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Alunos de escolas rurais ainda sofrem com ensino remoto

Uma vez que o acesso à internet dessa população não é de qualidade ou, por vezes, é inexistente, o ensino remoto se tornou dor de cabeça

O ano de 2020 e o primeiro semestre de 2021 foram períodos letivos de grandes dificuldades de aprendizagem para a população que vive em zonas rurais no Distrito Federal. Uma vez que o acesso à internet em boa parte não é de qualidade ou, por vezes, é inexistente, o ensino remoto se tornou dor de cabeça e muitas atividades precisaram ser feitas ainda em modelo impresso, porém sem o acompanhamento do professor.

Este é o caso da família de Eliana Maria Fontenele dos Santos, 42 anos, que vive no Assentamento 1º de Julho, no Núcleo Rural Aguilhada, em São Sebastião, e precisou se desdobrar para garantir internet para o ensino para as duas filhas: Eloá, de 5 anos, e Giovanna, de 14. Com muito esforço e companheirismo de outros moradores do assentamento, a também presidente da Associação dos Moradores da localidade conseguiu o fornecimento do recurso para os que vivem na região, mas apenas em 2021.

Repartir a internet entre todos do assentamento, entretanto, diminui a eficácia da rede para a casa – ao menos as meninas conseguem fazer o básico das atividades realizadas remotamente nas escolas. Na residência de tijolos ainda à mostra, Eliana se esforça para alfabetizar a filha mais nova e para ajudar nas tarefas da mais velha, que está no 9º ano no Ensino Fundamental – ainda que não saiba ou se recorde do conteúdo.

Durante todo o ano de 2020, enquanto não conseguia rede de dados móveis de qualidade para as aulas das filhas, a trabalhadora rural, portanto, precisou ir às escolas pegar os materiais de ensino passados pelos professores. Com a mais nova, foi relativamente mais fácil: a instituição pública fica a cerca de 2 quilômetros da chácara onde moram. Já para ir ao colégio da filha mais velha, que fica no Núcleo Rural vizinho, de Nova Betânia – a cerca de 10 quilômetros -, a mãe dependia de caronas e favores para chegar ao Centro de Ensino Fundamental (CEF) da região.

O material impresso pegado na escola durava aproximadamente 15 dias, mas o desempenho das duas filhas diminuiu, principalmente o da mais velha, que, sem o auxílio de um professor, não conseguiu absorver muito bem conteúdos de matemática, por exemplo. “Eu só fiz até a 8ª série, então não consigo ajudar muito. Até tento, mas eu falo para ela que estamos aprendendo juntas muita coisa”, afirmou Eliana.

Na opinião da mãe, o retorno às aulas na próxima semana, previsto para 2 de agosto, será um alívio quanto ao aprendizado, mas ainda há muita preocupação pelo receio da contaminação do novo coronavírus. “Ela tem bronquite asmática [considerada comorbidade]. Tenho medo, por mais que os professores tenham vacinado”, disse.

A respeito de como será a volta às salas de aula na próxima semana, a Secretaria de Estado da Educação (SEE/DF) deverá apresentar hoje um modelo completo de Plano de Retorno às Aulas Presenciais da rede pública de ensino. Nele, detalhes sobre alunos com doenças crônicas e comorbidades deverão ser especificados pela pasta.

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Internet foi sacrificial

“Tivemos muita dificuldade nesse tempo de pandemia. Só tinha meu celular para as duas”, afirmou Eliana. A filha mais velha, Giovanna, conseguiu o celular que usa atualmente trabalhando com o pai em outra região – ela juntou dinheiro e comprou o aparelho. A mais nova, agora, usa o celular da mãe. “Às vezes ela [Giovanna] tinha de estudar na janela ou lá fora [na terra] para pegar internet da vizinhança, que é aberta”, explicou a matriarca.

“É correria demais para se manter uma casa, cuidar das meninas e ainda gastar com internet, que estava R$ 300,00 para colocar. Eu nunca conseguia arrecadar esse dinheiro – sempre tinha que usar para uma emergência ou outra. Mas consegui parcelar”, relatou. A internet, segundo ela, não é 100%. “Tem hora que está boa, tem hora que cai. Ela é básica para ajudar um pouco nas reuniões e às vezes não dá. E a internet só com os dados móveis do celular não é boa; só melhora quando estamos na rua.”

Eliana conseguiu achar e pagar por uma internet, ainda que ruim, custando-lhe R$ 50,00 por mês. Mas o plano futuro é conseguir o fornecimento por meio da tecnologia de fibra óptica, que garante uma rede mais rápida e com mais qualidade. “Quero trazer para todos na comunidade – tenho certeza que vai melhorar a vida de todos aqui. Já pedi para uma empresa vir para ver se dá para colocar”, contou, empolgada.

A que usam atualmente é via rádio, segundo Eliana, e, quando a internet cai – não raras as vezes, por conta de alguma peça do sistema – é “um transtorno”, como descreve ela. “No fim de semana essa internet não presta para nada. De sexta até domingo é um caos, até porque todo mundo está ficando em casa para dividir a internet, aí não dá para mexer”, disse. “Foi a que conseguimos colocar. Algumas são melhores, mas não conseguimos acessar para colocar aqui”, detalhou.

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“Espero que a volta às aulas ajude no aprendizado delas [filhas]. Até preferia que a Giovanna [mais velha] repetisse o ano e pudesse aprender mais agora do que ter que correr atrás depois”, opinou Eliana. Para ela, a ausência de acompanhamento adequado e a facilidade de achar respostas na rede têm sido prejudiciais à filha.

“Uma nova fratura”

Para o especialista em educação e uso de novas tecnologias para o aprendizado, Gilberto Lacerda dos Santos, professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (FE/UnB), na medida em que a sociedade opta pelo uso da internet para o ensino e a educação pública segue a tendência de desenvolvimento neste sentido, cabe ao Estado garantir também que haja uma democratização do aprendizado, com igualdade e qualidade.

“O Brasil tem avançado desde 1980 para implementar novas tecnologias na educação. Na medida que é uma medida pública, compete ao Estado prover o devido acesso a todos. Caso contrário, criaremos uma fratura ainda maior em uma sociedade já muito fraturada – e já estamos criando”, afirmou o especialista.

Segundo ele, além das escolas em áreas urbanas, as instituições em zonas rurais foram “extremamente prejudicadas” no processo de adaptação ao ensino à distância, forçado pela pandemia da covid-19. “A maioria das escolas urbanas já está à margem do acesso digital. As rurais, consideradas de segunda classe em termos de atenção do poder público, se tornam triplamente prejudicadas. As características do núcleo rural já são difíceis pelo o acesso à escola de muitos alunos com o trajeto por vezes de quilômetros”, exemplificou.

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De acordo com Gilberto, a médio e longo prazo, há a possibilidade de ser criado “um aleijamento” do ensino nessas regiões e “uma subclasse dentro do sistema escolar”. “E quem perde é a sociedade, pois haverá uma disparidade entre a capacitação de uns e outros”, analisou o professor.






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