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Brasília

Em busca de qualidade de vida para quem trabalha o dia inteiro

Arquivo Geral

18/10/2009 1h00

Rotina árdua de trabalho e tempo mínimo para lazer e descanso. A qualidade de vida e a saúde de pessoas que trabalham excessivamente podem ser seriamente prejudicadas. Além de queda no rendimento profissional, o resultado pode ser de isolamento social.


De acordo com o psicólogo do trabalho e professor da Universidade de Brasília (UnB) Mário César Ferreira, pessoas que trabalham demais podem ter problemas psicossomáticos, como hipertensão, colesterol alto, perda de apetite, assim como insônia, mau humor, ansiedade e depressão. Segundo ele, nos últimos tempos o mundo tem enfrentado uma intensificação do trabalho. “Um fator indicativo disso é que aumentaram os casos de suicídio causados por excesso de trabalho”, afirma.


Além disso, o psicólogo explica que as relações sociais e familiares também são afetadas. “O trabalho excessivo prejudica todas as esferas de vida, já que toma conta do indivíduo, repercutindo em sua relação com a família, com os filhos e com os amigos. Assim, a pessoa acaba sendo afastada do círculo de convivência social”, diz.


Responsabilidade ou vício


Em muitos casos, o trabalho pode se tornar uma verdadeira obsessão. As pessoas com esse perfil são chamadas de workaholics. A expressão americana, que tem origem na palavra alcoholic (alcoólatra), significa uma pessoa viciada em trabalho. O workaholic, por exemplo, não consegue se desligar do trabalho e até deixa em segundo plano parceiro, filhos, pais e amigos.


O professor explica que as empresas são as principais responsáveis pelo problema. “A origem dos viciados está no próprio modelo e na lógica das organizações. Em determinado momento, o workaholic não suporta a pressão e quem paga é a própria empresa ou o cliente”, explica.


Correria por necessidade
Mãe, professora, dançarina, esportista e estudante. De segunda a segunda, Daniela Ferraz, de 33 anos, divide os dias em vários pedaços. A maior parte do tempo vai para o trabalho como professora de espanhol, profissão que desempenha há quase 10 anos. Nos pequenos espaços, a mulher se divide entre o filho, a dança e os sonhos.


O dia ainda está escuro quando Daniela acorda para se preparar à jornada rotineira. Às 6h, organiza os materiais de trabalho, as roupas e a comida que precisa carregar para um dia inteiro fora de casa. “Muitas vezes, tenho que me levantar mais cedo para corrigir provas e exercícios dos meus alunos”, conta a professora que atualmente trabalha em três escolas diferentes.
Durante o tempo vago, resolve os problemas do banco, busca e traz o filho da escola, malha em uma academia próxima ao trabalho e tira um tempinho para sua verdadeira paixão: a dança flamenca. “Se eu não fizer exercício físico e não dançar, fico sobrecarregada de energia e não dou conta de minha rotina”, enfatiza.


O descanso noturno também é escasso e regrado. Ao chegar em casa, Daniela tem atividades para terminar e acaba dormindo apenas depois de meia noite. No entanto, a exaustão diária não é suficiente que deixe de lado a atenção ao filho Bruno Machado, de 9 anos. “Muitas vezes chego em casa tarde do trabalho e vou ajudá-lo nos deveres de casa”, lembra.
Disposição
O fim de semana também não é fácil. No sábado à tarde, Daniela faz curso de informática educativa. O domingão é o dia de corrigir o material produzido pelos alunos e preparar as aulas da semana. “Isso quando não tem assembléia ou reunião da escola na manhã de domingo”, completa.


Apesar de tudo, Daniela não se considera workaholic. “Prefiro estar com minha família e amigos do que no trabalho. É mais por uma questão de necessidade”, afirma. Na vida do namorado, a problemática é igual: enfrenta a rotina pesada da mesma profissão.
O filho reclama da falta de tempo da mãe. “Ela trabalha muito, e ficamos pouco tempo juntos”, lamenta. Daniela diz também sentir falta de acompanhar o desenvolvimento do filho. Nos planos futuros, o sonho de continuar na dança e de constituir família. Quanto ao próximo ano, uma forte decisão: Daniela vai reduzir a carga horária. Tudo promete ser diferente.


Vício ou paixão

Filippe Antonelli, 28 anos, administra 15 empresas ao lado de dois irmãos
Muito trabalho em meio a muita satisfação. Pessoas com muito trabalho podem não ser viciadas, mas apaixonadas pelo que fazem. Conhecidas como worklovers, elas se realizam no trabalho sem deixar de lado família, filhos, amigos e vida social.


O conceito foi criado pelo psicólogo Wanderley Codo, coordenador do Laboratório de Psicologia do Trabalho da Universidade de Brasília, em contraposição e crítica ao termo workaholic. “Na época, toda pessoa que trabalhasse muito era vista como viciada”, lembra.


Em 30 anos de estudo, o pesquisador conta que encontrou pessoas que trabalhavam muito, mas tinham uma relação sadia com a atividade profissional. “O trabalho é uma fonte inesgotável de prazer exclusivamente humano, já que os animais não estabelecem esse tipo de relação”, afirma.

MOTIVAÇÃO
Dentre as características do worklover está a paixão pelo trabalho, que serve como força motivadora e colabora que o profissional lide melhor inclusive com problemas da vida pessoal. “A pessoa aguenta melhor o marido ou a mulher torrando a paciência depois de um dia com bons resultados no trabalho”, brinca o pesquisador.


Além disso, levanta a hipótese de que worklovers tenham menos problemas de saúde do que workaholics, já que têm no desempenho diário um motivo para a felicidade, o que também afeta de maneira positiva o sistema imunológico.


Semelhanças e Diferenças


A pesquisa aponta que tanto o workaholic quanto o worklover normalmente trabalham demais e tendem a se envolver muito no que fazem. Mas as diferenças são evidentes. “Enquanto o workaholic foge da vida por meio do trabalho, o worklover gosta do que faz e também de outras atividades, da mulher, de sexo, da vida dele fora do trabalho”, enfatiza Codo.


Segundo ele, em todas as profissões podem existir workaholics e worlovers. No entanto, empresas com uma organização do trabalho que permite ao profissional perceber a mudança que faz no mundo costumam ter trabalhadores mais apaixonados. “Se você carrega lixo, pode amar o seu trabalho; mas se você é jornalista, a chance é maior porque enxerga a importância de sua atividade para a transformação, porque não está alienado no processo”.
Brasileiros
De acordo com Codo, o Brasil possui um dos povos que mais trabalham no mundo. Entre os profissionais com maior possibilidade de serem worklovers estão professores, cientistas, artistas, executivos, políticos e ambientalistas. “Quanto mais o trabalho é complexo e difícil, mais o ser humano gosta, porque utiliza a capacidade individual e propõe desafios”, ressalta o
psicólogo do trabalho.

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