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Brasília

DF lidera salário médio no país e amplia geração de empregos e empresas em 2024

Capital registra remuneração média de R$ 5,8 mil, crescimento no número de empresas e expansão do emprego formal; especialistas apontam qualificação profissional e peso da administração pública como fatores decisivos

Isabele Mendes

01/07/2026 17h37

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Foto: Paulo H. Carvalho/ Agência Brasília

O Distrito Federal encerrou 2024 mantendo a liderança nacional em salário médio. Segundo dados do Cadastro Central de Empresas (Cempre), divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a remuneração média mensal no DF chegou a R$ 5.805,20, consolidando Brasília como a unidade da federação com os maiores rendimentos do país.

O desempenho não veio isolado. O levantamento mostra que a economia local também ampliou sua base produtiva ao longo do ano. O número de unidades locais, empresas e organizações em funcionamento, alcançou 216,6 mil, alta de 5,5% em relação a 2023. Ao mesmo tempo, o emprego formal avançou. Ao final de 2024, 1,8 milhão de pessoas estavam ocupadas nessas unidades, crescimento de 6%, sendo 1,6 milhão de trabalhadores assalariados.

A expansão também aparece na circulação de renda. Os salários e outras remunerações pagos no Distrito Federal somaram R$ 117,9 bilhões em 2024, evidenciando o fortalecimento da atividade econômica. Embora 89% das unidades locais pertençam ao setor empresarial, os dados mostram que a administração pública continua exercendo papel central para sustentar o elevado nível de remuneração da capital.

Cenário

O cenário confirma um movimento simultâneo de crescimento das empresas, da geração de empregos e da renda, em uma economia caracterizada pela predominância de serviços especializados, mão de obra altamente qualificada e atividades de maior valor agregado.

Na avaliação do presidente do Sistema Fecomércio-DF, José Aparecido Freire, esse avanço também é percebido no comportamento do consumo das famílias. Segundo ele, o aumento da massa salarial, aliado à redução do desemprego e à estabilização do poder de compra, tem sustentado o comércio local.

“O aumento da massa salarial, aliado à redução do desemprego e à estabilização do poder de compra das famílias, tem refletido diretamente na sustentação do consumo no Distrito Federal. Mesmo diante de um cenário de inflação e juros ainda elevados, as famílias demonstram maior confiança e disposição para consumir, movimentando os setores de comércio e serviços”, afirma.

Os números do IBGE ajudam a explicar esse cenário. A administração pública representa apenas 0,7% das unidades locais existentes no Distrito Federal, mas concentra 35,2% das pessoas ocupadas, 41,2% dos trabalhadores assalariados e 56,4% de toda a massa de remuneração paga na capital.

Esse peso faz da máquina pública o principal eixo estruturante da economia brasiliense. Mais do que concentrar órgãos federais, o setor influencia diretamente o perfil do mercado de trabalho e ajuda a explicar por que Brasília permanece na liderança do ranking nacional de salários.

Pequenos negócios

Ao mesmo tempo, a economia local apresenta uma ampla base formada por pequenos negócios. As micro e pequenas empresas representam 93,1% dos estabelecimentos existentes no Distrito Federal. Apesar da predominância em número, sua participação na geração de empregos e, principalmente, na distribuição da renda é proporcionalmente menor.

O resultado é uma estrutura econômica marcada pela pulverização de empresas e pela concentração da renda em segmentos específicos, especialmente na administração pública e nas grandes organizações. A análise setorial do Cempre reforça essa característica ao mostrar que a área de administração pública, defesa e seguridade social lidera a participação tanto no emprego quanto na massa salarial, enquanto comércio e serviços especializados concentram a maior quantidade de unidades produtivas.

Além da influência do setor público, alguns segmentos privados também contribuem para elevar a renda média da capital. As maiores remunerações mensais foram registradas nas atividades financeiras, de seguros e serviços relacionados, com média de R$ 13.277,35. Em seguida aparece o setor de eletricidade e gás, cuja remuneração média chegou a R$ 13.263,21.

Esses valores ficam muito acima da média geral registrada no Distrito Federal e refletem a presença de atividades altamente especializadas, estrutura regulada e forte concentração de profissionais qualificados.

Para a economista Paloma Lopes, da Valor Investimentos, a liderança do Distrito Federal no ranking nacional está diretamente ligada ao perfil diferenciado do mercado de trabalho local.

“A economia do Distrito Federal é extremamente peculiar, não só por conta do funcionalismo público, mas também pelo fator de empregos extremamente qualificados. Isso faz com que o salário médio seja maior. O funcionalismo público é o principal responsável, mas o setor de serviços que atende esse funcionalismo também tem puxado os resultados para cima”, explica.

Segundo ela, áreas como saúde, clínicas, farmácias e serviços culturais vêm ampliando sua participação na economia e exigem profissionais mais qualificados, o que acaba elevando os salários.

“O funcionalismo público continua sendo o principal, mas tem perdido espaço para os setores de serviços. Saúde teve uma grande ampliação nos últimos tempos, assim como o segmento cultural. Esses setores exigem serviços mais qualificados e, automaticamente, geram salários maiores”, afirma.

Apesar dos indicadores positivos, a economista ressalta que ainda existem desafios importantes.

“O principal desafio é aumentar a qualificação profissional dos trabalhadores e ampliar o acesso ao mercado de trabalho. Enquanto você não ofertar a mesma condição de empregabilidade para todos, essa desigualdade continuará acontecendo”, avalia.

Vida na capital

Na prática, porém, os altos salários médios nem sempre significam facilidade para viver na capital.

O analista Gustavo Pereira, de 25 anos, recebe cerca de R$ 6 mil por mês e conta que precisou deixar o Guará II, onde morava dividindo apartamento com outros dois amigos, para voltar a uma cidade do Entorno. A mudança só foi possível porque passou a trabalhar alguns dias em regime remoto.

“Acredito que hoje a minha renda não é suficiente para manter um custo de vida no DF. Para conciliar moradia, alimentação, transporte e lazer, algumas dessas categorias seriam deixadas de lado ou aproveitadas muito pouco com os recursos restantes”, relata.

Ele reconhece que o mercado de trabalho no Distrito Federal oferece melhores oportunidades e remuneração em comparação com cidades vizinhas, mas afirma que o custo do deslocamento pesa no orçamento.

“Gasto muito com alimentação e transporte. O valor das passagens do Entorno para o DF é altíssimo e o serviço prestado pelas empresas de transporte público é muito ruim. Na maioria das vezes acabo escolhendo caronas alternativas, que saem ainda mais caras que o transporte coletivo.”

Para Gustavo, melhorar a mobilidade é uma das medidas mais importantes para elevar a qualidade de vida dos trabalhadores. “O grande impacto na minha qualidade de vida é a distância percorrida diariamente para o trabalho. São cerca de 150 quilômetros entre ida e volta e mais de três horas por dia no trânsito, isso quando há boa fluidez, o que raramente acontece.”

Enquanto o mercado de trabalho segue aquecido, José Aparecido Freire destaca que manter esse ritmo dependerá de melhorias no ambiente de negócios. Segundo ele, reduzir burocracias, ampliar o acesso ao crédito, investir em qualificação profissional e fortalecer a segurança jurídica serão medidas fundamentais para preservar o crescimento da economia local.

O presidente da Fecomércio-DF ressalta ainda que os juros elevados, a inflação e as restrições ao crédito continuam representando desafios importantes para empresários e consumidores, exigindo gestão eficiente e criatividade para aproveitar as oportunidades geradas pela resiliência dos setores de comércio e serviços no Distrito Federal.

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