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Brasília

Em agonia

Arquivo Geral

02/09/2016 6h00

Como era de se esperar, o esporte nacional agoniza. Não, não se trata de uma visão apocalíptica ou excessivamente rígida. É, apenas, a constatação de que passada a falsa impressão de euforia do ciclo de ouro dos esportes no país, nada mudou. Ou melhor, mudou sim: para pior. Com exceção da CBF, que apesar de todas as críticas dos puristas (os mesmos que festejaram sem parar a medalha de ouro de Neymar e companhia), navega com tranquilidade no mar de penúria do esporte nacional – o vôlei também, por justiça, deve ser incluído na pequena lista.

Os Jogos Olímpicos ainda estavam em andamento e já se sabia, por exemplo, que diversas confederações esportivas passariam por reestruturações – nome gentil e adaptado do economês para dizer que a situação não é boa. A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos, por exemplo, avisou que vai demitir funcionários e teme pelo fim (ou redução) do patrocínio dos Correios. Os resultados nos Jogos Rio 2016 ficaram longe, muito longe do esperado – e ainda tivemos de ouvir a famosa frase “dei o meu melhor”, como se isso fosse suficiente e explicasse o baixo rendimento.

Não foi, porém, apenas nas piscinas que o “dei o meu melhor” tornou-se campeão. Nas pistas do atletismo, também. Lá, porém, a medalha de ouro de Thiago Braz acabou suavizando a situação, mas o temor de menos dinheiro também causa arrepios nos cartolas, funcionários e atletas vinculados à CBAt (Confederação Brasileira de Atletismo). Encerrados os Jogos, foi a esgrima quem “fez sua parte”, enviando comunicado no qual fala, até, em problemas para a manutenção do plano de saúde de seus funcionários. Isso depois de o esporte ter feito bonito na Olimpíada carioca (aqui, sim, vale dizer “fiz o meu melhor”, afinal, não temos tradição alguma no esporte).

A organização dos Jogos também já está detonando seu corpo de auxiliares. Claro que era uma atitude esperada, mas foi antecipada. Assim, milhares de colaboradores trabalharão nos Jogos Paralímpicos cumprindo aviso-prévio. Tudo isso para economizar uns R$ 5 milhões. Muita coisa? Para mim e para o leitor, com certeza, mas num orçamento que bateu os bilhões… A “culpa” é da baixa procura e venda de ingressos para os Jogos que começarão dia 7 de setembro (menos de 30% do total, até o momento). Estranhamente não há manifestação dos membros do comitê organizador sobre o tema.

Como também não há qualquer manifestação sobre o que acontece na Confederação Brasileira de Basquete. A menos de três semanas de uma etapa do Circuito Mundial 3×3 a entidade avisou à Federação Internacional que não teria recursos para bancar o torneio. A execração pública mundial veio de imediato. A FIBA (Federação Internacional de Basquete) há algum tempo tolera as lambanças da nossa confederação, mas agora acho que chegou a um ponto em que o puxão de orelhas será pouco. Podem vir sanções mais drásticas – e isso depois do mico de nenhum de nossos times ter sequer passado à fase de mata-mata dos Jogos Rio 2016, em clara demonstração de como está falido o esporte no país.

O mais triste, nisso tudo, é não vermos qualquer manifestação por parte das autoridades e patrocinadores. Cito, aqui, além das autoridades (retrato de anos e anos em que o ministério do Esporte foi usado apenas para receber algum apadrinhado de um partido político que fazia parte da base do governo e queria cargos), os patrocinadores porque vários destes são empresas estatais. Usam o meu, o seu, o nosso dinheiro para bancar farras e farras de confederações que não mostram serviço, resultados, desenvolvimento. O Brasil, como este colunista já escrevera há tempos, não precisa (apenas) de medalhas. Necessitamos de uma política de esporte como desenvolvimento social, evolução. Fora disso, é, apenas, jogar o pouco dinheiro que temos no lixo.

Quem errou?

Muitos criticaram a atitude do Santa Cruz quando, no sorteio da Copa do Brasil, ao verificar que enfrentaria o Vasco, afirmou que jogaria com reservas, não se importando com uma possível desclassificação – desclassificação que o levaria, como levou, a jogar a Sul-Americana (não tentem entender). Quando o Flamengo foi eliminado, também, da Copa do Brasil, pelo Fortaleza, seus dirigentes trataram de fazer do limão limonada e até caçoaram da saída da competição nacional. Agora, Santa Cruz e Flamengo passaram da fase nacional do torneio continental e faturaram, só por isso, mais de R$ 1 milhão, sem falar que, pelos confrontos que terão pela frente (mais fáceis do que teriam na Copa do Brasil), a grana de prêmios pode aumentar ainda mais. No Brasil, pelo visto, está valendo a pena perder.

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