Raphaella Sconetto
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O comum, e esperado, é que crianças possam desfrutar da infância brincando, estudando e fazendo atividades que proporcionem uma vida digna. Mas nem sempre é assim. Ontem, três irmãos, de 9, 12 e 13 anos, foram resgatados por um casal de Santa Maria. As crianças estavam sendo ameaçadas de morte por um homem, que tem em torno de 40 anos, pai do mais novo e padrasto dos outros dois. Além de trabalho infantil, os garotos eram submetidos a agressões físicas e psicológicas e não estavam se alimentando corretamente.
As vítimas moravam no Assentamento Morrinhos, que fica entre Formosa e Flores, em Goiás, e chegaram até Santa Maria depois de ligarem pedindo socorro para Patrícia e José* (nomes fictícios), que possuem um lote no assentamento e moram na região administrativa do DF. “Eu conheci os meninos e, com o tempo, eles começaram a me contar as coisas que o pai fazia. Meu marido deu o número do telefone dele e disse que eles poderiam ligar se acontecesse qualquer coisa”, conta Patrícia, que não quis se identificar.
A ligação de socorro veio na terça-feira passada, às 16h. “Quando o mais velho me ligou, ele estava muito agitado, gritava muito. Dizia ‘meu pai bateu em mim, chutou meu irmão’, aí eu não conseguia entender o que ele falava. Ele dizia ‘ele ameaçou a gente com um revólver, a gente teve que dormir no mato’”, relata a mulher.
O desespero em conseguir ajudá-los se tornou, imediatamente, um ato de compaixão pelo próximo. “Preferimos esperar chegar de madrugada para buscá-los. Seria o momento em que os pais estariam em sono profundo. As crianças estavam escondidas. Ninguém poderia nos ver, porque pai anda armado”, detalha.
O casal teve que pedir ajuda para conseguir um carro e dinheiro para a gasolina. Além disso, tentou contactar as autoridades locais. “O Disque 100 não atendeu. Nem o 180. Cansei de chamar a Polícia Civil e Militar. Aí, quando chegamos lá, não tinha como mais demorar para pegar os meninos”, diz Patrícia. Às 4h de ontem, os irmãos estavam salvos.
O assentamento fica a cerca de 260 km de Brasília, mas o casal só conseguiu ajuda no Conselho Tutelar de Santa Maria. “Estava de plantão e chegou esse pessoal com as três crianças. Eles estavam sujos, desnutridos, com hematomas pelo corpo e desesperados”, conta o conselheiro tutelar Hessley Santos.

Foto: John Stan
Trabalho
Ao Conselho Tutelar, as crianças disseram que eram obrigadas a trabalhar durante a noite e até mesmo a roubar e matar gados. “Eles contam que sabem desossar a vaca, porque depois de matar eles que tinham que preparar a carne. Apesar de também ter que tirar leite, o mais novo falou que eles não podiam beber”, detalha o conselheiro.
A rotina envolvia furar buracos, fazer cercas para o gado e até mesmo cometer pequenos furtos a vizinhos. Caso não cumprissem, sofriam punições. “Eles eram torturados com facão, com revólver na cabeça. O homem já afogou os meninos pendurados de cabeça para baixo, já colocou eles de castigo dentro de buraco”, detalha o conselheiro tutelar.
As crueldades cometidas pelo homem assustaram Hessley. “Em cinco anos no conselho, é a primeira vez que me deparo com uma situação tão grave. Os meninos estão com pavor de voltar para casa”, afirma. Mais duas crianças, de 4 e 6 anos, ainda estão no assentamento com o suspeito. “Os relatos que recebemos dos meninos é que a mãe está grávida de mais uma garota”, acrescenta.
Os três irmãos foram encaminhados ontem para a Promotoria da Infância e Juventude, onde seriam pedidas medidas protetivas. “Vamos pedir o acolhimento institucional dos meninos. E lá eles devem procurar a ‘família estendida’, como tios, avós, para ver quem fica com eles”, conclui Hessley.
Relato de alívio
Sentados na sala do Conselho Tutelar e rindo dos desenhos que passavam pela televisão, os três irmãos ainda não compreendem que terão de aguardar muitos processos burocráticos até que possam desfrutar de uma vida digna. No entanto, o sorriso tímido no rosto mostra que uma nova vida está prestes a começar. “Estou feliz de estar aqui. Agora eu quero brincar e estudar”, resume o irmão mais velho, de 13 anos, que detalhou que eles são obrigados a essa rotina há quatro anos.
A alegria veio no momento em que foram resgatados por Patrícia e José, e o desejo é não voltar para o antigo lar. “Eu perguntei três vezes se alguém queria desistir, mas o menor me disse que queria ir para a minha casa. Diziam que, se voltar, o pai os mataria”, conta Patrícia. “O primeiro passo era salvar a vida deles, independentemente se o pai viesse com arma ou se ele vai colocar fogo nas nossas coisas lá. A única coisa que a gente queria era tirar os meninos”, conclui a mulher.