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Brasília

Especialista mostra gravidade dos fatores que levam ao suicídio

Arquivo Geral

06/09/2016 7h00

Estudante não enxergou saída para conflitos por duas vezes, mas descobriu no diálogo uma solução. Foto: Angelo Miguel

Ana Lúcia Ferreira e Jéssica Antunes
redação@jornaldebrasilia.com.br

“Compreender que posso lidar com meus problemas sem que seja preciso anular minha vida é a maior recompensa”. Assim, Mariane (nome fictício) definiu seu novo momento. Nesta segunda reportagem do JBr. sobre suicídio, a estudante de 22 anos contou como conseguiu superar a dor após tentativas de eliminar a própria vida.

Com dificuldades de relacionamento desde a infância, Mariane passou por traumas, de certa forma, comuns na vida de um adolescente: a mudança de escola, por três vezes, devido à falta de adaptação, a ausência de amigos e a falta do pai.

Saiba mais

O Centro de Valorização da Vida ( CVV) possui experiência na prevenção do suicídio e apoio emocional há mais de meio século e oferece essa nova opção de atendimento gratuito – aos sobreviventes de tentativas de suicídio e suas famílias – com base no conhecimento acumulado e em técnicas específicas para grupos de apoio.

Ontem, o Jornal de Brasília mostrou que, em média, dez pessoas tiram a própria vida a cada mês no DF.

A cada 40 segundos, uma pessoa comete suicídio em alguma parte do planeta.
A cada 24 horas, 30 desistem de continuar vivendo no Brasil.

Aos 15 anos, ela teve o primeiro contato com seu progenitor. A expectativa criada na imaginação não correspondeu à realidade. “Foi um desastre. Esperei tanto por aquele momento e, quando realmente aconteceu, eu preferia que não tivesse existido”, afirmou.
Entre essa e outras decepções, Mariane foi diagnosticada com transtornos como depressão e bipolaridade. Sem perspectivas, na tarde de uma terça-feira de dezembro de 2015, ela se dopou na esperança de eliminar os problemas.

Socorrida e medicada, a garota mal compreendia o porquê de ainda estar ali, no leito do hospital. Três dias após a liberação médica, uma nova tentativa: dessa vez, foi contida. “Naquele momento, eu ainda tinha dúvidas de o que queria. Chorava bastante e não encontrava solução”, disse a estudante.

Desafios diários

Os desafios cotidianos são muitos. Há conflitos em casa, na escola e no trabalho, de identidade sexual e de relacionamentos, entre outros. “Descobrir como lidar com essas temáticas é o principal desafio humano”. A afirmação é do professor Marcelo Tavares, coordenador do Núcleo de Intervenção em Crise e Prevenção do Suicídio da Universidade de Brasília.

Para o professor Marcelo Tavares, fatores de risco existem, mas precisam ser melhor identificados. Foto: Angelo Miguel

Para o professor Marcelo Tavares, fatores de risco existem, mas precisam ser melhor identificados. Foto: Angelo Miguel

Apesar de ser um assunto pouco falado e visto como tabu, a prática de suicídio é bastante comum. Em sua maioria, os problemas só vêm ao conhecimento de amigos e familiares após a atitude que levou ao óbito.

“Normalmente, pessoas que estão em risco de sofrimento grave, com ideação suicida, falam disso e já fizeram tentativas que muitas vezes a família desconhece”, explicou.

Segundo o especialista, na sociedade existem dois grandes problemas: a incapacidade de lidar com a dor do indivíduo e a insensibilidade com o sofrimento do próximo. “A maneira como a pessoa toca a vida da outra faz grande diferença. Ninguém ensina como lidar com conflitos e, na maioria das vezes, se espera muito até tomar uma atitude. Todos nós temos dores”.

“A renovação é diária”

O diálogo foi o que contribuiu para a melhora de Mariane. A jovem descobriu na conversa e nas ações do dia a dia uma esperança para lidar com suas frustrações.
“Falar sobre tudo me fez bem. Aprendi a não guardar comigo o que me incomoda. Descobri que tenho amigos e familiares que me amam e que sofreriam bastante com a minha ausência. Comecei a sentir prazer em pequenas ocasiões e atividades que antes não faziam sentido e aprendi que não posso sanar todos os problemas como eu gostaria. A renovação é uma atividade diária.”, explicou.

Falta de informação

Especulações, clichês e ausência de estudo são as principais questões que prejudicam o assunto. Para o professor Marcelo Tavares, fatores de risco existem, mas precisam ser melhor identificados.

“Há questões que ajudam o profissional a identificar onde existe o risco. A depressão, por exemplo, é o transtorno mental que mais leva ao suicídio, mas grande parte das pessoas depressivas não irá cometer tal atitude”, explica. “O suicídio não é uma doença. É um fato que acontece na vida de uma pessoa em sofrimento. Não existe tratamento para isso. Se aconteceu, é tarde demais”, concluiu.

Segundo o coordenador do programa de prevenção da UnB, existe uma grande diferença entre prevenção e tratamento. A primeira medida é realizada exatamente para que não seja necessária a segunda ação, esta utilizada em pessoas já diagnosticadas com algum tipo de transtorno.

“Há dores de longa duração, como problemas familiares e de infância, recorrentes e de grande intensidade. É preciso avaliar a necessidade do paciente e desenvolver um tratamento compatível. No fundo, todas essas pessoas buscam por uma chama de esperança para encontrar um novo caminho e buscar transformações construtivas na vida delas”, ressaltou Marcelo Tavares.

Pelos sobreviventes

Falar e dividir a dor. Assim pode ser superado o sofrimento. No mês passado, o Centro de Valorização da Vida (CVV) criou o Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio (Gass) para amigos, familiares e pessoas que tentaram acabar com a própria vida. A intenção é facilitar a troca de experiências e dar apoio emocional mútuo.

Gilson Moura é coordenador de divulgação do Gass e explica que o grupo é aberto à comunidade. “As próprias pessoas se ajudam, enquanto nós atuamos como mediadores. Em uma hora e meia de reunião mensal, fala-se das dores e experiências. Juntos, eles se fortificam”, esclarece.

Estudos apontam que, a cada suicídio, um circulo de até dez pessoas é envolvido e sofre consequências emocionais ou sociais que podem causar sequelas. São familiares ou amigos que podem sentir culpa, vergonha, tristeza ou outras emoções que precisam ser trabalhadas.

Serviço:

Grupo de Apoio aos Sobreviventes de Suicídio (Gass)
Quando: última quinta-feira de cada mês, às 19h30
Local: a confirmar
Informações: 141 ou 3326-4111

 

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