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Brasília

DF registra menor índice de inadimplência de aluguel desde 2023

Queda coloca capital abaixo da média nacional e expõe cenário de maior estabilidade no mercado imobiliário local

Isabele Mendes

11/05/2026 18h15

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil/Arquivo

A inadimplência de aluguel no Distrito Federal caiu para 1,91% em março de 2026, o menor índice registrado desde o início do monitoramento realizado pela plataforma Superlógica, em 2023. O percentual representa uma queda em relação aos 2,67% registrados em fevereiro e também ficou abaixo da média nacional, que fechou o mês em 3,21%.

Os dados fazem parte do Índice de Inadimplência Locatícia (IIL), levantamento que acompanha pagamentos em atraso superiores a 60 dias em contratos de locação administrados pela plataforma. O DF aparece entre os menores índices do país em um momento em que o cenário econômico ainda é marcado por juros elevados, inflação e alto custo de vida.

Para Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, o resultado é positivo, mas precisa ser interpretado com cautela. “A queda é um sinal positivo, mas precisa ser lida com cuidado antes de ganhar o rótulo de ‘histórica’. O que temos é a menor leitura dentro de uma janela ainda curta”, afirma.

O especialista avalia que alguns fatores ajudam a explicar o desempenho do DF. Entre eles, estão a renda média mais alta da população, o mercado de trabalho mais formalizado e o perfil dos contratos administrados por imobiliárias. “A explicação mais consistente para o movimento é uma combinação de fatores: mercado de trabalho mais resiliente, maior seletividade na aprovação de contratos e uso crescente de análise de risco pelas imobiliárias”, diz.

Renda mais estável ajuda o DF

O Distrito Federal historicamente apresenta indicadores econômicos diferentes da maior parte do país. Em 2025, a renda média dos trabalhadores da capital federal foi a maior do Brasil, além de registrar uma das menores taxas de informalidade. Para o especialista, essas características ajudam diretamente na capacidade de manter o aluguel em dia. “A presença forte do funcionalismo público garante renda previsível a uma parcela relevante dos inquilinos, o que reduz a volatilidade dos pagamentos”, afirma Daniel Claudino.

Ele também destaca que o mercado de trabalho influencia diretamente os números da inadimplência, mas não é o único fator que deve ser considerado. “O aluguel é uma despesa recorrente e prioritária para a maioria das famílias, então emprego e renda são variáveis centrais para explicar a inadimplência locatícia”, pontua.

Mesmo assim, o especialista alerta que a melhora do emprego não elimina automaticamente os riscos de atraso. “O mercado de trabalho ajuda, mas não explica tudo. A inadimplência no aluguel depende também de endividamento das famílias, reajustes contratuais, custo de vida, composição da carteira das imobiliárias e qualidade das garantias locatícias exigidas”, explica.

Contas apertadas continuam fazendo parte da rotina

Apesar da queda nos índices, a realidade de quem vive de aluguel no DF ainda passa longe da tranquilidade. O estudante Tariq Marie Alves van de Werve d’Immerseel, de 23 anos, conta que boa parte da renda mensal vai direto para o aluguel. “É um peso grande, pois só de aluguel pago 2.600. O que pega mais da metade do meu salário, consigo me manter melhor graças a meus investimentos e ajuda dos meus pais.”

Segundo ele, renegociar o contrato já virou praticamente um hábito anual, principalmente por causa dos reajustes aplicados pelo Índice Geral de Preços – Mercado (IGP-M). “Todo ano peço renegociação visto que meu aluguel se ajusta anualmente pelo IGPM, e normalmente ele acaba vindo negativo, ou seja sempre tento economizar, nem que seja 100 reais.”

Mesmo com o orçamento apertado, Tariq diz que tenta encontrar formas de equilibrar as contas no dia a dia. “O DF não é barato. Mas conseguimos encontrar formas de economizar principalmente na hora das compras mensais.”

Pequenas mudanças nos gastos básicos, segundo ele, acabam fazendo diferença no fechamento do mês. “Tenho tentado economizar também na gasolina. Ela vem abaixando de pouco em pouco e ajuda a fechar melhor o final do mês.”

Embora já tenha pensado em procurar um imóvel mais barato, a localização atual acaba pesando na decisão de continuar no mesmo lugar. “Já pensei em me mudar para um local mais em conta, mas no momento não consigo visto que moro perto do trabalho e se for para mais longe será muito difícil me organizar.”

 Imóveis comerciais seguem liderando atrasos

Enquanto os imóveis residenciais apresentaram melhora nos índices, os imóveis comerciais continuam registrando os maiores níveis de inadimplência no Centro-Oeste. Em março, a taxa chegou a 4,73%, acima dos percentuais registrados entre apartamentos e casas.

Para Daniel Claudino, o comportamento desse mercado é diferente porque o aluguel comercial depende diretamente do faturamento dos negócios. “No comercial, o pagamento depende diretamente do faturamento do negócio. Quando o caixa aperta, o aluguel comercial costuma ser o primeiro a entrar em negociação ou atraso”. Segundo ele, pequenas empresas e prestadores de serviço acabam sendo mais vulneráveis aos efeitos de juros altos, redução do consumo e aumento dos custos operacionais. 

Ainda de acordo com o especialista, o cenário dos próximos meses exige atenção. Apesar da queda registrada em março, ele afirma que ainda é cedo para afirmar que existe uma tendência consolidada de estabilidade. “Juros altos, custo de vida elevado e endividamento crescente das famílias são vetores de risco que seguem presentes”, alerta.

Para Claudino, os próximos resultados serão importantes para entender se a redução observada no DF representa uma mudança mais consistente ou apenas uma oscilação pontual do mercado. “Março pode ser o início de uma tendência e pode ser também uma oscilação”, conclui.

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