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Brasília

Caso Arlon: Juiz mantém receptador preso para apurar participação no crime

Arquivo Geral

17/01/2018 16h36

Luiz Carlos dos Santos, de 22 anos, foi preso pela Polícia Militar. Foto: Divulgação

Jéssica Antunes
jessica.antunes@grupojbr.com

O receptador da bicicleta do estudante Arlon Fernando da Silva permanecerá preso. Na manhã desta quarta-feira (17), Luiz Carlos dos Santos Ramos, de 22 anos, passou por audiência de custódia que converteu a prisão em flagrante em preventiva. Na ocasião, o juiz Aragonê Nunes Fernandes entendeu que o homem sabia da origem das peças da bike encontradas sobre seu guarda-roupas e manteve a segregação para averiguar a real participação no crime.

“Ao que tudo indica, o autuado sabia da origem criminosa dos produtos, bem assim tinha ciência da autoria. Não é só. Ele também teria acolhido o suposto autor do latrocínio em sua residência, quando aquele declinou ter ‘quebrado a domiciliar’”, afirmou o magistrado. Ao determinar a prisão preventiva, o juiz ainda ressaltou que o suspeito tem “inúmeras anotações” policiais, é “multireincidente” e tem pelo menos duas condenações definitivas.

A manutenção da prisão foi contra a média de decisões do Tribunal de Justiça do DF em audiências de custódia. Dados obtidos pelo Jornal de Brasília indicam que 68% dos presos em flagrante pelo crime de receptação têm a liberdade provisória concedida. O Núcleo de Audiência de Custódia foi instalado há dois anos com a promessa de mudanças na política do encarceramento com o objetivo de garantir a apresentação do preso a um juiz em até 24 horas para que seja analisada a legalidade e a necessidade da manutenção da prisão. Antes, isso acontecia após cerca de 30 dias, na audiência de instrução.

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Flagrante

Luiz Carlos foi preso pela Polícia Militar na tarde de segunda-feira no condomínio Del Lago, no Itapoã. Ele mantinha peças da bicicleta modelo mountain bike GT Avalanche Elite compradas por R$ 500 sobre o guarda-roupas. As rodas, sistemas de freios e manetes foram identificados por um amigo de Arlon.

Major Michello Bueno, porta-voz da PMDF, contou que o receptador é amigo de longa data de Daniel Sousa Andrade, apontado como autor do latrocínio, com quem chegou a dividir uma casa. “Ele confessou que comprou a bicicleta do assassino, que teria dito que matou porque a vítima reagiu. Mas, quando perguntado, Luiz Carlos disse que não sabia que a bike era roubada e tentou devolver quando descobriu”, relatou. A tentativa frustrada gerou discussão entre a dupla.

O quadro da bicicleta não foi encontrado. A Polícia apura se foi incendiado e derretido ou jogado no matagal, mas nada foi comprovado ainda. Preso em flagrante, Luiz Carlos deve passar hoje por audiência de custódia para definir se ele responderá ao processo preso preventivamente ou em liberdade provisória. O crime de receptação é previsto no artigo 180 do Código Penal. Conforme a redação, a pena é de reclusão de até quatro anos.

Preso, condenado, libertado e foragido

O homem suspeito de assassinar Arlon Fernando da Silva está foragido. Principal suspeito desde o dia do crime, o homem ouvido, liberado e agora é caçado pelas ruas da capital. Conhecido por se gabar entre os amigos, Daniel Sousa Andrade, 22 anos, conhecido como Scooby, costuma dizer que tem “sangue no olho” e que resolve “na mão grande”. Em outubro do ano passado, a ousadia tirou a vida do estudante, mas, segundo a polícia, ele age no roubo de bicicletas há pelo menos cinco anos.

Aluno de doutorado em física da Universidade de Brasília (UnB), Arlon foi morto aos 29 anos em uma noite de quinta-feira na ciclovia da S1, no Eixo Monumental, em frente à Câmara Legislativa e a poucos metros da sede do Executivo local. Ele voltava para casa, no Sudoeste, de bicicleta, como costumava fazer diariamente, quando foi surpreendido pelo bandido que se espreitava entre as árvores. A vítima sofreu uma perfuração grave na axila esquerda e outras na mão e no braço. O suspeito fugiu, montado na bike roubada.

O estudante pediu ajuda aos motoristas que trafegavam na via e chegou a ser socorrido por uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), mas não resistiu aos ferimentos e morreu no Hospital de Base. O laudo do Instituto Médico Legal saiu dez dias após o crime e apontou lesão causada por tentativa de defesa. Arlon não foi a primeira vítima de Daniel.

Segundo a polícia, em 28 de outubro de 2015, o suspeito atacou um servidor do Exército que andava de bicicleta próximo ao Museu do Índio em uma atitude similar. Naquele dia, o homem se escondeu atrás das árvores e usou um pedaço de madeira para agredir o militar. A vítima caiu no chão, mas conseguiu reagir e atirar no criminoso, que se feriu, foi preso e condenado. Ele passou quatro meses recluso e teve progressão de pena para regime domiciliar em janeiro de 2016.

Na rua, pode ter voltado a agir. Daniel também é suspeito de ter feito outra vítima em 20 de setembro do ano passado. De acordo com a polícia, ele pode ter esfaqueado no peito de um servidor do Tribunal de Justiça do DF e Territórios (TJDFT), no Eixo Monumental. O objetivo também era levar a bicicleta. “Ele estava sempre atrás disso e tomava as bikes com violência, sozinho. Usava um pouco e depois vendia. Por isso, sempre era visto com vários modelos diferentes pela cidade”, relatou o delegado.

Professor da UnB, Jorlandio Francisco Félix era orientador do doutorado do estudante e diz ter recebido a notícia da identificação do suspeito com alívio e indignação. “Se não fossem as leis brandas, o Arlon estaria entre a gente. O criminoso deveria estar preso antes do fato pelo crime que cometeu, foi preso e condenado. A culpa é dos nossos políticos que aprovam leis tão brandas para criminosos que não deveriam estar circulando livremente entre a sociedade” acredita. Agora, ele espera que a prisão seja concretizada: “que ele não volte a ter liberdade para que não aconteça uma nova tragédia”. A reportagem não conseguiu contato com a família da vítima.

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