Raphaella Sconetto
raphaella.sconetto@gmail.com
Acasa gotejando em todos os cômodos e o forte cheiro de mofo denunciam os prejuízos na casa da dona Geilvânia Silva da Paixão, 46 anos. São Sebastião foi uma das regiões que mais registraram ocorrências relacionadas à chuva da madrugada de ontem, de um total de 21 chamados pelo Corpo de Bombeiros. A capital registrou precipitações acima da média em três meses deste ano.
O sobrado da dona de casa e do marido, José Aparecido Veiga, 51, tem um quarto, cozinha, sala e uma área de serviços. Tudo feito provisoriamente. Sem laje ou telhado no segundo andar, é inevitável que a estrutura se encharque.
“Compramos a casa com o sonho de terminar. Até que conseguimos dar uma continuação nas obras, mas meu marido caiu da escada e quebrou o braço, no dia 30 de dezembro. Ficou faltando fazer a laje”, diz.
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
Geilvânia mostrou à reportagem todos os cômodos e o estrago causado. “Eu sei que chover é bom, mas para mim só traz problemas. Não está dando tempo de secar direito. Antes de parar de pingar, chove de novo”, diz, em lágrimas. O marido lembra dos raios e da ventania da madrugada passada. “Foi muito forte”, resume.
Como no famoso “jeitinho brasileiro”, todos os dias Geilvânia sobe no segundo andar para rapar a água parada e improvisa: “Não tenho mais nada. No único armário eu coloco um guarda-chuva para não molhar a comida. Perdi sofá, tinha estante, mas ela acabou, o rack apodreceu. Meus móveis não aguentam. Quando a gente dorme, fica pingando. Acordo a noite toda com água caindo”, desabafa.
Em casa, a única renda vem da venda do sabão que ela produz. “Tenho dois filhos. Meu caçula faleceu no ano passado, em um acidente de trânsito. Era meus pés e minhas mãos. O único que trabalhava de carteira assinada. O outro casou. Só restamos nós dois e não podemos trabalhar”, conta. Geilvânia sofre de fibromialgia, tem uma lesão na coluna e nódulo no pulmão, é hipertensa e tem bronquite, asma e sinusite. “Como sobreviver assim?”, questiona.
- Geivânia Silva Paixão e José Aparecido da Veiga /Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- José Aparecido da Veiga / Foto: Breno Esaki
- Geivânia Silva Paixão e José Aparecido da Veiga Foto: Breno Esaki
- Geivânia Silva Paixão e José Aparecido da Veiga Foto: Breno Esaki
Mais prejuízos
No Centro de São Sebastião, moradores da Rua 44 também relataram medo durante a madrugada. Uma casa corre risco de desabamento, conforme o Corpo de Bombeiros. No mesmo lote, fica a residência da doméstica Ana Lídia Afonso, 35 anos, que acordou com o barulho da água. Na frente de sua casa, há um bueiro e as manilhas da drenagem pluvial acabam dentro do seu quintal. “Com o lixo dentro do bueiro, não tinha para onde escoar. Veio todo o lixo de São Sebastião para cá”, critica.
De acordo com a moradora, a água chegou a bater na cintura. “Foi um terror. Para a água sair da minha casa, eu tive que quebrar a parede do banheiro. O carro do meu irmão foi parar no fundo do quintal”, conta. A doméstica passou o dia limpando os estragos.
Água entra até pelas janelas
Vizinho de Ana Lídia, o desempregado Cristiano Francisco de Jesus, 37 anos, alega que esta foi a primeira vez que a Rua 44 sofreu tanto com a chuva. O lote do homem abrange três casas. Em uma delas, a água chegou a entrar pela janela. Assim como a vizinha, ele precisou quebrar um pedaço do muro. “No fundo do lote eu tive que começar a nadar. A água chegou a bater no peito”, lembra.
Segundo o Corpo de Bombeiros, também em São Sebastião um homem foi arrastado pela chuva. Ele estava dentro de um veículo na Rua Principal Gameleira. O estado de saúde da vítima não foi divulgado.
- Cristiano Francisco de Jesus / Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
- Foto: Breno Esaki
Socorro
Da 0h às 9h de ontem, os bombeiros receberam 21 chamados, sendo dez acidentes de carro, seis quedas de árvores, dois riscos de desabamento, duas casas alagadas e a pessoa arrastada.
Um carro estacionado na 712 Sul ficou inundado. O prédio do Hospital Regional de Planaltina também foi alagado com a forte chuva. Segundo o relato de pacientes, a água invadiu os corredores do ambulatório, do centro obstétrico e do auditório. No Gama, o Centro de Saúde 6 foi atingido pela tempestade. Além das unidades de saúde, a Avenida Independência, em Planaltina, também ficou alagada.
O Corpo de Bombeiros ainda informou que muros de seis residências do Condomínio Ouro Vermelho 2, no Jardim Botânico, caíram por causa da tempestade.
Versão Oficial
Procurada, a Administração Regional de São Sebastião diz fazer limpar com frequência as bocas de lobo e bueiros da cidade, mas alega que não é o suficiente em razão da falta de conscientização de parte da população, que descarta o lixo incorretamente nas ruas e obstrui os canais de escoamento.
“O recolhimento do lixo e de inservíveis também é feito com frequência pela Administração, mas, por causa da constante reposição dos entulhos, os problemas continuam sempre que chove. A administração intensificará as campanhas de conscientização, averiguará a situação do endereço citado e tomará providências”, diz.
SAIBA MAIS
Se para uns a chuva causa estragos, para os reservatórios da capital as precipitações são essenciais. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o mês de abril está acima da média: já choveu 180 mm, enquanto eram previstos 130 mm. Em todo o ano, foram cerca de 850 mm. Somente em janeiro não choveu o que era estimado.
Com isso, os volumes dos reservatórios continuam a subir. No Descoberto, desde o começo do ano o nível encheu em 54,6%: de 30,5%, em janeiro, para 85,1% até ontem, quando foi feita a última medição pela Agência Reguladora de Águas (Adasa). A barragem de Santa Maria, por outro lado, está aumentando aos poucos. Lá, o ano começou com 30,5% e ontem tinha 53,5% do volume útil.












