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Brasília

Construção civil movimenta R$ 10,2 bilhões no DF

Setor emprega 47,7 mil trabalhadores, impulsiona cadeia produtiva e mantém Distrito Federal como segunda maior força da construção no Centro-Oeste

Isabele Mendes

10/06/2026 20h38

Foto: Arquivo/Tânia Rêgo/Agência Brasil

Foto: Arquivo/Tânia Rêgo/Agência Brasil

A construção civil segue como um dos principais motores da economia do Distrito Federal. Em 2024, o setor movimentou R$ 10,2 bilhões em incorporações, obras e serviços, empregou 47,7 mil trabalhadores e garantiu ao DF a segunda maior participação da indústria da construção na Região Centro-Oeste, atrás apenas de Goiás. Os dados são da Pesquisa Anual da Indústria da Construção (PAIC), divulgada nesta quarta-feira (10) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Ao todo, 1,4 mil empresas com cinco ou mais pessoas ocupadas atuaram no setor durante o ano passado. Juntas, elas desembolsaram R$ 1,7 bilhão em salários, retiradas e outras remunerações. O resultado consolidou uma participação de 24,1% do Distrito Federal na atividade da construção da região.

Mais do que levantar obras, a construção civil movimenta uma extensa cadeia produtiva. Para o economista, sociólogo e professor de Mercado Financeiro da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo, o setor exerce papel estratégico ao gerar empregos em diferentes níveis de qualificação e estimular atividades que vão do comércio de materiais aos serviços especializados.

“A construção civil absorve desde a mão de obra operacional até profissionais altamente qualificados, como engenheiros, arquitetos, advogados e administradores. É um segmento que movimenta uma extensa cadeia econômica e cria oportunidades em diversas áreas”, explica.

Segundo a pesquisa, a construção de edifícios, responsável pelo seguimento de construção residencial e comercial, foi o principal segmento da atividade no Distrito Federal, responsável por 54,7% do valor das incorporações, obras e serviços realizados em 2024. Na sequência aparecem os serviços especializados para construção, que abrangem os trabalhos focados em etapas ou partes específicas de uma obra, como preparação do terreno e instalações, com participação de 23%, e as obras de infraestrutura, que engloba os projetos de engenharia pesada e obras públicas, com 22,3%. Oportunidades

O segmento também lidera na geração de empregos. Dos 47,7 mil trabalhadores ocupados ao final do ano passado, 46,6% estavam vinculados à construção de edifícios. Os serviços especializados concentravam 37% dos postos de trabalho, enquanto as obras de infraestrutura respondiam por 16,4%.

Por trás dos números estão milhares de trabalhadores que ajudam a erguer prédios, escolas, hospitais e novas áreas urbanas da capital. É o caso do senhor Almir Pereira, de 47 anos , que atualmente é responsável pelo Almoxarifado da Conbral, já tendo passado por: guardião da obra, depois servente e auxiliar de Almoxarife. Já atua na área há 24 anos. Para ele, o setor representa mais do que uma fonte de renda: é a oportunidade de sustentar a família e construir um futuro melhor. “O setor contribuiu para minha vida ao me proporcionar oportunidades de aprendizado e estabilidade financeira, além de proporcionar o sustento de minha família e a realização de sonhos, como a graduação dos meus filhos.”, conta.

O setor também tem sido porta de entrada para muitos jovens no mercado de trabalho. Aos 17 anos, João Vitor Sousa atua como bloqueiro — profissional responsável pela execução de paredes em alvenaria — em obras no Distrito Federal. Antes de ingressar na construção civil, fazia trabalhos temporários e tinha dúvidas sobre as oportunidades que encontraria no mercado. Foi nos canteiros de obras que conquistou a primeira fonte de renda estável e a possibilidade de contribuir com as despesas da família. 

“Eu conseguia ajudar dentro de casa e ter as minhas próprias coisas. A construção civil me deu essa primeira oportunidade”, relata.

Apesar da rotina intensa, marcada pelo esforço físico, pelo transporte de materiais pesados e pelo constante barulho das obras, João afirma que o trabalho também traz recompensas. Para ele, a maior delas é acompanhar a transformação dos espaços e saber que seu esforço fará parte da vida de outras pessoas. “A gente sempre busca fazer a melhor estrutura e a mais segura possível, porque vão existir vidas crescendo e vivendo ali dentro”, destaca. “Quando a obra fica pronta, bate um sentimento de orgulho por ter participado daquilo.”

