Luciana Costa
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A primeira paciente com Covid-19 do Distrito Federal e a primeira do Brasil a ser intubada, Cláudia Patrício, conta sua história de sobrevivência aos 105 dias de internação. O livro “Você Vai Viver” será lançado em 11 de dezembro, que recebeu este nome por ser as últimas palavras que a advogada de 52 anos escutou do médico antes de ser sedada no quarto do Hospital Regional da Asa Norte (HRAN). Ao lado do marido, André Patrício, ela narra a luta contra o coronavírus, enfrentando o grau mais grave, venceu a doença com o apoio incondicional do companheiro.
Além de sobreviver sobre a Covid-19, ela também conta da sua luta contra o câncer de mama diagnosticado no começo deste ano. Tendo já feito as sessões de quimioterapia e a cirurgia de remoção, e agora está curada e fala: “Antes dessas doenças, eu já vivia um dia por vez, hoje eu vivo um minuto de cada vez”.
Natural do Rio Grande do Norte, Cláudia continuou-se firme na advocacia durante a recuperação, trabalhando de casa em meio aos tratamentos para aliviar as dores e distrair a mente. Junto com o marido, o casal criou o Portal Vencer, projeto de capacitação profissional e pessoal pertencente às suas empresas. No qual, oferecem experiências e orientações em diversas áreas de atuação e de interesse público, em prol do desenvolvimento profissional e pessoal da sociedade.
JBr: Como foi colocar toda sua história no papel?
Cláudia: “Doloroso. Foi muito doloroso reviver tudo, não foi fácil. Eram temas estavam pela metade, porque às vezes eu parava para chorar e tinha que acabar depois. Eu escrevi a mão… Eu fiquei com uma sequela grave, tanto que o livro estar saindo com cinco meses de atraso, deveria ter sido lançado bem antes. Comecei o livro manuscrito ainda na UTI e terminei o livro manuscrito em casa. Para mim, a escrita flui e é muito natural, afinal eu vivo disso. Mas, eu trabalhei muito, eu enxuguei o livro para que ficasse mais fácil a leitura, até porque eu decidi escrever o livro ainda no hospital. Eu queria deixar uma lembrança, um legado para minhas filhas.” […] “Eu queria um livro que não retratasse tanto a dor do que eu passei, mas ensinasse que o inesperado pode acontecer. Ensinasse para quem se desespera para ter calma para não se afogar. O que mata na doença é você não saber o amanhã, e os médicos não dão as esperanças. Eu queria dizer para essas pessoas, que estavam na UTI comigo, aguarde um pouquinho… Elas vão reagir aos remédios e ter resultados, já que eu não pude falar com outros leitos assim, mas eu queria falar com eles: “mantenham-se respirando mesmo que seja pouco, alguma coisa!”. Mas eu não falava, eu só movia os olhos, mas se pudesse falar!”.
JBr: O que te motivou a compartilhar sua história?
Cláudia: “Um jeito de me acalmar era pensar que ‘pelo menos que eu sirva para alguma coisa, o que está acontecendo comigo sirva para alguma coisa’. Se o meu é tão grave assim, que mostre para os outros, que o deles não é tão grave: você vai viver! […] Eu nunca tinha tido nenhuma doença, eu não tinha tempo de adoecer. Nós estamos em viagem a Londres, após alguns dias em casa, eu não estava me sentindo bem, estava um pouco fraca. Não achava que era um problema sério, como nós estávamos em passeios universitários pela cidade, não havia muitas pessoas e eram locais mais isolados. Era uma incabível, inconcebível até pensar que poderia contrair um vírus fatal em um lugar daqueles, e em um momento em que a pandemia ainda não tinha chegado na Europa.
JBr: Por ter sido a primeira paciente, você foi transferida de um hospital particular para um hospital público em um momento crítico de saúde.
Cláudia: “No hospital particular, eu conheci a dor da discriminação depois do diagnóstico da Covid-19. Todos os funcionários olhavam diferente para mim, do zelador aos médicos. Fomos expulsos de lá e transferidos para o HRAN. Embora falem muito do SUS, mas foi a rede pública que me salvou com os médicos de alta qualidade, os enfermeiros com uma educação, que era justamente o que eu precisava.” […] “A força que meu marido por ter ficado lá o tempo todo, fez toda diferença. Porque meu inconsciente passou a lutar, acreditando que eu viveria, reagindo para que eu vivesse, passou a trabalhar nesse sentido. Meu marido ajudando ali até quando faltava algo ou eu não reagia aos medicamentos, eu devo muito a ele. Eu descobri a força de um grande amor, depois desses anos todos com quase 30 anos casados, com filhas moças já casadas e quase avós. Eu jamais pensei que ele ficaria sem tomar banho por dois e três seguidos, ele me socorreu em tudo na época e socorre até hoje. Ainda estou em Home Care, tratamento médico feito de casa.”
JBr: E para você, André, como foi pode apenas assistir sua mulher lutar pela vida?
