Esqueça o papel, a caneta, aquela multidão de concorrentes fazendo as longas provas no mesmo horário e a espera angustiante pelo resultado. O futuro dos grandes concursos e avaliações no Brasil tem nome: Testagem Adaptativa Computadorizada (CAT, em inglês). Segundo especialistas, o sistema desenvolvido pelo Centro de Seleção e Promoção de Eventos (Cespe) da Universidade de Brasília pode garantir mais rapidez, segurança, conforto e justiça aos concurseiros e estudantes do país.
Desenvolvido pelo Cespe desde 2004, o CAT já é realidade na UnB. Começou a ser aplicado nas provas de proficiência em inglês no segundo semestre de 2010. Antes, a prova impressa no papel era aplicada em um único dia e com uma folha de resposta para preenchimento que demorava até um mês para ser corrigida. Agora o aluno tem três semanas para marcar o horário em que deseja fazer a prova, de acordo com a disponibilidade dos 40 computadores do laboratório de informática.
O professor Marcus Vinícius Araújo, coordenador de Pesquisa em Avaliação do Cespe, explica que o CAT é um sistema inteligente, pensado para aplicar a prova de acordo com o perfil de cada candidato. “Por meio de um banco com milhares de questões com diferentes graus de dificuldade, elaboradas por especialistas, o sistema vai montando a prova de acordo com os erros e acertos do avaliado”, conta. A cada acerto, uma questão mais difícil surge na tela. E a cada erro, uma mais fácil. “Nunca haverá duas provas iguais”, observa o matemático.
Essa singularidade, além de evitar as famosas “colas”, permite que o candidato escolha o dia e o horário em que deseja fazer o teste. Além de já sair com a nota da avaliação, calculada automaticamente pela máquina. Outra vantagem é o tempo gasto no teste, que costuma ser até 50% menor do que o dispensado no modelo clássico. “Os candidatos menos preparados não perdem tempo tentando responder as questões mais difíceis, nem os mais preparados com as fáceis”, explica Marcus Vinícius.
JUSTIÇA
A credibilidade do sistema pioneiro no Brasil vem do fato de usar a Teoria de Resposta ao Item como base para as questões. “A TRI usa um modelo matemático que faz com que provas com diferentes questões tenham o mesmo grau de dificuldade”, explica a psicometrista do Cespe, Girlene Ribeiro. Foi graças à TRI, por exemplo, que o Ministério da Educação evitou o cancelamento das quatro milhões de provas do último Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) após um problema de impressão que trocou as folhas de respostas dos candidatos.
Especialista na elaboração de testes, Girlene ressalta a questão da justiça que a o CAT proporciona aos avaliados ao sistematizar questões elaboradas a partir da TRI. “No modelo clássico, a cada edição há uma prova fixa que apresenta diferentes graus de dificuldade”, conta. Com isso, um estudante que passaria em um ano pode não passar no outro por conta da instabilidade da avaliação diante de um padrão semelhante para todos os candidatos. “Com o CAT esse problema deixa de existir”, completa Ribeiro.
FUTURO
Em janeiro, ocorreu a segunda edição da prova de proficiência em inglês em que foi aplicado o CAT na UnB. Segundo Girlene, o sucesso foi tanto que, em breve, o sistema deve ser aplicado também nas provas de espanhol. “Já estamos em negociação com o Departamento de Lingüística para elaborar o banco de questões”, adianta a psicóloga, uma das responsáveis pela ferramenta que tem como inspiração outros sistemas já aplicados nos Estados Unidos e em países da Europa.
Marcus Vinícius vai ainda mais longe. Segundo ele, o CAT pode revolucionar a aplicação de provas e avaliações no Brasil. “É um sistema que só traz vantagens, inclusive econômicas e ecológicas”, aponta ele, ressaltando a dispensa do papel nos testes e toda a logística hoje necessária para a aplicação de grandes provas. Para o matemático da UnB, a tendência é que a ferramenta ganhe espaço no país em um futuro não muito distante.