Mercado aquecido impulsiona crescimento

Para Bergo, o desempenho do Distrito Federal está diretamente ligado às características econômicas e demográficas da capital federal. O especialista destaca que Brasília mantém um mercado imobiliário aquecido, impulsionado pela elevada renda da população, pela constante chegada de novos moradores e pela necessidade permanente de expansão urbana.

“O DF possui a maior renda per capita do país e continua atraindo pessoas em busca de oportunidades e qualidade de vida. Isso gera demanda por moradia, serviços e obras de infraestrutura, mantendo a construção civil em evidência”, afirma. Outro fator apontado pelo economista é a presença de investimentos públicos e privados que ajudam a sustentar a atividade mesmo em períodos de desaceleração econômica.

“A construção civil é importante porque reduz a dependência da economia local em relação ao setor público. Quando ela cresce, impulsiona comércio, transporte, indústria de materiais, serviços especializados e gera arrecadação para o Estado”, observa.

Na avaliação do engenheiro civil e CEO da Hagá Construções, William Hungria, o resultado apresentado pela pesquisa é reflexo da combinação entre planejamento urbano e demanda crescente por novos empreendimentos. “Brasília possui regras urbanísticas bastante rígidas, mas a necessidade por moradia e espaços comerciais continua impulsionando o crescimento do setor. Existem regiões que ainda apresentam potencial de expansão, como Samambaia, Santa Maria, Recanto das Emas, São Sebastião e Jardim Botânico”, destaca.

Crescimento exige infraestrutura

Apesar dos bons resultados, os especialistas alertam para a necessidade de acompanhar o crescimento imobiliário com investimentos em infraestrutura urbana. Segundo Hungria, o principal desafio para os próximos anos será garantir que serviços essenciais acompanhem o ritmo de expansão da cidade.

“Não basta construir mais imóveis. É preciso garantir transporte, saneamento, abastecimento de água, energia, escolas e unidades de saúde. Quando esse equilíbrio não acontece, a população sente rapidamente os impactos no trânsito, nos serviços públicos e na qualidade de vida”, afirma.

O engenheiro defende que o desenvolvimento urbano continue sendo guiado por planejamento de longo prazo, com atenção à mobilidade e à sustentabilidade. “Um empreendimento de qualidade não é apenas aquele que ocupa um terreno. É aquele que melhora a vida das pessoas ao redor e contribui para o desenvolvimento da cidade como um todo”, acrescenta.

Casa própria segue em alta

Os números da PAIC também reforçam o momento positivo vivido pelo mercado imobiliário. Para o presidente da Associação de Empresas do Mercado Imobiliário do Distrito Federal (Ademi-DF), Celestino Fracon Júnior, os resultados consolidam a importância do setor para a economia local.

“O mercado imobiliário do Distrito Federal segue aquecido, mesmo em um cenário de juros elevados. Os dados mostram um segmento forte, que continua gerando emprego, renda e oportunidades para a população”, afirma.

Segundo o empresário, o mercado tem atendido diferentes perfis de compradores, desde empreendimentos voltados para famílias de renda mais baixa até imóveis de médio e alto padrão. Entre as regiões que mais concentram novos lançamentos estão Ceilândia, Samambaia, Santa Maria, Águas Claras, Sobradinho e Noroeste.

Fracon destaca ainda que a pandemia alterou a forma como muitos brasileiros enxergam a moradia. “A casa própria ganhou um novo significado nos últimos anos. Muitas pessoas passaram a valorizar ainda mais o imóvel como espaço de segurança, qualidade de vida e planejamento familiar”, observa.

Perspectiva positiva

A expectativa dos especialistas é que a construção civil mantenha sua relevância para a economia do Distrito Federal nos próximos anos. Projetos de mobilidade urbana, expansão imobiliária, saneamento e infraestrutura devem continuar alimentando a demanda por mão de obra e investimentos.

“Existe espaço para novas áreas de desenvolvimento urbano e para obras estruturantes. A construção civil continuará sendo um dos pilares da economia do Distrito Federal, tanto pela geração de empregos quanto pela capacidade de movimentar diversos setores produtivos”, conclui César Bergo.

Os dados da PAIC mostram ainda que as empresas da construção no DF possuíam, em média, 33,3 trabalhadores por estabelecimento em 2024. A remuneração média mensal dos empregados do setor foi equivalente a dois salários mínimos.

A PAIC é o principal levantamento do IBGE sobre a indústria da construção no Brasil. A pesquisa monitora indicadores como emprego, remuneração, receitas, custos e o valor gerado por incorporações, obras e serviços executados pelo setor.

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