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Brasília

Adoção: mãe de 2 crianças explica como tudo muda depois que o telefone toca

João Victor Rodrigues

28/04/2026 11h01

Por Luisa Mello
Agência de Notícias CEUB

Na manhã de 5 de maio de 2022, o telefone tocou. 

— Alô?! 

Ao atender o telefone, os olhos de Lilyan se encheram d’água, o peito inflou de felicidade e o coração transbordou de amor. A espera acabou. Ela estava prestes a se tornar mãe. “Eu e meu esposo choramos juntos. Era nossa vida mudando naquele instante. Tudo que a gente sonhou.” 

Criada em uma família grande, com dois irmãos, 11 tios e 40 primos, o sonho de construir o próprio ninho fazia parte de sua história.

Em 2026, Lilyan e Felipe completam 19 anos juntos, sendo 14 anos de casamento. O casamento é resultado de um amor da juventude. Conheceram-se na adolescência e se casaram na vida adulta. “Eu brinco que a nossa relação deu certo porque a gente casou novo”, sorri. “Aproveitamos muito a fase sendo apenas nós dois”. 

As tentativas de engravidar começaram em 2017. Ao mesmo tempo em que visitavam o consultório médico para exames pré-concepção, deram início ao curso de adoção. “Desde a época em que namorávamos, nós falamos que teríamos um filho biológico e um filho adotivo. Então, nós sempre corremos ao mesmo tempo, tanto na fila quanto no processo de termos o filho biológico.” 

Após tentativas naturais frustradas e buscas e adaptações a clínicas de fertilização, o filho biológico parecia não ser mais uma opção.

“Durante os tratamentos, as mulheres ficam mais frágeis. São muitos hormônios e posições horríveis, diante de vários médicos. Era um processo muito difícil, de muito sofrimento, para — no final — não ter certeza do resultado”, explica. 

Angústias

Durante toda a trajetória gestacional, foram ao todo cinco abortos espontâneos. A mãe de Lilyan, Maria de Lourdes, conta que todos os procedimentos sem sucesso a deixaram em angústia, por acompanhar de perto todo o sofrimento que o casal vivia.

“Lembro que, no último tratamento, fui com ela ao médico para ver se estava tudo bem. Assisti a ela andando de cabeça baixa, viemos em silêncio. Nesse dia, fui para o quarto, ajoelhei e pedi chorando para Deus mandar uma criança para eles.” 

Agatha

A oração se transformou no toque do celular, enquanto Lilyan e Felipe estavam em viagem. Ela ia ser mãe, e era uma menina. Agatha chegou à vida deles aos 9 meses de idade.

“Nós não exigimos nada, o nosso perfil era muito aberto. Foi uma grande surpresa para nós porque menina é algo que todo mundo quer. A fila para uma menina é muito grande e ainda uma bebê. É raro”. 

Enquanto grande parte das mães têm nove meses para se preparar e esperar a chegada da criança, Lilyan mudou completamente de vida em apenas um segundo, ao atender a ligação.

“Em uma semana, eu tinha uma criança em casa e estava de licença maternidade. Todo mundo curioso querendo conhecê-la e eu me adaptando em ser mãe.”

Embora Lilyan não tenha vivido um período gestacional, ela viveu um puerpério intenso, com as mesmas emoções e confusões. A euforia de se tornar mãe, acompanhada dos pensamentos de auto sabotagem.

Antônio

Dois anos depois, o telefone tocou mais uma vez e o coração bateu ainda mais forte. Lilyan ia ser mãe novamente e, dessa vez, era um menino. Antônio tinha 1 ano e 9 meses.

“Era um menino com muita burocracia e uma história mais amarrada. E diferente da Agatha, a gente já sabia o que era ter um filho. Para ela, foi uma folha em branco. Com o Antônio, fomos mais receosos.” 

Em uma segunda-feira, os irmãos se conheceram. “Foi algo assim, sem explicação. Parece que tinha que ser nesse modelo, essa família e eu tive certeza que era para ser os dois. Eles são muito parceiros, é inexplicável a conexão e a relação que os dois têm. Com cuidado, atenção, carinho. Claro, são irmãos. Às vezes dá uma briga, uma discussão, mas o que prevalece é o amor entre eles”. 

Vida alterada

E lá ia a vida mudar mais uma vez. No auge da nova carreira como psicopedagoga, Lilyan optou por estar 100% com os filhos nestes primeiros meses, enquanto Felipe trabalhava fora, como consultor de tecnologia da informação. “A minha vida como mãe e como mulher mudou muito”. 

Além do peso, desafio e turbulências de uma maternidade “tradicional”, Lilyan também precisa enfrentar o preconceito do dia a dia. Chegou a ouvir frases que a feriram.

— Você não é mãe de verdade! 

— Você nunca vai saber o que é o cheiro de um filho! 

— Você não tem medo? Já pensou se seus filhos se tornam igual aos genitores, ladrões, assassinos! 

E, como qualquer figura materna, o medo dos estigmas atingirem os filhos nunca sai da cabeça.

“Ambos sabem que são adotados e estão preparados para serem fortes, com terapia. Eu não consigo blindá-los do mundo, mas eu consigo prepará-los para lidar melhor com essas situações.” 

Atualmente, eles são a família que Lilyan sempre sonhou. “Eu brinco muito que a minha família — eu, Felipe, Ágata e Antônio — nós temos que nos amar muito porque ninguém tem sangue de ninguém. Somos quatro pessoas sem nenhuma relação genética que decidiram se amar incondicionalmente”.

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