Manuela Rolim
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Não bastasse o racionamento, os brasilienses têm que lidar com o impacto do restabelecimento do serviço. Em muitos comércios e residências, o encanamento não está suportando a pressão com que a água retorna e o resultado são prejuízos elevados para o bolso dos moradores. A Companhia de Saneamento Ambiental do DF (Caesb), no entanto, alega não ter responsabilidade sobre o problema.
Na última terça-feira, a dona de casa Luciene de Sousa, 34, tomou um susto ao chegar em seu apartamento. Moradora da QE 40 do Guará II, ela encontrou seus pertences encharcados. “Eu saí cedo e estava na rua quando recebi uma ligação do meu esposo dizendo que a casa estava alagada. Ele trabalha perto e foi avisado pelo meu vizinho, que também ficou com a válvula da descarga estourada. Os dois chegaram primeiro, na hora do almoço, e me contaram que parecia estar chovendo dentro da sala”, relata.
O estrago foi consequência de um cano que estourou mais cedo. “O colchão onde minhas filhas dormem ficou todo molhado. A televisão estragou e o aparelho da operadora também. Os livros delas, que estavam em cima da mesa, ficaram destruídos”, acrescenta.
Revoltada, ela acionou a Caesb, mas foi surpreendida mais uma vez. “Consegui agendar com um funcionário hoje (ontem). Ele chegou aqui e disse, com cara de deboche, que tinham casas em situações piores que a minha e que não adiantava eu reclamar porque não ia resultar em nada”, completa.
Somado aos transtornos, Luciene se preocupa com o valor da próxima conta. “Vai vir absurda e terei que arcar com o custo. O cano que estourou ficava depois do hidrômetro. Ele não se rompeu no encaixe, mas sim no meio. De fato, o nosso sistema é mais antigo, porém, a pressão da água é desproporcional. Eu não tenho como ter controle disso”, afirma. De acordo com ela, o racionamento da região foi na sexta-feira passada.
A dona de casa relatou o ocorrido no Facebook. Pouco depois da postagem, comentários de pessoas com o mesmo problema tomaram conta da publicação. Entre eles, uma internauta relata danos: “Tive o cano rompido, a mangueira do filtro estourada e a carrapeta do chuveiro danificada”, declara.
Outra usuária conta que a situação é recorrente. “O chuveiro da minha casa já queimou duas vezes e agora fica pingando. Meu pai já trocou a carrapeta, mas não adianta. Sempre que a água volta, estraga de novo. Somos obrigados a colocar baldes embaixo do chuveiro para reaproveitar água e a conviver com o barulho das gotas caindo”, diz.
Versão oficial
Questionada pela reportagem, a Caesb informa que “a responsabilidade pelas suas redes é até o hidrômetro. Instalações internas, seja de residências ou comércios, são de responsabilidade de cada cliente”, detalha o órgão, por meio da assessoria. Ainda segundo a companhia, a pressão da rede de abastecimento de água segue os padrões estipulados pela Agência Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Além disso, a Caesb tem praticado a redução de pressão no período noturno.
Torneiras fechadas para economizar
Desde a segunda metade do ano passado, o brasiliense não tem sossego quando o assunto é água. A equação envolveu uma média de chuvas bem abaixo do esperado, crescimento da população e falta de conscientização. O resultado foi a chegada do nível dos dois reservatórios que abastecem 82% do DF aos níveis mais baixos da história.
O Descoberto, que atende 65% da população, ficou em 19,3% em 19 de novembro, e o de Santa Maria/ Torto – responsável por 24% – a 40,33%. Até ontem, se encontravam em 54,3% e 52,75%, respectivamente.
Assim, não teve jeito. No dia 16 de janeiro deste ano, o racionamento começou para quem recebe água do Descoberto, e no dia 27 de fevereiro para Santa Maria. Ao ficar 24 horas sem água, o morador do capital conseguiu economizar.
Dados da Caesb revelam que, no reservatório do Descoberto, desde o início do racionamento foram economizados 13,3% – cerca de 1.300 litros/segundo. O volume é suficiente para atender uma população de 500 mil habitantes. Já no sistema Santa Maria / Torto, a redução foi 12,4%, 260 l/s, o que ajudaria a levar o recurso para 224 mil pessoas.
Ponto de vista
Professor da Universidade de Brasília (UnB), Henrique Leite Chaves confirma que a atuação da Caesb, de fato, é somente até a chegada da água aos hidrômetros. No entanto, analisa o restabelecimento da pressão. “A companhia precisa investir na automação da macrodistribuição de água. Hoje, o serviço de abertura e fechamento dos registros é todo manual. Portanto, por mais que a Caesb admita ter controle sobre a pressão na volta do fornecimento do recurso, isso não existe por completo. Além disso, a automação resolveria com rapidez problemas como o rompimento de adutoras nas ruas, por exemplo. Isso porque, assim que o sistema reconhece a diminuição da pressão em um determinado ponto, ele é fechado imediatamente”, explica. O especialista alerta ainda para a importância de moradores e comerciantes atualizarem a revisão dos sistemas.