
Os impostos pagos pelos brasileiros estão entre os mais caros do mundo. E boa parte desse montante é destinada às despesas da área de saúde. Entretanto, a qualidade dos serviços passa longe de ser considerada razoável. Pelo contrário, o que se observa é uma batalha desleal entre pacientes e a rede pública de saúde. Os dados do relatório de atividades do GDF mostram a gravidade desse cenário. Em 2012, o número de reclamações à Ouvidoria da Saúde totalizou o exorbitante número de 28.624. Ou seja, uma média de 2.385 queixas por mês, 79 por dia, e três por hora.
Dentro do caótico sistema público de saúde, as reclamações mais comuns são a dificuldade para o agendamento de consulta, a falta de medicamento, problemas em vigilância sanitária, dificuldade para agendamento de exame, mau atendimento, dificuldade para o agendamento de cirurgia e falta de especialidade médica e de material hospitalar.
Para Jairo Bisol, promotor de Justiça de Defesa da Saúde (Prosus), o sistema público de saúde conta com dois graves entraves: “Os problemas mais graves não conseguem serem equacionados pelo GDF. O primeiro deles é o deficit de pessoal da rede pública. Outra questão é que o atendimento primário tem uma cobertura vergonhosa no GDF”, argumenta.
Segundo ele, para recompor o quadro de médicos é essencial que a carreira seja reformulada. “Não existe uma política séria de recuperação dos recursos humanos. Para recompor é preciso anunciar uma nova carreira”, destaca. Para promotor, a remuneração da classe não está adequada. “Há uma distorção no plano salarial. Os salários são incompatíveis no mercado”, diz. Na semana passada, o GDF concedeu reajuste de 66% aos médicos.
Depressão e abuso
A falta de medicamentos é uma das queixas mais recebidas pelo governo em relação à saúde, com 2.613 reclamações no ano passado. Não são raras as situações que vêm à tona relativas ao deficit nos estoques dos hospitais e farmácias públicas.
Célio Fortunato, 46 anos, sofre de uma doença mental e toma remédio controlado que é fornecido pelo Hospital São Vicente de Paulo. Mas todos os meses encontra dificuldade em obter o remédio. Ontem mesmo, um cartaz anunciava: “Não temos Haldol Decanoato”. A família precisa buscar o medicamento todo dia 5 do mês, mas até agora, nada.
O remédio custa caro: mais de R$ 100. O irmão de Célio, Geraldo Fortunato, conta que para comprá-lo na rede particular, precisa da receita assinada pela médica, que não foi encontrada por ele no hospital.
A dificuldade de Célio não é um caso isolado. Diagnosticada com depressão crônica há décadas, J.O., 44 anos, vem enfrentando problemas para garantir seu tratamento. “Eles me receitaram um antidepressivo, mas muitas vezes quando venho pegar, me avisam que não tem. Não tenho dinheiro para contar”, afirmou. Mas seus traumas vão além: “Em 1999, sofri abuso sexual por parte dos enfermeiros. Optei pelo silêncio”, contou.
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