Jéssica Antunes e Manuela Rolim
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Apesar do discurso de endurecimento do movimento que ocupa escolas públicas, os manifestantes, pouco a pouco, esvaziam os centros de ensino. Ontem, mais um colégio foi desocupado: o Centro de Ensino Médio Setor Oeste (Cemso), na 702 Sul, que deve retomar as atividades hoje. Enquanto isso, pais de estudantes demonstram preocupação com a manifestação, que, segundo eles, é equivocada a partir do momento em que fere o direito dos demais.
Saiba mais
- Também em pauta está a chamada Lei da Mordaça, em relação ao projeto de lei 193/2016, que inclui entre as diretrizes e bases da educação nacional o programa Escola sem Partido.
- O adiamento das provas para dezembro afetará 3.178 alunos. São aqueles que fariam o exame em escolas ocupadas até a data limite estabelecida pelo MEC.
O grupo de alunos desafia decisão da Justiça e exige uma reforma do Ensino Médio, mas não a proposta pelo Governo Federal. Entre as reivindicações estão “a melhoria das estruturas, gestão horizontal, diversidade e investimento”.
Até esta publicação, quatro escolas seguiam ocupadas: Centros Educacionais Gisno e 1 de Planaltina, os Centros de Ensino Médio Setor Leste, Elefante Branco e Taguatinga Norte (CEMTN), além dos Institutos Federais de Santa Maria e São Sebastião e da UnB. Até ontem, quatro unidades haviam sido desocupadas pela PM: o Cemso, o Centro de Ensino Médio Ave Branca (Cemab), 304 de Samambaia e 111 do Recanto das Emas.
A promessa, porém, é de que o movimento se intensifique a partir de segunda-feira, quando 15 escolas podem ser tomadas. Para os secundaristas, que concederam entrevista coletiva ontem, a pressão pela desocupação devido ao Enem não passa de estratégia. “Não vai funcionar”, avisou Francisco Franco, 17, aluno do Cemso, antes de a instituição ser esvaziada.
Na terça-feira, o juiz Alex Costa de Oliveira, da Vara da Infância e Juventude, determinou a desocupação de todas as escolas do DF, autorizando a PM a usar medidas como corte de água, luz e gás; restrição ao acesso da família e de amigos; e “instrumentos sonoros contínuos para impedir o período de sono”.
As deliberações foram criticadas pelos estudantes, que classificaram como “tortura”. “A gente não vai se calar diante dessa atitude grotesca da Justiça que permite o uso de tática de guerra. Nossa luta é legítima. Sofremos pressão, ameaça de grupos contrários com armas brancas e até de fogo”, reclamou o aluno Francisco Franco.
De acordo com a PM, quatro unidades devem entrar no cronograma de desocupação após determinação de reintegração.
Impasse deixa pais apreensivos

Manifestantes pedem mudanças no Ensino Médio diferentes das propostas pelo Governo Federal. Foto: Myke Sena
Por outro lado, há quem seja contrário ao movimento e, como consequência, se sinta ameaçado por não compactuar com as ocupações, informa o presidente da Associação de Pais e Alunos das Instituições de Ensino do DF (Aspa), Luis Claudio Megiorin.
“São famílias atentas à educação dos filhos, que não admitem a perda de conteúdo ou provas importantes, como o Enem e o PAS, mas que estão reféns da situação. Enquanto isso, os filhos estão ociosos em casa, com dúvidas, correndo contra o tempo para garantir um bom resultado”, relata.
Apesar de defender o direito dos alunos de reivindicar, Megiorin afirma que a Aspa discorda do ato nas escolas públicas do DF. “O direito deles (estudantes) acaba a partir do momento em que os mesmos violam o direito dos contrários à ocupação de permanecer estudando. Além disso, é nítida a influência de pessoas que não pertencem à comunidade escolar no movimento. Quer protestar? Vai para o Congresso Nacional ou o Ministério da Educação”, completa.
Entenda:
Reforma no ensino médio
A Medida Provisória 746 estabelece que os currículos sejam organizados por áreas do conhecimento para priorizar a interdisciplinaridade e a aplicação dos conhecimentos em outras áreas com flexibilização do conteúdo.
PEC dos gastos
Estabelece que as despesas da União, incluindo Saúde e Educação, só poderão crescer conforme a inflação do ano anterior por 20 anos.
Para ele, a ocupação é um resquício do “doloroso” processo de impeachment da ex-presidente Dilma Rousseff. “Claramente, é uma manifestação ideológica, política e partidária. Uma tentativa de ocupar um espaço que foi perdido. Vemos pouca tentativa de diálogo ou debate sobe as reivindicações”, conclui Megiorin.
Mãe de uma aluna de 15 anos de uma escola na Asa Sul, a autônoma de 51 anos que prefere não se identificar, diz estar preocupada com a situação. Segundo ela, sua filha está sofrendo retaliação nas redes sociais, o que a obrigou a se desfazer de todas as contas. “Disseram para ela que ‘sua mãe está se metendo demais’. Ela está amedrontada, abalada. Como vai fazer as provas do Enem e do PAS desse jeito?”, questiona.
Assim como o presidente da Aspa, a mãe também diz não ser contra a reivindicação, mas, sim, a forma como ela foi feita. “Violaram o direito de ir e vir da minha filha e de muitos colegas dela. Até algumas amizades foram desfeitas. Tenho muito medo da volta às aulas. Estão todos no limite, de ambas as partes”, conclui ela, que almeja um acompanhamento psicológico para os estudantes no fim das desocupações.