Menu
Brasília

Capital do país não está apta a receber turistas portadores de necessidades especiais

Arquivo Geral

04/12/2010 11h54

Rayssa Tomaz

Rayssa.tomaz@clicabrasilia.com.br

 

Planejar uma viagem, escolher um destino e organizar todos os detalhes para ter férias deliciosas pode ser também uma dor de cabeça, principalmente para pessoas portadoras de necessidades especiais. Apesar da existência da Lei 10.098/2000 e da norma da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) exigindo a adaptação de locais para facilitar a acessibilidade de pessoas com deficiência, a nova e moderna Brasília não está preparada para receber essa demanda de turistas, segundo os especialistas. 

 

Na última sexta-feira (3), foi comemorado o Dia Internacional da Pessoa com Deficiência. Nesta data, ações de conscientização acontecem no mundo todo para implementar políticas de inclusão dessa parcela da população. Mas essas ações ainda não chegaram com força na capital do país e quem visita a cidade acaba percebendo a falta dessas medidas. O goiano Alex Peres, 42 anos, veio participar um congresso e falou sobre sua impressão de Brasília. “Ela ainda precisa de muitas mudanças e adaptações. Conheço várias localidades muito mais preparadas do que a capital do país”, reclama o cadeirante. 

 

No conceito de portadores de necessidades especiais enquadram-se pessoas que apresentem algum tipo de deficiência e pessoas com mobilidade reduzida – que inclui também gestantes e idosos a partir de 60 anos. A ABNT possui norma que estabelece critérios para a acessibilidade de deficientes em edificações e áreas urbanas, por meio da NBR-9050. De acordo com portadores de necessidades especiais, os dispositivos legais ainda não são empregados de maneira eficiente, pois não existem investimentos no setor e, principalmente, fiscalização. 

 

A representante de uma empresa de pisos táteis e membro do comitê permanente de acessibilidade em São Paulo, Elizabeth Elias, forneceu seus produtos para a implementação de políticas de acessibilidade em obras no DF, como o Metrô e o Aeroporto Juscelino Kubitscheck. Entretanto, em um breve passeio por Brasília, sua avaliação da situação geral da cidade não é positiva. “Passei por um shopping, por algumas vias públicas e não percebi a existência de rampas, pisos táteis ou instruções em Braile. Em São Paulo, notamos uma aplicação mais efetiva da norma e acessibilidade”, reforça Elizabeth.

 

Outra avaliação foi realizada pela turista Karla Nunes, moradora de Recife. A cadeirante teve a difícil missão de visitar Brasília para sentir na pele as condições do turismo local para deficientes. A visita fez parte da produção de um guia turístico produzido pelo Instituto Muito Especial.

 

Karla fez diversos passeios pela cidade e percebeu algumas falhas no que diz respeito à acessibilidade de pessoas sem mobilidade ou com mobilidade reduzida. “Brasília está ainda caminhando rumo ao desenvolvimento no tocante à sua receptividade para pessoas com deficiência. Encontramos dificuldades nas ruas. Sabemos que, de um modo geral, é difícil o trânsito de pedestres, mas sentimos faltas de rampas, passarelas e piso tátil para pessoas que possuem necessidades especiais”, explica Karla.

 

Hotéis e restaurantes

 

Outros problemas enfrentados pelos portadores de necessidade especiais no DF são as dificuldades para se instalar confortavelmente, além da falta de acesso a restaurantes e pontos turísticos.

 

Na avaliação de Karla faltam opções de hotéis e restaurantes adaptados. “Brasília poderia ser o exemplo, já que é o lugar onde são feitas as leis e localiza-se a grande força política. Infelizmente, no momento da visita fomos surpreendidos pela ausência desse diferencial”, reitera a cadeirante.

 

No começo de novembro, aconteceu na cidade um congresso de tecnologia para acessibilidade. Para o evento foram convidadas pessoas com deficiência de todo o Brasil e com a chegada desses turistas vieram também inúmeros problemas. De acordo com o presidente do Instituto Muito Especial, organizador do congresso, Marcus Scarpa, a maior dificuldade foi receber esses convidados com conforto. A primeira edição ocorrida em Brasília mostrou que a cidade ainda tem muito a melhorar. 

 

“Uma das maiores dificuldades foi encontrar um hotel que tivesse várias suítes adaptadas e um restaurante que pudesse acomodar todas as pessoas. Esses serviços são precários em Brasília”, afirmou Scarpa.

 

 

Transporte

 

 

Viajar de avião ou ônibus é outra dor de cabeça enfrentada por turistas deficientes. As empresas não oferecem adaptações específicas para esse segmento e o trajeto até o destino pode ser bem desconfortável. 

 

Se a escolha do passageiro for por uma viagem aérea, não existe no setor uma legislação específica que atenda às pessoas com deficiências. Segundo informou a assessoria da Agência Nacional de Aviação Civil – ANAC, esses passageiros devem avisar a empresa aérea sobre suas necessidades no ato da compra da passagem, até mesmo pela Internet, ou com antecedência mínima de 48 horas antes do embarque. 

 

No âmbito aéreo, o conceito de portadores de necessidades especiais abrange também crianças desacompanhadas e pessoas acompanhadas por criança de colo. Eles têm direito a atendimento preferencial no check-in e no embarque. Já o desembarque é feito por último, exceto nos casos em que o tempo disponível para a conexão ou outro motivo justifique a priorização. 

 

Na prática, essa medida não é suficiente, tendo em vista que as companhias aéreas não prestam o serviço igualitariamente à todos os passageiros. Priorizar o embarque e desembarque é importante, entretanto não satisfaz as necessidades desse público, denotando apenas o início dos dilemas sofridos por eles.

 

Como explica Alex Perez, transitar pelos corredores de aviões e ônibus em uma cadeira de rodas e utilizar os banheiros é praticamente impossível. “Como um cadeirante pode entrar em um banheiro minúsculo, que já é desconfortável para uma pessoa que não precise do auxílio de uma cadeira de rodas?”, questiona. 

 

Alex conta que em suas viagens é impossível usar o banheiro e que a situação pode ser pior, se os vôos forem longos. “Como você viaja 15 ou 20 horas sem ir ao banheiro? É impossível. E se eu precisar ir à China comprar produtos para a minha loja, não dá para ir”, reclama. 

 

 

Segundo a assessoria da TAM, empresa que realiza a maior quantidade de vôos de longa distância do Brasil, a companhia está apta a receber passageiros que necessitem usar cadeira de rodas. “ As aeronaves utilizadas em rotas internacionais de longo curso possuem lavatórios posicionados em locais específicos e que comportam o passageiro, sua cadeira de rodas e mais um acompanhante para auxiliá-lo” explicou a empresa.

 

 

Já sobre vôos nacionais, operados em diversas regiões do país, a empresa alegou que os banheiros são equipados com maçanetas tipo haste e alças internas para facilitar o uso, entretanto não forneceu dados sobre as dimensões do toalete ou deu explicação sobre a impossibilidade explicitada pelos entrevistados. 

 

 

    Você também pode gostar

    Assine nossa newsletter e
    mantenha-se bem informado