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Documentário brasiliense ganha como melhor curta

A história de lavadeiras que mudaram o destino de suas filhas, lutando para que tivessem acesso à educação, concorreu com outras seis produções

Foto: Agência Brasil

A documentarista e professora da Universidade de Brasília (UnB) Edileuza Penha de Souza teve o seu curta “Filhas de Lavadeira” (2019, 22’) premiado como melhor filme pelo júri do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro 2021, organizado pela Academia Brasileira de Cinema e Artes Audiovisuais (ABCAA), entidade dedicada a contribuir para a discussão, promoção e desenvolvimento do cinema no país.

A história de lavadeiras que mudaram o destino de suas filhas, lutando para que tivessem acesso à educação, concorreu com outras seis produções. “Filhas” teve aporte do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec) no valor de R$ 120 mil.

“Estou muito feliz. Acredito que estamos no caminho certo, de dar voz para mulheres que foram historicamente silenciadas. Esse cinema é urgente”, declara a cineasta.

O filme também foi laureado no ano passado pelo prestigioso festival internacional de documentários “É tudo Verdade”, o que lhe qualificou a uma possível indicação para o Oscar em 2020. “É um filme de mulher negra dando vozes a outras mulheres negras, construindo um cinema negro no feminino”, define Edileuza.

A diretora capixaba defende que as premiações devem-se também à técnica, arte e dedicação de sua equipe: “Entregamos ao público um produto de qualidade”. Edileuza conta que a repercussão do curta-metragem lhe abriu muitas portas: “Foram vários convites, o curta participou de muitas mostras nacionais e internacionais”.

Ela defende a importância do filme como peça de resistência num contexto em que os financiamentos da sétima arte contemplam em sua quase totalidade homens brancos e heterossexuais. Pesquisa do Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (GEMAA), da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), feita em cima de filmes brasileiros de maior bilheteria entre 2002 e 2012, aponta que as mulheres têm baixa participação nas funções de direção e roteirização dos filmes comerciais e apenas 4% do elenco principal desses filmes foi composto por mulheres pretas e pardas.

“Até 2020, a gente não tinha nenhum filme de mulher negra financiado pela Ancine. O filme de Viviane Ferreira ‘Um Dia com Jerusa’ (2020, 1h) é fruto de um edital federal afirmativo e está hoje bombando na plataforma da Netflix. É isso, nos deem oportunidade. É o que reivindicamos. Sabemos fazer cinema com qualidade. O que a gente não tinha era oportunidade. A cor de nossa pele, o principal impedimento”, critica.

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Elogio ao FAC

Fotos de divulgaçãoEdileuza elogia o papel do FAC. “Vários trabalhos premiados tiveram aporte do Fundo de Apoio à Cultura, o que mostra sua importância. Sem esse apoio financeiro, não seria possível o filme ter a dimensão que teve. Gravamos no Rio de Janeiro, onde pudemos dar voz à dona Ruth de Souza (atriz, 1921-2019), por exemplo. Foi o último trabalho dela, a primeira mulher negra a pisar no palco do Teatro Municipal”, informa.

Foi também pelos recursos do FAC que foi possível falar com Conceição Evaristo (escritora) e Benedita da Silva (professora, deputada federal). “É indiscutível o impacto do Fundo na produção da cultura do DF”, defende.

A diretora tem pós-doutorado em Comunicação e doutorado em Educação pela Universidade de Brasília (UnB). Estudou na “Escuela Internacional de Cine y TV” de San Antonio de los Banõs (EICTV/Cuba), onde participou como roteirista e diretora de diversas realizações, entre elas o premiado curta “Teresa” (Brasil/Cuba/ México/Venezuela, 2014).

É ainda idealizadora, curadora e coordenadora da Mostra Competitiva de Cineastas e Produtoras Negras Adélia Sampaio – cujo nome homenageia cineasta brasileira do Cinema Novo e primeira mulher negra a dirigir um longa no Brasil –, curadora do Festival de Cinema do Paranoá (DF) e da Mostra de Cinema da Cova, Lisboa. Organizou ainda a coleção “Negritude Cinema e Educação” (2014).

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