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Brasília

Caso motorista da Caixa: sargento da Rotam conversa com o JBr. e detalha abordagem

Arquivo Geral

19/07/2017 6h30

Foto: Myke Sena Motorista que morreu estava em carro da Caixa Econômica

Manuela Rolim
manuela.rolim@jornaldebrasilia.com.br

Envolvido na ocorrência que prendeu o motorista da Caixa Econômica Federal Luís Cláudio Rodrigues Figueiredo, 48, o sargento da Rotam (Rondas Ostensivas Táticas Motorizadas) de 46 anos detalhou ao Jornal de Brasília a dinâmica da abordagem, que começou com uma batida de carro. Com 22 anos de carreira, sendo 11 na unidade operacional citada, ele se defendeu de acusações contra a sua conduta e garantiu ter deixado o motorista “intacto, andando e sem nenhum arranhão” na delegacia, onde o homem foi encontrado morto horas depois.

Sargento, o senhor pode detalhar como tudo ocorreu?

Vou contar o que aconteceu até o ponto onde posso falar. Aquilo que eu não vi, não tenho como te contar. Eu estava saindo de casa para levar meu carro no lava jato, porque ele está vendido e eu ia entregá-lo no sábado. Eram umas 14h30/15h. Eu estava de folga, mas estava armado e com as algemas, sim, porque sou policial 24 horas. Já precisei da arma e da algema e não estava com elas. Quando parei na esquina para poder subir para o lava jato, que fica de frente para um depósito de bebidas, o seu Luís entrou de uma vez na rua com o carro e desencaixou o meu parachoque traseiro. Eu fiquei parado esperando ele parar, mas ele continuou. Aquela rua tem um movimento grande, tinha uma molecada jogando bola, gente saindo da academia. Tanto que o rapaz que me ajudou a segurá-lo, quando a gente tirou ele cambaleante do carro e o colocou sentado na calçada, foi um rapaz da academia. Eu tenho isso filmado, só que não posso passar porque o dono das câmeras disse que não vai disponibilizar.

Mas essas imagens já estão com a Polícia Civil?

Não. Não precisa estar com a Polícia Civil, eu não sou investigado em nada. Não sou citado em nada no inquérito da Polícia Civil.

A batida, então, não foi na saída da sua garagem, como havia sido levantado?

Foi na esquina da rua onde tem o depósito de bebidas. Eu pensei que ele fosse parar, olhei pelo retrovisor e ele continuou. Eu voltei de ré até o quebra-molas e parei. Na hora que eu abri a porta e ele saiu do carro, estava tão bêbado, e olha que não estou falando da pessoa Luís Cláudio e, sim, da situação que aconteceu, que não conseguiu ficar em pé e caiu sentado de tão embriagado. Nesse momento, o menino da academia estava chegando e me ajudou a colocá-lo na calçada, segurou ele para eu poder tirar a chave do carro dele e tirar o veículo do meio da rua. Ele estava extremamente exaltado. Eu não bebo, mas quem bebe sabe como funciona. O camarada, quando está completamente embriagado, a força dobra, ele fica muito forte. Ele estava se debatendo, querendo se levantar, entrar no carro e sair. Eu o algemei, sim, e o deixei sentado na calçada. Liguei para o 190, me afastei e fiquei esperando a viatura. O menino que me ajudou foi embora. A viatura chegou e não tinha compartimento de transporte de preso. Ele ia sentado no banco de trás. Agora, como é que você tira a algema de um cara que está fora de si para sentar atrás do motorista da viatura? Ele tinha que continuar com a algema. Foi o que aconteceu. Um vizinho levou o carro dele à delegacia e eu fui no meu com o parachoque balançando. Todos os vizinhos foram para a rua, tenho 50 testemunhas. Ele chegou primeiro que eu, passou do balcão para dentro, eu nem cheguei perto mais. A minha parte acabou ali. Terminei minha ocorrência, assinei meu recebido de preso, peguei meu depoimento e fui para casa.

Como ficou sabendo da morte?

Me ligaram em casa. Eu estava dormindo e me ligaram.

Diante da divulgação de que o senhor teria agredido o motorista, qual a sua resposta?

Não houve agressão, a gravação é clara. Eu o coloco sentado na calçada e me afasto depois que o algemo. Eu duvido que os vizinhos tenham falado algo ou inventado uma história dessas porque isso não aconteceu. Se tivesse acontecido, tinha aparecido alguma marca no exame de corpo de delito.

Em tantos anos de profissão, o senhor já tinha se envolvido em alguma situação parecida?

Não. Em serviço, a gente pega muita coisa. Se for juntar tudo o que eu tenho de apreensão, carro recuperado, ladrão preso, tanto na Rotam, como na Força Nacional, você vai juntar muita coisa. Elogios na minha ficha tem quase 50. Essa também é uma ocorrência normal. O cara morreu mais de três horas depois que cheguei em casa.

Sargento, como é a sua relação com a vizinhança?

Muito boa. Vou para a rua jogar bola com eles. A minha rua, um tempo atrás, tinha muito assalto porque é movimentada demais por causa da academia. A minha vizinha de frente já foi assaltada, me gritou e eu estava dormindo, mas saí de cueca para atendê-la.

O senhor pretende ter algum tipo de contato com a família?

Agora não. Só depois que terminar tudo. Ninguém conhecia o Luís Cláudio na rua. Ninguém sabia quem era ele, mas parece que um cunhado mora lá também. Na delegacia, ele pediu para eu fazer três orçamentos e disse que ia pagar o conserto. Eu mesmo que disse para ele que só tinha desencaixado e que eu mesmo levaria à oficina.

Também não sabia que ele era motorista do presidente da CEF?

Não tinha a menor ideia. Tem oito anos que moro naquela rua, ninguém o conhecia. Eu nunca o tinha visto na minha vida. Volto a dizer: não estou falando da pessoa, mas da situação. Se eu deixo aquele senhor sair e ele atropela alguém, eu seria o responsável.

O senhor concorda com toda a repercussão do caso?

Claro que não. Eu não posso te dizer o que aconteceu dentro da delegacia porque eu não vi. Agora, eu fiz o que tinha que ser feito dentro da lei. Ninguém encostou a mão nele, nem um tapa. Fizemos a lei ser cumprida.

E a repercussão em relação à conduta da Polícia Civil?

O delegado da 13ª DP é o mais sistemático que conheço. Se eu chegasse com o Luís lá todo machucado, você acha que ele iria receber? Ele iria me dar um recibo de entrega de preso ileso? O Luís chegou intacto, andando, sem nenhum arranhão, só com a marca da algema.

E agora? Como está sua vida após essa repercussão?

Tive que mudar minha rotina. Estou evitando passar pela outra esquina para não encontrar o pessoal. Meu filho de 15 anos está preocupado, sem sair de casa. Não quero ter contato com a família agora porque não sei o que está passando pela cabeça deles depois do que foi divulgado na mídia. Sei quem são eles, são pessoas de bem, trabalhadoras. Só descobri que o Luís era parente depois.

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