la a tomar os remédios, o homem pegou o punhal, perfurou as partes íntimas de Letícia e introduziu-lhe objetos. Além de toda essa barbárie, a dupla cortou bem curto os cabelos que ela tanto gostava.

 

“Comecei a sangrar bastante, mas isso os deixou empolgados. Os dois começaram a fazer sexo e queriam que eu assistisse. Eles me batiam enquanto faziam sexo e me obrigaram a assistir, bem de perto, tudo que faziam. Eu não aguentei, virei para o lado e vomitei. E apanhei mais por causa disso”.

 

Letícia conta ainda que, após o ato, ouviu o homem gabar-se do ocorrido. “Ele comemorava que o casal tinha feito mais uma vítima. Lembro que ele falava para ela ‘anota mais essa no nosso caderninho’. Eu achei que fosse morrer”.

 

No entanto, o casal carregou Letícia para dentro do carro e a abandonou novamente na Asa Norte. “Eu rastejava, pedia ajuda, mas as pessoas pensavam que eu era uma mendiga. Até que caí perto de uma universidade e um casal parou para me ajudar”, relata.

 

Até hoje, Letícia carrega as cicatrizes da violência à qual foi submetida. “Fiquei uma semana na UTI (Unidade de Terapia Intensiva), mas eu queria morrer. Perdi totalmente a autoestima, tinha medo de me olhar no espelho, até que o pessoal do Pró-Vítima apareceu. Foi mais de um ano de terapia. Hoje, ainda tenho pesadelos, mas voltei a levar uma vida normal”, comemora.

 

“Lembro que comemorei muito quando recebi alta da terapia, há pouco mais de dois meses. Mas, nesse tempo, mudei de casa e fui perdendo o trauma de pegar ônibus. Sempre achava que estava sendo seguida nas ruas, mas fui perdendo esse medo”.

 

O mais difícil, porém, foi retomar a vida sexual. “As cicatrizes sempre me lembravam o que tinha me acontecido. Foram várias tentativas frustradas, em que minha autoestima ficava ainda mais devastada. Mas hoje, finalmente, voltei a ter uma vida normal”. Para isso, Letícia conta que a ajuda profissional foi fundamental. “Sozinha, sem terapia, eu não teria conseguido. A ajuda imediata foi o que me salvou”, assegura.

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado