Jéssica Antunes
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Após 29 dias em greve, pelo menos 22 mil professores da rede pública do Distrito Federal receberam o contracheque referente ao mês de abril com abatimento dos dias parados, mesmo com a reposição das aulas em andamento. O governo diz que cumpre uma ordem judicial que determinou o corte de ponto e que depende de um aval da Justiça para fazer uma folha suplementar para pagar pelas datas perdidas. Enquanto isso, 80% dos 28 mil docentes da capital começarão o mês com dificuldades para pagar as contas.
“Quando vi o desconto abusivo no meu contracheque fiquei desesperada”, revela Ray Carvalho, 50 anos. A professora do 3º ano deixará de receber R$ 2.385, montante referente aos descontos na folha de ponto pelos três dias que diz ter paralisado as atividades no mês passado.
“Fiz, ao todo, dez dias de paralisação, a maioria em março. Um desconto de R$ 1.328 já havia sido feito. Nas minhas contas, toda a greve me custaria R$ 780”, afirma a servidora.
Ray promete entrar com ação na Justiça contra o governo. “Em 15 anos de carreira, isso nunca aconteceu. A partir do momento em que o sindicato entrega o calendário de reposição, não se desconta. Sequer explicaram os critérios. Se não pagarem, não vai ter reposição dos dias perdidos e o ano letivo será prejudicado”, reclama a professora.
Em casa, as contas vão apertar, e o tratamento médico da mãe será prejudicado. “Sem contar o gasto que tenho, por conta própria, para garantir material em sala de aula”, acrescenta.
“Caos”
De acordo com Rosilene Corrêa, diretora do Sindicato dos Professores (Sinpro), há servidores que não receberão nada do salário. “É um caos para a vida das pessoas. Isso gera transtorno financeiro e emocional, desorganiza a vida. É um prejuízo gigante e a categoria se sente desrespeitada. Esperamos que isso se solucione com pagamento de folha suplementar para corrigir esse erro”, declara a sindicalista.
A Secretaria de Planejamento afirma, por meio de sua assessoria de imprensa, que os descontos nos contracheques disponíveis cumprem a ordem da Justiça que determinou o corte de ponto, no 13º dia de movimento, em 27 de março.
A pasta conta que foram realizadas reuniões com o Sinpro e com o Ministério Público do DF em busca de um acordo para fazer uma folha suplementar e pagar os dias parados, “mas isso ainda depende do aval da Justiça”. O abatimento foi feito a partir da folha de ponto e dos relatórios diários enviados ao governo durante a greve.
Os servidores reivindicaram reajuste salarial de 18% e pagamento da última parcela do reajuste concedido em 2013. O GDF, porém, alegou não ter condições financeiras de arcar com as demandas, mas ofereceu o pagamento de até R$ 100 milhões, de acordo com a disponibilidade do caixa, para quitar licenças-prêmio. Além disso, se comprometeu a não adotar a nova Lei da Terceirização na atividade- fim da educação.
“Rollemberg é patrão”
Nosso patrão é o governador, e ele é responsável pela folha de pagamento”, reclama Rosilene Corrêa, diretora do Sinpro. Para ela, a judicialização do movimento grevista foi o grande problema.
“Quando fizemos a última reunião, colocamos que sem a negociação dos dias de greve não havia menor condição de a categoria avaliar uma possibilidade de retorno. O governador tem essa competência e se comprometeu a não descontar os dias parados, mas se eximiu da responsabilidade, transferindo-a para o Judiciário e Ministério Público”, afirma.
Reposição
A expectativa era de que o governo assumisse o compromisso de manter os salários para que as reposições acontecessem, como de costume. A categoria tem até o dia 2 de setembro para finalizar a reposição das aulas perdidas em decorrência da greve da categoria. A decisão foi firmada em reunião entre representantes da Secretaria de Educação e a entidade de classe.
“Chegamos ao quinto dia útil sem que o governo desse solução ou quisesse assumir isso. O calendário de reposição está em andamento, nós cumprimos com nossa responsabilidade e recebemos o contracheque com indignação”, revela Rosilene Corrêa.
Agora, o sindicato está na expectativa da análise do pedido de homologação do acordo. Dependendo do que for resolvido, nesta semana, por Executivo e Judiciário, a categoria deve avaliar ações de reivindicação.