Redação Jornal de Brasília/Agência UniCeub
*Por Catherine Machado
Na movimentada Esplanada dos Ministérios, em meio a turistas, servidores públicos e manifestações políticas, uma série de barracas coloridas resiste ao tempo.
Há quatro décadas, o artesão Vidal Raimundo Oliveira, de 65 anos, mantém viva uma tradição: a venda e produção artesanal de flores secas do Cerrado.
Natural do Ceará, Vidal chegou à capital federal em 1978, quando Brasília ainda crescia entre obras e ruas em construção.
Mas foi apenas em 1986 que começou a trabalhar na barraca de flores secas na Esplanada, lugar onde permanece até hoje.
A rotina começa cedo. Morador do Jardim Ingá, em Luziânia (GO), Vidal sai de casa entre 7h30 e 8h. “Chego aqui nove horas, nove e pouco”, diz.
O material com que trabalha vem diretamente da natureza. As flores e plantas são retiradas do Cerrado por outras pessoas, sem cultivo ou plantação.
“Isso aqui não é nada plantado, nada cultivado, não. É a natureza mesmo”, explica.
Quando o material chega às suas mãos, começa o trabalho artesanal.
Vidal pinta as flores com anilina diluída em água fervente, processo que dá vida às cores vibrantes que chamam atenção na barraca.
“O cara me entrega do jeito que tira lá do Cerrado, e eu faço os outros trabalhos”, afirma.
Entre os produtos mais procurados estão os buquês de noiva. Vidal conta que muitas mulheres procuram a barraca justamente pela durabilidade das flores secas.
“A vantagem é que esse material aqui não estraga. O pessoal faz os buquês e pode deixar guardado por muitos anos”, diz.
Diferentemente das flores naturais, que murcham em poucos dias, os arranjos secos permanecem intactos como lembrança afetiva de momentos especiais.
Nem sempre, porém, as vendas acompanham o esforço diário. Vidal admite que há dias difíceis.
Tem dia que não vende nada. Ainda assim, segue trabalhando. “Mas um dia pelo outro a gente vai levando.”
A trajetória no ramo começou por influência da família.
Segundo Vidal, um tio trabalhava no local e abriu caminho para que outros parentes também passassem a viver do artesanato com flores secas. Com o passar dos anos, muitos deixaram a atividade, mas ele permaneceu.
Hoje, aos 65 anos, Vidal segue ocupando o mesmo espaço, transformando elementos simples do Cerrado em peças carregadas de memória, tradição e resistência.
Em meio às mudanças da capital e à velocidade da cidade, sua barraca continua sendo um retrato de beleza em Brasília que persiste no cotidiano.
*Supervisão de Luiz Claudio Ferreira e Lourenço Cardoso