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Brasília

Brasília é “campeã” no consumo excessivo de álcool

Arquivo Geral

24/02/2017 7h00

Atualizada 23/02/2017 22h41

Entre os pesquisados, 6,8% admitiram que já dirigiram depois de beber. Foto:Myke Sena

João Paulo Mariano
Especial para o Jornal de Brasília

Os brasilienses são os que mais consomem álcool em todo o Brasil. A constatação foi da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) por meio de pesquisa lançada nesta semana. Entre os moradores da capital, 25,4% alegaram beber quatro ou mais doses, no caso das mulheres, e cinco ou mais doses, no caso dos homens, numa mesma ocasião, o que seria considerado consumo abusivo.

A estudante de mestrado Luciana Ferreira, 27, não ficou muito surpresa com a com a pesquisa. A mineira de Belo Horizonte afirma que, depois da chegada a Brasília, aumentou o seu consumo de bebidas alcoólicas, apesar de considerar que “bebe pouco”. O motivo seria a facilidade de encontrar os amigos. Dá para sair de casa ou da universidade e ir a um bar aproveitar as companhias. Segundo ela, em BH, ela tinha que andar mais para se encontrar com as pessoas. Agora, é só se juntar e aproveitar.

Luciana não está sozinha neste consumo: as mulheres brasileiras que mais alegaram consumo abusivo de álcool foram as brasilienses – 20,1 %, seguidas pelas goianas, 18,3%, e capixabas, 15,9 %. Já os homens do DF ficaram na quarta posição, empatados com os capixabas em 32%. Os três primeiros colocados foram os soteropolitanos e cuiabanos com 34,9 %, seguidos pelos palmenses, 33,7 % e goianos, 33%. De acordo com o levantamento da ANS, os dados indicam que esse hábito é mais frequente entre as pessoas com idade entre 18 e 34 anos e tende a ser mais intenso em pessoas de maior escolaridade.

"Aqui, a mulher vai ao bar tranquila. No Nordeste é mais complicado devido ao machismo", Esmeralda Hanna, 25 anos. Foto: Myke Sena

“Aqui, a mulher vai ao bar tranquila. No Nordeste é mais complicado devido ao machismo”, Esmeralda Hanna, 25 anos. Foto: Myke Sena

Para a estudante Esmeralda Hanna, 25, um dos motivos para o consumo de álcool ser maior entre as mulheres da capital é que haveria menos preconceito do que em outros locais. “Aqui, a mulher vai ao bar tranquila. No Nordeste é mais complicado devido ao machismo”, diz a jovem, que é do Piauí.

A conterrânea Dhébora Marques, 20 anos, corrobora com Esmeralda: “Na minha família não é comum mulheres beberem. Elas só consomem quando os maridos bebem. Aqui tem mais emancipação”. Com mais liberdade, Dhébora não se incomoda de passar o fim de uma tarde no bar tomando uma “gelada” com os amigos depois de um dia intenso na universidade. Ela só pensa que, infelizmente, ainda há muitos jovens irresponsáveis que fazem besteira, como dirigir depois de beber.

Dhébora está certa. A pesquisa, que tem como base o ano de 2015, trouxe dados sobre a combinação de álcool e direção: 6,8% das pessoas admitiram a prática. Os homens são frequentes na infração: 11,7%, contra 3% das mulheres. A condução perigosa ocorre em geral entre adultos de 25 a 44 anos, em especial aqueles que têm mais escolaridade.

“Todos começam aos poucos”

“Nem todo bebedor social será um alcoólatra, mas todo alcoólatra já foi um bebedor social”, afirma José (nome fictício) que só conseguiu entender o significado dessa frase depois de alguns anos contando com a ajuda do grupo Alcoólicos Anônimos (AA).
A primeira reunião da qual participou ocorreu há anos, em Taguatinga, depois do convite de um colega. José diz que não era “safadeza” quando bebia, mas doença. Ele não conseguia ficar muito tempo sem beber. Trabalhar na segunda-feira, por exemplo, era algo impossível.

Quando chegou ao grupo, ele estava prestes a enfrentar um processo administrativo, com um casamento se desfazendo e sem força de vontade para conseguir parar. Foi naquele dia que ele entendeu pela primeira vez, ouvindo as histórias dos participantes, que era um alcoólatra.

Escape

A psicóloga Gláucia Flores, da Aliança Instituto de Oncologia, afirma que a juventude é uma fase de experimentação e tem todo um contexto de estar inserido no grupo, de fazer parte dele, e ainda há competição. Dessa maneira, as pessoas ficam ansiosas e o álcool entra como uma válvula de escape. Mas ela lembra que é necessário cuidado: o excesso de bebidas pode levar ao vício.

“Se há persistência no consumo mesmo quando ela tem prejuízos para a vida pessoal, é hora de prestar atenção. Alcoolismo é uma doença”, avisa a psicóloga.

Firme no propósito

Atualmente, depois de 27 anos no AA, José lembra das recaídas e da triste constatação de que a instituição recebe a cada dia mais jovens. Seguindo os 12 passos propostos aos integrantes, ele, apesar das recaídas, conseguiu sobreviver e manter-se firme. O conselho dele para as pessoas que percebem que tem o problema é viver um dia de cada vez.

Serviço

  • Há três fatores que podem levar a pessoa a perceber que deixou de beber socialmente e está viciado: a ingestão de bebidas é muito frequente, quase como uma compulsão; a tolerância da pessoa aumenta – ela quer beber em maior quantidade para sentir os efeitos; e a abstinência, ela passa a sentir falta da substância e coloca a bebida acima de outras situações importantes.
  • Quem precisar de ajuda pode procurar um psicólogo ou até mesmo o grupo Alcoólicos Anônimos mais próximo. A iniciativa, criada em 1935 por dois americanos com problemas de alcoolismo, tem reuniões em um ou dois dias na semana e está presente em mais de cem países.
  • Como o nome diz, o anonimato é preservado. A vontade de participar tem que partir da pessoa. Mais informações no site alcoolicosanonimos.org.br ou no telefone 3226-0091.

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