Ninguém no governo consegue explicar convincentemente por que o governador Rodrigo Rollemberg assinou e mandou publicar às pressas o decreto em que anuncia punições aos servidores que fizerem greve. O decreto é inútil, inoportuno e não traz nenhum ganho ao governo, só desgastes.
Muitos atribuem o erro ao estilo voluntarioso – em política se diz voluntarista — de Rollemberg, que toma decisões sem aprofundar a discussão e sem avaliar as consequências positivas e negativas. Não tem método e ainda por cima ouve auxiliares que nunca lidaram com sindicatos e não têm vivência em gestão de crises políticas — entre os quais alguns que nunca conseguem dizer “não” ao governador.
A área de comunicação do governo não foi consultada, por incrível que pareça.
Ato mostra que decisão está tomada
O chefe da Casa Civil, Sérgio Sampaio, tentou explicar o decreto no dia seguinte, sem sucesso. A procuradora-geral Paola Lima admitiu que o ato, assinado e publicado na sexta-feira em edição extraordinária do Diário Oficial, só reforça o que já está na legislação, especialmente na Lei 840, que dispõe sobre o regime jurídico dos servidores. É, pois, redundante e dispensável. Ou seja, inútil.
Além disso, não seria preciso editar o decreto agora, já que o governo diz não ter ainda decidido se vai ou não pagar a parcela de 2015 dos aumentos. Mas é que a decisão de não pagar está tomada desde o dia 3 e será anunciada até sexta, 14. O decreto atabalhoado confirma o que o governo esconde.
O diálogo é sempre a melhor opção
Um ato que mostra que comportamento terá o governo diante das possíveis paralisações teria de ser explicado à sociedade pelo próprio governador ou por porta-voz qualificado. Editá-lo quase na surdina – apenas um jornal foi informado, na noite de sexta – e às vésperas da manifestação de servidores na Praça do Buriti foi uma provocação inoportuna.
A estratégia do governo para anunciar a má notícia do não pagamento tem se mostrado totalmente errada, a começar pela demora do anúncio. O governo passa a ideia de que está preferindo a confrontação ao diálogo, a força à persuasão.
Mesmo quando o governo nada pode negociar e tem de ser inflexível, o diálogo prévio ajuda a criar um ambiente favorável na sociedade e aumenta a possibilidade de reduzir o confronto.
Conversar ajuda e nada custa
Não é difícil para o governador e seus secretários explicar aos brasilienses a impossibilidade de pagar os aumentos. A situação é similar em todos os estados, em diferentes graus, e argumentos e números não faltam. Conversas com os sindicatos poderiam, talvez, levar a soluções negociadas que os dirigentes pudessem apresentar às suas bases para evitar as paralisações.
Os sindicatos tendem sempre a radicalizar, especialmente os que, além da questão corporativa, carregam a bandeira política de desgastar e inviabilizar o governo e o governador. Uma estratégia de diálogo e persuasão, porém, poderia deixá-los em uma posição melhor diante de seus associados e assim reduzir o radicalismo. E com dificuldades para justificar as paralisações perante a população.
Mas isso deveria estar sendo feito há algum tempo.
Sindicatos já esperam dificuldades
Os sindicatos de servidores estão em uma situação difícil. Têm de reagir ao não pagamento dos aumentos, por dever de ofício e pela pressão de associados, mas sabem que o governo não vai ceder facilmente, como no ano passado. A negativa em aceitar as reivindicações dos metroviários, dos empregados da Caesb e dos policiais civis mostra que a postura será outra.
As diretorias dos sindicatos enxergam a alta probabilidade de insucesso e o desgaste político que isso pode acarretar a elas. Nas reuniões sindicais sempre se lembra que é fácil entrar em greve, difícil é sair.
Quem vai perder é o povo
A expectativa do governo é de que as greves ocorram, não se sabe é quanto tempo vão durar. Boa parcela dos professores teme uma greve agora, pois complica ainda mais o calendário de aulas, e muitos prefeririam paralisar as atividades no início do ano letivo. Mas a falta de diálogo e o decreto provocador podem dificultar a tomada dessa decisão em assembleia.
Os mais atingidos com as greves são os que precisam dos serviços públicos, especialmente na saúde e na educação. Os sindicatos e os partidos de “esquerda” deveriam refletir sobre a contradição que é prejudicar os mais pobres para lutar por aumento salarial para servidores públicos que custam 80% do orçamento, representam 8% da população e já têm boa remuneração e estabilidade no emprego.
Greve no setor privado é uma coisa, greve que prejudica a população é outra.
Fechar vias é tática burra
Os sindicatos deveriam discutir também a prática de interromper o tráfego e causar engarrafamentos. Isso irrita as pessoas que estão nos veículos, inclusive nos ônibus, e provoca reação contrária. Para quem quer ter o apoio da população, é uma tática extremamente burra.
Quando a Polícia Militar desobstrui as vias, é aplaudida.