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Brasília

Alcoólicos Anônimos comemora sete décadas no Brasil e 48 anos em Brasília

Arquivo Geral

09/06/2017 6h00

Foto: Kléber Lima

João Paulo Mariano
redacao@jornaldebrasilia.com.br

“Eu não estou curado do alcoolismo. Estou me recuperando. Foi uma decisão que tomei. Hoje, sei que não devo beber. Eu não posso”, afirma Daniel (nome fictício), mesmo após 15 anos sem consumo de álcool. A luta diária começou após uma reunião do grupo Alcoólicos Anônimos (AA), que completa 70 anos de Brasil e 48 anos de Brasília.

Hoje, mais uma vez, ele se unirá aos companheiros e participará de uma reunião aberta ao público no Instituto Federal de Brasília (IFB) do Gama, para discutir os próximos anos do movimento.

O relato de Daniel é um de muitos da capital federal. Assim como ele, cerca de três mil pessoas participam regularmente de reuniões do AA nos 100 grupos presentes no DF e na Região Metropolitana. Ele se lembra exatamente de quando deu o último gole: por volta das 13h no dia 25 de outubro de 2002, no P Sul, Ceilândia, e depois foi chamado por um amigo para primeira reunião do AA.

“Pela primeira vez, eu fui tratado como pessoa. Normalmente, o alcoólatra é discriminado, até mesmo em hospitais”, relata Daniel, que entende o porquê de as pessoas marginalizarem o dependente do álcool – condição que é considerada doença pela Organização Mundial da Saúde. “Eu tinha tudo quanto era problema. Como pessoa, deixei muito a desejar. Eu perdi a capacidade de cuidar da minha família”, lembra.

Saiba mais

  • A reunião pública de hoje ocorre a partir das 20h, no IFB do Gama (DF-480, lote 1) e contará com a presença de promotor de Justiça para falar sobre a parceria entre a Justiça e os AAs.
  • De acordo com a Diretoria de Saúde Mental da Secretaria de Saúde, cerca de 12 mil pessoas são atendidas por problemas relacionados ao uso de álcool e outras drogas aos Centros de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas (CAPS Ad).
  • Quem tiver dúvidas sobre as reuniões ou quiser descobrir onde elas ocorrem pode ligar para o número 3226-0091.
  • Para os interessados no serviço do Al-anon, basta telefonar para 3273-0404.

Passado e presente

Quando ainda estava mergulhado no vício, Daniel não separou a família nem passou fome “por pouco”, pois não conseguia se manter em nenhum emprego por mais de seis meses.

Hoje, umas das alegrias dele é ver a felicidade que os filhos têm por presenciar sua sobriedade. Ele se emociona ao lembrar que seu pai o viu livre do álcool antes de falecer, o que foi muito importante – pois considera ter dado trabalho durante toda a juventude. Até mesmo para terminar o Ensino Médio não foi fácil, já que ia alcoolizado para a escola.

Um passo de cada vez

Para Daniel, o ponto de mudança foi perceber que não precisava prometer para todo mundo que iria parar com o vício, mas dar um passo de cada vez: um dos lemas discutidos pelo AA. Ele chegou a ser internado por duas temporadas, porém, só ficou sóbrio por três meses. Hoje, ele ajuda a disseminar os princípios do movimento por onde vai. Assim como o seu companheiro de estrada José (nome fictício), que está livre do alcoolismo há 27 anos e participa ativamente da organização do AA.

José entende bem a sua situação: “Alcoolismo não tem cura, mas recuperação”. O homem se define como um alcoólico – portador da doença do alcoolismo – e não um alcoólatra, aquele que tem o problema ativo. José reclama que há preconceito com o grupo, mas assegura que as pessoas estão lá “não para saborear o álcool, e sim a sobriedade”.

O grupo surgiu em 1935 na cidade norte-americana de Akron, em Ohio, quando um médico cirurgião e um corretor da bolsa de valores se juntaram para trocar experiências sobre a doença. O grupo existe para quem sofre com o alcoolismo e para os familiares dessas pessoas discutirem as sequelas da convivência complicada – chama-se Al-anon.

Consumo no DF

José gosta de dizer que “nem todo bebedor social será um alcoólatra, mas todo alcoólatra já foi um bebedor social” e que é sempre necessário ter alguma vigilância quanto ao assunto.

Estatísticas locais apontam que cerca de 25% dos moradores da capital bebem quatro ou mais doses, no caso das mulheres, e cinco ou mais doses, no caso dos homens, numa mesma ocasião. A Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) considera essa quantia um consumo abusivo. Esses resultados foram divulgados em uma pesquisa deste ano.

Tratamento

Perguntas

Quem vai a uma reunião do AA pela primeira vez precisa responder a 12 questões. É uma autoavaliação não oficial para saber o grau do problema. Se o resultado for positivo para mais de quatro perguntas, a pessoas têm o álcool como uma presença forte em sua vida. As perguntas são:

  • Já tentou parar de beber por uma semana e não conseguiu?
  • Gostaria que parassem de se intrometer em relação ao seu consumo de bebidas?
  • Já mudou de tipo de bebida na esperança de ficar sem beber?
  • Tomou algum trago pela manhã no último ano?
  • Você inveja pessoas que bebem sem problemas?
  • Você teve problemas relacionados a maneira de beber no último ano?
  • Sua maneira de beber já causou problemas em casa?
  • Tentou conseguir doses extras em festas com quantidades limitadas?
  • Você diz a si que pode parar de beber quando quiser?
  • Faltou ao serviço ou à escola devido a bebida?
  • Já teve “apagamentos” durante a bebedeira?
  • Já pensou que sua vida poderia ser melhor se não bebesse?

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