João Paulo Mariano
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No momento da prisão, Stefanno Jesus Souza de Amorim, de 21 anos, acusado de ter matado a ex-companheira, não ofereceu resistência. Ele tinha no bolso uma carta de dez páginas, que pediu para ser entregue ao delegado que fosse tomar seu depoimento. A intenção seria dar “sua versão dos fatos”.
Nas cinco folhas de caderno, escritas dos dois lados em letra de forma vermelha, o assassino confesso de Janaína Romão, de 30 anos, tenta elencar os motivos para justificar o crime bárbaro. Faz, ainda, sua versão da história do que o casal viveu nos anos em que esteve junto. E termina a carta com um pedido de perdão, após um crime brutal e perverso. “Perdão filhas. Descanse em paz. Te amo e ainda hei de te encontrar (sic) “.
A carta tem o macabro registro do início e do fim do relacionamento – de 05 de maio de 2012 a 14 de julho de 2018, dia que ele matou a mulher com cinco facadas. Também nas páginas escritas com tinta vermelha, ele diz ter esperança de que as filhas fiquem sob sua guarda quando sair da prisão.
- Divulgação/PCDF
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Princípio
Stefanno não disse quanto tempo levou para escrever a carta. Quase sem pontuação e parágrafos, ela tenta explicar o inexplicável: um crime cruel, que vitimou a ex-companheira a facadas, na frente das duas filhas. Além de não aceitar o fim do relacionamento, ele deixa claro nas páginas que a mulher ainda pertencia a ele – como se Janaína fosse um objeto, e não uma pessoa com vontade própria.
O criminoso confesso detalha nas dez páginas desde o primeiro momento em que ele e Janaína se encontraram, em maio de 2012. Os dois eram vizinhos de quadra, e ele a conheceu poucos dias após completar 15 anos. Pouco tempo depois foram morar juntos e há quatro anos veio a primeira filha. Dois anos depois, eles tiveram a segunda.
Ele descreve diversos problemas no relacionamento, já que foi apreendido diversas vezes. Em uma delas, chegou a ficar detido por dois anos e quatro meses, pois cometeu um homicídio quando ainda era menor. Segundo ele, esse teria sido o quarto assassinato cometido.
Na segunda página, Stefanno dá sua versão do relacionamento, alegando que o casal vivia “super bem”, “eram felizes, alegres, e muito unidos (sic)” e que “passaram meses, anos e o amor só aumentava”. A cada página, ele tenta enumerar fatos que levaram ao relacionamento a uma crise e a traições, confessando ter enganado a mulher uma vez e alegando que Janaína também o teria traído.

Janaína Romão, 30 anos/ Foto: Reprodução/Facebook
Dia do Crime
Em diversos momentos da carta, o assassino, em seus devaneios, diz desconfiar que a ex-mulher estava com outro homem e que por isso Janaína estaria diferente. Ele chega a relatar que teria deixado no passado e pedido a Janaína que as crianças fossem na sua casa. Ela consentiu e as meninas ficaram com o pai durante todo o sábado. Ele garante ainda que não fez ameaças para que Janaína fosse buscar as meninas no fim da tarde, versão diferente da apurada pela Polícia Civil com testemunhas.
“Pedi que ela fosse lá que precisava falar com ela para saber o que estava acontecendo”, afirma. O tio do jovem, então, foi à casa de Janaína para buscá-la e levá-la à quitinete no condomínio Porto Rico, onde estava o sobrinho. Ele a chamou para o quarto e começou a perguntá-la sobre o que estava acontecendo e se ela estava se relacionando com o primeiro marido. Stefanno não aceitava que as filhas fossem criadas por outro.
“E o final todos já sabem…”
Nas duas últimas páginas, antes de pedir desculpas ele afirma que “o final todos já sabem” e que está “arrependido de coração e que a amava muito”. Esse “amor” não foi o suficiente para manter a ex-mulher viva. Janaína foi esfaqueada no peito, perto do coração, depois no tórax, ainda no quarto. Ela conseguiu correr, mas sem forças, chegou apenas a casa em frente, onde levou mais três facadas, que, segundo a PCDF, ele nem sabe onde deu. Ela ainda foi socorrida ao Hospital Regional de Santa Maria, mas não resistiu e faleceu na mesma noite.
Perfil
Stefanno Jesus era um conhecido da Polícia Civil e Militar do DF. Seu histórico é longo: 17 passagens – a última, o homicídio de Janaína. O feminicídio foi o quarto crime contra a vida cometido por ele. Antes disso, teria assassinado um colega de cela, outra pessoa durante um roubo a mão armada e um terceiro seria um desafeto.
Agora indiciado por feminicídio, ele pode ser condenado e pegar pena de 12 a 30 anos, pela morte da ex-companheira. Ele foi preso na tarde desta terça-feira (17), na casa da irmã, na quadra 510 do Recanto das Emas, em uma operação conjunta da 33ª Delegacia de Policia de Santa Maria e da 27ª DP do Recanto.

Foto: Kléber Lima/Jornal de Brasília
Denunciar é importante
Levantamento da Secretaria de Segurança Pública do DF (SSP-DF) aponta que 14 mulheres foram vítimas de feminicídio no Distrito Federal nos seis primeiros meses deste ano. No mesmo período do ano passado, foram dez. Na maioria dos casos, as vítimas possuíam vínculos afetivos com os autores dos crimes.
As forças de segurança reforçam a necessidade de as mulheres denunciarem companheiros que as maltratam física e psicologicamente. Além do 190 da Polícia Militar e do 197 da Civil, há o 180, que é um disque-denúncia para essas situações. Relações abusivas podem levar a morte, como nos diversos casos mostrados pelo Jornal de Brasília.