André Patrício: Foi bastante difícil. Nós estávamos cumprindo todos os protocolos para uma doença infectocontagiosa, então dentro do pronto-socorro do hospital particular, tinha uma sala de isolamento. Os médicos me orientaram que eu sempre estivesse junto dela, de fato, junto cumprindo os mesmos protocolos de isolamento dela. Quando nós fomos removidos para o HRAN, eu fui dentro da ambulância com ela todo paramentado, com uma máscara que o hospital me deu. Lá, eu cumpri o mesmo, a ordem foi: “vocês vão ficar aqui dentro do quarto até que a UTI esteja liberada, e precisar de alguma coisa, você vem até o limite da porta do quarto e chama. Nós vamos vir aqui, você não pode ir até nós para não circular no hospital”. E assim eu fiz! Ainda no quarto comum do sétimo andar, ela teve que ser intubada e, nessa hora, Deus falou no meu coração que eu ficasse ali no primeiro momento, apesar dos médicos queriam me preservar para que eu não assistisse aquela cena: ver uma pessoa muito próxima, passar por aquele processo. Os médicos fizeram tudo que era possível mesmo, mas não tinham as ferramentas de dentro de uma UTI naquele andar, os equipamentos eram mais obsoletos, você observava que eram o que estavam disponíveis ali. Só Deus que me dava uma força e uma calma, hoje eu não sei como é eu enfrentei aquilo. Era doloroso ver a situação, porque ela é uma pessoa muito ativa, que trabalha desde os 14 anos. E nós dois levamos a vida sempre muito ativa, nossa vida era gostosa. E vê-la naquele estado, foi difícil… Eu estava deu acabei vendo o procedimento, que não é fácil, é um barulho dos médicos se comunicando, por isso que eles queriam me poupar de estar lá, mas foi uma responsabilidade minha de querer ficar. Até faço uma analogia com a cena de guerra, porque depois de ser sedada e intubada, a equipe inteira saiu e foi meu desespero! Naquele momento era como se nós tivéssemos uma paciente de UTI em um ambulatório, os enfermeiros e os técnicos do andar não são treinados para manusear os equipamentos de UTI, o que foi um outro desespero. Ficou eu, ela e aquele monte de aparelho! Para o meu susto, ela começou a se mexer, eu pensei que a sedação não estava funcionando, tanto é que ela trouxe a mão pra boca para querer arrancar o tubo. A sensação de estar intubado é como se fosse um dedo na garganta. Eu segurei a mão, só que parece que a pessoa quando está assim, cria uma força absurda, eu quase não conseguia segurá-la. Não sabia se segurava ou se chamava alguém, comecei a gritar e chamaram uma técnica da área da UTI, que ficou comigo no quarto.
JBr: A Cláudia contou no livro muitos detalhes do que você passou por ela. O companheirismo de vocês é algo que chama a atenção.
André: Nosso casamento é um projeto de vida. Nós levamos com sede de viver e viver bem, nos dedicarmos um ao outro e trabalharmos para sermos bem-sucedidos, porque trabalhamos juntos. A nossa vida sempre foi muito intensa de proximidade, ela sempre foi a minha melhor conselheira e vice-versa, minha melhor amiga. De repente assim a possibilidade de não tê-la comigo… era inconcebível, não consigo nem imaginar. E sei de onde tinha forças, mas eu sei que foi Deus que me ajudou. Toda nossa vida é nós dois juntos em tudo. Aquela situação (da intubação no hospital), eu precisava estar lá, não queria estar para ver, mas algo me dizia que eu ia precisar estar lá e, realmente, se eu não estivesse teria sido diferente.
Cláudia: “Eu nem precisava de uma prova de amor tão grande assim…”
André: “Ela já estava sem Covid-19. Apesar de que ela ainda estava sedada, mas eles me autorizaram a ficar na UTI. Nos 50 dias que ela passou naquela UTI, eu fiquei direto com medo dela acordar sozinha e se ver naquela situação. Um dia, eu percebi o movimento, levantei da poltrona e fui para o lado dela, peguei no cabelo, na testa e falei um pouco com ela. Mas estava com uma confusão mental de medicamentos, parece que voltou no tempo, e pensava que eu era noivo dela ainda e as meninas eram filhas só minhas de outro casamento.”
Cláudia: “Foi nesse dia em que eu acordei e descobri que estava tetraplégica; quando eu tento erguer a mão para dar a mão a ele e nada… tentei a outra, tentei mover os pés e nada. Tive que reaprender a andar.”
JBr: Foram muitas etapas de lutas que vocês passaram… Em fevereiro desse ano, a Cláudia recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Como vocês receberam esta notícia?
Cláudia: Olha, eu acho que ter passado por tudo aquilo me deixou mais forte, mais calma. Eu recebi a notícia do câncer com mais calma, mais tranquilidade. Cronologicamente, assim que eu saí da internação da Covid-19, um mês depois, meu pai foi atropelado. Tive que reaprender a fazer tudo, e no início desse ano, veio a confirmação do câncer de mama.
André: Na verdade, quando ela teve alta da Covid-19 no final de junho. Dizem que a Covid-19 faz todo um descontrole no corpo, porque ainda ano passado, nós percebemos que tinha nódulos. O crescimento foi muito acelerado, se dividiu muito rápido. Lá para setembro, nós já tínhamos a suspeita, mas nós não podemos tratar, porque ela não tinha forças e saúde para isso. Ela veio para casa sem movimento algum, tudo era difícil, até para sair daqui e fazer algum exame, precisava de ambulância. Os médicos ainda no ano passado já tinham a convicção que era um câncer, o único exame que ela não fez foi a biópsia, porque ela também não tinha como tratar o ano passado, não tinha condição clínica de iniciar uma quimioterapia ainda pelas sequelas do coronavírus.
Cláudia: Tinha-se a certeza de que era câncer de mama, mas não sabíamos se tinha espalhado pelo resto do corpo. E graças a Deus, não se espalhou. Foram 5 meses de quimioterapia, os médicos fizeram uma cirurgia de certa maneira muito conservadora, não teve a remoção total dos seios. Já consideramos isso uma vitória! Agora já estou livre do câncer, mas ainda em tratamento pelas sequelas que ficaram.