Com o passar dos anos, o perfil de imigrantes que vêm tentar a sorte em Brasília mudou. Nas primeiras décadas de existência da capital, principalmente homens, com baixa qualificação, chegavam à cidade em busca de empregos na construção civil, para ajudar a erguer a cidade. Agora, o imigrante moderno vem atrás de oportunidades profissionais, principalmente no serviço público. Hoje, a maioria é formada por mulheres.
A melhoria da qualificação do imigrante começou nos anos 1970, com a transferência de órgãos públicos para a nova capital. Até então, a cidade atraía pessoas jovens, com baixa escolaridade, para o trabalho nos canteiros de obras.
Esses e outros dados compõem um estudo da Companhia de Planejamento do DF (Codeplan), que aponta a evolução dos processos migratórios em direção ao DF. Desde 1959, a população do DF, assim como em todo País, passou por transformações e até mesmo a proporção de mulheres na capital aumentou, já que os primeiros imigrantes vinham sem as companheiras. O que fez com que os habitantes do sexo feminino fossem apenas 34,2% da população um ano antes da inauguração da cidade. Atualmente, as mulheres representam 52,2% dos habitantes.
“Nos anos 1990, por exemplo, tivemos uma forte migração por conta das políticas habitacionais aqui no DF. Mas esse quadro se reverteu a partir de 2000, quando os concursos públicos voltaram a ser atrativos”, disse a coordenadora do estudo, Mirna Augusto de Oliveira, do Núcleo de Estudos Populacionais da Codeplan.
Adaptação
Quando chegou ao DF, em julho de 2012, João Gabriel Rodrigues, 32 anos, veio tomar posse em cargo no Ministério Público Federal. Mas a ideia de morar na capital já estava nos planos do servidor público.
“Quando comecei a estudar para concursos, já tinha o foco em cargos que são melhores em Brasília, como auditor da Receita Federal e fiscal do trabalho. Portanto, vir para Brasília era algo que eu já pensava que poderia acontecer”, explica.
Já adaptado à cidade, João Gabriel nem pensa em voltar para Uberlândia (MG), sua cidade natal: “Estou esperando ser chamado para trabalhar na Câmara, então vou ter que ficar aqui mesmo para o resto da vida. Já me sinto brasiliense”.
Dois objetivos trouxeram a cantora Marina Morais, mineira de 32 anos, a Brasília: se firmar como cantora profissional e passar em um concurso público, para garantir estabilidade. “Na minha cidade já tinham se esgotado as possibilidades como cantora. Já cantava nas maiores bandas e decidi vir para cá para ter mais chances na carreira. Mas uma coisa leva a outra e eu penso em seguir no funcionalismo público também para poder ter tranquilidade para cantar”, conta.
Segundo a artista, sempre foi necessário trabalhar para conseguir cantar e agora, em Brasília, a intenção é seguir o mesmo plano, só que trabalhando para o governo. “Trabalhava em escritório na minha cidade, Patos de Minas. Cheguei aqui sozinha e estou fazendo contatos com produtores e bandas. Larguei tudo para vir pra cá”, revela.
A brasiliense Margareth Leles, 30 anos, tem família mineira e também morou em Patos de Minas durante sete anos. Após concluir a faculdade de administração, resolveu voltar ao DF para fazer mestrado.
Os planos não foram bem como o planejado, mas ela se sente realizada profissionalmente. “Acabei não fazendo o mestrado. Decidi prestar concurso e passei para gestora, no GDF. Tive um filho e posso dizer que meu mestrado se chama Lucas”, brincou. “Brasília proporciona mais oportunidades”, completa a servidora.
Segundo o presidente da Codeplan, Júlio Miragaya, dois fatores chamam atenção na pesquisa: a imigração nordestina ter recuado, e o saldo migratório do Centro-Oeste e, principalmente, de Goiás, ter sido negativo. “A queda na vinda de nordestinos tem a ver com as políticas de transferência de renda e programas como Bolsa Família. Já no caso de Goiás, esse intenso fluxo migratório rumo a Goiás ficou concentrado na Região Metropolitana, principalmente por conta das oportunidades de moradia”, afirmou.
No caso do Centro-Oeste, o estudo aponta que, entre as chegadas e saídas, o saldo ficou em -74 mil, durante o período de 2000 a 2010.
A região Nordeste respondeu por 82 mil imigrantes a menos, quando comparados os períodos de 1991 a 2000 e de 2000 a 2010, quando 533 mil pessoas chegaram à capital vindas da região.
Projeções
A Codeplan não possui uma estimativa de como será a população para os anos de 2020 e 2030. Segundo o economista Newton Marques, as projeções dependem de vários fatores. “Deve se pensar em qual modelo de desenvolvimento queremos para o DF: investimentos em tecnologia da informação, genética, indústrias? A atratividade da capital depende dos tipos de investimentos que serão feitos aqui”, explicou.
Já Miragaya afirma que é possível que a população do DF se estabilize nas próximas décadas. “O Brasil adquire índices de crescimento demográfico semelhante a países europeus. A estabilização pode acontecer por volta de 2040. Brasília também segue essa tendência, a não ser que aconteça um fluxo migratório improvável”, avaliou.