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Brasília

A crise que esvazia a Comercial Norte de Taguatinga

Comércio tradicional de rua perde espaço para o mercado digital e sofre com calçadas desertas

Guilherme Abarno

09/06/2026 0h05

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Fotos: Guilherme Abarno / Jornal de Brasília

O cenário de calçadas cheias e vitrines atraentes que consagrou a Avenida Comercial Norte como o coração econômico de Taguatinga está dando lugar a placas de “aluga-se”. Considerada um dos pontos mais tradicionais do Distrito Federal, a via sofre com o fechamento em massa de lojas, um fenômeno que arrasta para baixo os preços dos imóveis e levanta preocupações sobre o esvaziamento urbano da região.

Esse processo é sentido diretamente por quem atua no mercado imobiliário local. Para Hélio Eustáquio da Silva, proprietário da Hélio Imóveis e especialista no setor, o declínio da atividade econômica na via é resultado de uma combinação de fatores estruturais, que vão desde a carga tributária até mudanças profundas no comportamento do consumidor. “Há muitos imóveis desocupados, especialmente em função dos frequentes aumentos de impostos e da mudança de mentalidade das pessoas, que hoje preferem consumir e buscar serviços em locais com maior concentração de lojas, como os shopping centers”, afirma.

hélio eustáquio da silva
hélio eustáquio da silva

Na prática, essa nova dinâmica se traduz no tempo prolongado em que os pontos permanecem vazios. As placas de locação, antes transitórias, se tornaram permanentes na paisagem. Segundo o corretor, a grande oferta de espaços disponíveis ampliou os prazos dos contratos e alterou a lógica das negociações. “O tempo médio para locação na área pode girar em torno de oito meses. Como a quantidade de imóveis ofertados é grande, os eventuais interessados encontram muitas opções vazias e, consequentemente, ganham maior poder de barganha. No comércio, sempre será a lei da oferta e da procura que baliza as relações entre locadores e locatários, com a intermediação das imobiliárias”, explica.

Esse desequilíbrio também impacta diretamente a decisão dos lojistas de permanecer ou não no local. O que antes era visto como um endereço estratégico passou a ser avaliado com cautela, diante de um custo operacional cada vez mais difícil de sustentar. O corretor ressalta que a conta, simplesmente, não fecha para o empresariado. “Hoje, a Comercial Norte não é mais vista como um investimento atraente. O IPTU cobrado pelo governo é exorbitante e não reflete o estado de abandono em que a avenida se encontra.

Essa carga tributária está totalmente fora da realidade e das possibilidades dos comerciantes, que enfrentam um faturamento deficitário e margens de lucro cada vez menores devido à fraqueza do mercado local”, conclui Eustáquio.

Insegurança e calçadas vazias

Além dos custos financeiros, quem caminha pela região logo percebe que a própria atmosfera do lugar mudou. O vaivém de consumidores deu lugar ao esvaziamento das calçadas e a uma sensação constante de insegurança. Alisson David, de 30 anos, que trabalha no setor de vestuário masculino, vive essa realidade diariamente e explica por que a área precisa urgentemente de atenção do poder público.

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alisson david

O movimento caiu bastante, já não é mais como antes, quando passava muita gente na rua. Sentimos um baque grande até em janeiro e dezembro, que costumam ser meses fortes para as vendas. E, além de vender menos, a gente ainda sofre com a insegurança. Fechamos a loja às 19 horas e a falta de policiamento preocupa muito”, conta. O comerciário acrescenta que o clima de abandono no centro comercial se estende para as paradas de ônibus, que afeta diretamente quem precisa se deslocar de noite.

Ao cobrar medidas práticas do Estado, ele detalha os perigos do entorno. “Aqui está meio abandonado e tem muitas pessoas em situação de rua. Ali na Avenida Sandu, onde pego o ônibus, direto ouço relatos de mulheres sendo assaltadas. Com certeza as coisas mudariam se tivesse mais vigilância e viatura na rua. O governo tinha que olhar mais para as áreas comerciais, porque é aqui que a economia gira.”

O diagnóstico é partilhado pelo atendente José Pereira, que trabalha em um brechó local. Para ele, o aumento da população em situação de vulnerabilidade nas calçadas tem gerado impacto direto no faturamento e na rotina dos estabelecimentos sobreviventes. Com as portas fechadas e os pontos vazios, as calçadas viram moradias improvisadas, o que afasta a clientela.

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josé pereira

“Quase todos os dias a gente vê muitos moradores de rua por aqui. Alguns ficam até deitados na porta das lojas. Isso acaba afastando os clientes, que muitas vezes ficam com medo de entrar sem saber como vão ser abordados. Essa situação atrapalha bastante, seja loja, padaria ou qualquer outro estabelecimento. As pessoas ficam receosas de passar ou de entrar, porque não conhecem quem está ali.

Enquanto isso, várias lojas estão fechando, e esses espaços acabam sendo ocupados por quem fica na rua, dorme, acorda e permanece ali ao longo do dia”, destaca. Apesar das dificuldades, José afirma que a proprietária do brechó não cogita migrar para o atendimento online. Diante do cenário físico desafiador, ele também cobra ações do GDF para revitalizar a Comercial Norte, de modo que a região recupere o prestígio. “No momento, não cogitamos o mercado digital. Tanto eu quanto a proprietária fazemos questão da experiência tradicional, de ver o cliente vindo até a loja.

Moro em Taguatinga há 32 anos. Amo esta cidade, que sempre teve uma estrutura maravilhosa e um comércio de rua muito procurado. Ver a região nessa situação complicada dói. O GDF precisa intervir de verdade, tomar providências urgentes para revitalizar a nossa Comercial e trazer o movimento de volta”, finaliza.

A perspectiva dos frequentadores

Se quem vende sofre com a crise, quem compra ou circula pela região também sente os reflexos do abandono. A produtora rural Maria Aparecida Silva, de 56 anos, frequenta a Comercial Norte toda semana e testemunha de perto o declínio local. Para ela, a diferença na movimentação nos últimos anos é notória. “Antigamente, essa comercial tinha de tudo, mas hoje a realidade é outra. Muitas portas se fecharam e o comércio perdeu aquela força do passado. O fechamento em massa das lojas e a falta de segurança acabaram afastando o público de vez. As pessoas hoje têm medo de andar por aqui. O que falta de verdade, o ponto mais urgente para fazer a região voltar a respirar, é o policiamento e a segurança pública.”

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Essa percepção de esvaziamento também é visível do ponto de vista de quem cruza a avenida sobre quatro rodas. O motorista de aplicativo Anderson Fábio dos Santos, de 37 anos, dirige pela área diariamente e acompanha a crise de uma perspectiva diferente. Para ele, além do clima de abandono, o principal obstáculo para a sobrevivência dos lojistas é o desequilíbrio entre o faturamento e o custo imobiliário. “Trabalho nesta área há quatro anos e o meu termômetro é o vaivém das ruas. Dá para perceber claramente que o movimento das lojas despencou. Na minha visão, isso tem muito a ver com o custo para manter o negócio aberto. A economia e a inflação pesam para todo mundo, mas o preço dos aluguéis ali está sufocante. Muitos proprietários cobram valores fora da realidade”.

O posicionamento oficial

Procurada pela reportagem, a Administração Regional de Taguatinga informou que não tem um mapeamento com o número exato de estabelecimentos fechados. O administrador da região administrativa alega que o esvaziamento da avenida reflete uma mudança estrutural iniciada na pandemia, quando muitos lojistas trocaram as calçadas pelas vendas na internet.

“Nós percebemos que muita gente migrou para o comércio eletrônico. Hoje, vários desses comerciantes saíram da rua e montaram escritórios dentro de shoppings e centros empresariais, como o Taguatinga Shopping, o Brasília Trade Center e o JK Shopping. Eles viram que não precisam mais manter uma estrutura de porta aberta para o público. Além disso, houve um movimento natural de empresários que preferiram mudar o negócio físico para regiões vizinhas que cresceram muito, como Águas Claras, Vicente Pires e Samambaia”, afirma.

Como resposta ao problema, a Administração aposta em um projeto de política de ocupação que hoje tramita na Secretaria de Estado de Desenvolvimento Urbano e Habitação (Seduh). O plano foca na revitalização estrutural da Comercial Norte e Sul, além da Samdu Sul e Samdu Norte.

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