Pedalar na Ponte Costa e Silva é um desafio para o chaveiro José Maria Alves da Cunha, 51 anos. O local reservado aos ciclistas apresenta imperfeições no piso que impede o chaveiro de prosseguir com segurança. “Tenho que descer toda hora porque não dá para passar pedalando. Isso já está assim faz um tempão”, relata. O problema não é restrito apenas à ponte que liga a Asa Sul ao Lago Sul. Um estudo inédito feito pelo Sindicato Nacional de Arquitetura e Engenharia (Sinaenco), divulgado ontem, revela que muitos monumentos de Brasília carecem de manutenção.
O relatório aponta as nove construções que mais necessitam de intervenções. São elas: Palácio do Buriti, Panteão, Pombal, Ponte Costa e Silva, Ponte das Garças, Ponte do Bragueto, Prédios da Reitoria da UnB e Viadutos 316 Sul e N2 Norte. Todos foram condenados pelos especialistas e receberam um selo nada agradável: “Prazo de Validade Vencido”. A frase também intitula o estudo. “O que nós queremos é provocar as autoridades para alertá-las sobre a importância de se investir em manutenção. No Brasil, não existe essa cultura de cuidar das obras e isso pode ocasionar problemas mais graves”, destaca o presidente do Sinanco-DF, Rodrigo Gazen.
Trabalho é realizado
O secretário de Obras, Márcio Machado, concorda que algumas edificações merecem atenção, mas diz que existe, sim, uma política de manutenção. “Desde 2007, o governo investiu mais de R$ 50 milhões no reparo de prédios públicos e viadutos. Para você ver, já fechamos contrato com uma empresa para a reforma do Panteão e a Torre de TV já passando por transformações”, enumera.
Na Ponte Costa e Silva, uma fissura com mais de três centímetros no concreto de uma das margens compromete a estrutura do local. O engenheiro Fábio Nunes, diz que a rachadura foi provocada por algum tipo de movimentação, que não é normal em construções deste porte. Ele diz que não é possível saber se o fenômeno é um indício de um problema mais sério. “Identificamos que existe um problema. No projeto inicial da ponte, não estava previsto que ela se movimentasse, mas isso ocorreu. Agora, as causas precisas e a gravidade só podem ser definidas com um estudo mais aprofundado”, ressalta o engenheiro, que também participou das inspeções às obras.
A Ponte do Bragueto também está com o prazo de validade vencido. Um dos mais importantes acessos da Asa Norte apresenta armaduras expostas e buracos provados pela passagem de veículos pesados. Uma fissura de 8 metros também indica que a edificação carece de reforma. Buracos e infiltrações em toda sua estrutura são identificados facilmente. “Não quer dizer que a Ponte está prestes a cair. É um problema que dá para ser corrigido com uma intervenção mínima no trânsito, mas se não for solucionado rapidamente, pode demandar uma intervenção maior”, frisa Fábio.
Para o vice-presidente de engenharia do Sinaenco, Guaracy Klein, os diagnósticos indicam que faltam investimentos na área de manutenção. Ele esclarece que, para uma obra ter uma vida útil prolongada, a recomendação é que a manutenção seja feita a cada dois anos. E afirma que a ausência deste cuidado pode custar bem mais caro. “Se os governantes tivessem a mentalidade de aplicar de 2% a 5% do valor total de uma obra em manutenção, a vida útil dessa obra seria bem maior. No entanto, a cada etapa que você identifica um problema e deixa de fazer a manutenção, ele se torna cinco vezes mais caro. Quando tudo estiver deteriorado, a manutenção vai custar mais do que a construção”, explica Klein.
O viaduto que fica em frente à Galeria dos Estados também foi reprovado pelos engenheiros e arquitetos do Sinaenco. A estrutura, uma das mais antigas de Brasília, de todas, é disparada a que mais tem infiltrações. “Aqui chove na seca brava”, diz o ambulante Carlos José da Silva, 51 anos. Ele usa a frase para descrever as goteiras, que estão por toda a parte do viaduto. O processo avançado de deterioração colaborou para a formação de rachaduras e buracos. Quem passa de carro não percebe, mas uma observação criteriosa revela que a ação do tempo consome a construção dia a dia.