A secretária Eliene Lima de Oliveira, 34 anos, faz da colheita de amoras uma verdadeira rotina quando a fruta está enchendo as árvores do parque localizado perto de sua casa, em Ceilândia. “Levo sempre meus filhos ao parque do Setor P Sul. O mais velho, de 14 anos, gostar de andar de skate lá e a caçula, e 6 anos, vai para brincar. Mas não há um só dia que ela não pare nos galhos pequenos para comer amora”, diz. Para Eliene, a cidade é um verdadeiro frutal e parar na sombra para comer uma graviola, jaca, manga ou amora deveria ser rotina de todos nos momentos de lazer.
Uma bela ideia, aliás.
De acordo com a técnica-agrícola da Companhia Urbanizadora da Nova Capital do Brasil (Novacap), Janaína Lima Martins, Brasília foi projetada para que desse frutas nas ruas o ano todo. “Primeiramente, na construção da cidade se pensou em árvores mais ornamentais, que dessem sombra para os moradores. Mas logo no início da década de 1990 passou a se pensar na ideia de criar um pomar urbano”, afirma.
O primeiro local escolhido para oferecer aos moradores do Distrito Federal diversas espécies frutíferas foi o Parque da Cidade. Genipapo, manga e jaca são só alguns exemplos de frutas que podem ser encontradas facilmente no parque. Depois do primeiro projeto, o Distrito Federal toda começou a ser pensada para dar frutos aos seus moradores. Atualmente, a Novacap preocupa-se em manter a característica da cidade, plantando aproximadamente 50% de espécies do Cerrado e 50% de espécies adaptadas, como a pitanga e a manga. Só em 2008 foram 150 árvores plantadas, sendo 30 delas frutíferas.
Mauro di Pietro, 55 anos, trabalha como porteiro na 212 Norte e conta que a quadra é conhecida pela quantidade e diversidade de frutas que estão à disposição da população durante o ano todo. “Praticamente existe uma árvore frutífera perto de cada bloco aqui da quadra. Digo, brincando, que é alguma alma bondosa que pensou no futuro”, comenta. Mauro conta que pelo menos uma vez na semana um dos moradores do bloco chega com as mãos cheias de goiaba, ou manga, ou pitanga. Na volta para casa, ele mesmo já parou outras vezes para comer pitanga no pé, perto do ponto de ônibus, e conta que na quadra é possível encontrar até mesmo abacate. “E dos grandes”, completa.
“Brasília é uma cidade onde só se passa fome se quiser”, acredita Eulina Rosa dos Santos, 64 anos. Moradora da 411 Norte, a dona de casa explica que na cidade toda se vê um pé de fruta gostosa, independentemente da estação do ano. “Aqui na quadra mesmo, todo mundo vai no pé pegar uma fruta fresquinha. Alguns vizinhos trazem bolsas grandes para levar para casa”, garante.
Alerta
Muitas das árvores plantadas, segundo a Novacap, são responsabilidade dos próprios moradores, que compram mudas ou sementes e plantam na terra próxima de casa. A atitude, no entanto, não é a mais adequada, de acordo com a companhia. “É importante que quando um morador pensa em plantar alguma coisa ligue para a Novacap e peça uma vistoria e estudo. Temos problemas sempre com árvores que depois interferem na estrutura do local ou até na rede elétrica”, explica Janaína Lima Martins.
Comer uma pitanga fresca no pé, para Helena, de 6 anos, é delicioso, mas não tão bom quanto subir na árvore baixa para pegar a fruta. “Moramos perto da escola e vamos a pé todos os dias. Ela não consegue passar por aqui um único dia e não subir para pegar uma pitanga para chuparmos”, conta a mãe da menina, a arte educadora Letícia Nogueira, 33 anos. “Brasília, nesse ponto, é maravilhosa. Onde mais há essa mordomia no caminho de casa?”, diz.
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| A Novacap é responsável pela implantação e conservação da área verde e mantém cerca de quatro milhões de árvores plantadas no Distrito Federal. Principalmente durante a construção da cidade, espécies ornamentais nativas como ipês-roxo, amarelo, rosa e branco e quaresmeiras foram plantadas pensando na sombra que dariam para os moradores da capital federal com o passar dos anos Amora, jaca, abacate, joá, jenipapo, sapucaia e as da terra, cagaitas, jatobá, baru, pequi, entre outras, foram preservadas durante o processo de urbanização de Brasília e também são plantadas atualmente |