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Mutirão entre vizinhos revive tradição centenária em cidade entre SP e Minas

Munidos com enxadas, pás, foices e muita disposição, moradores caminhavam por vários quilômetros para realizar os trabalhos pela vizinhança

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Reginaldo Pupo
São Bento do Sapucaí, SP

Sob a luz fraca de uma lamparina, na madrugada, o ainda jovem Benedito da Silva Santos e grupos de moradores do bairro se reuniam para visitar moradores da comunidade que passavam por alguma dificuldade.

Era mais um dos vários mutirões organizados pelos próprios moradores do bairro do Quilombo, em São Bento do Sapucaí (191 km de São Paulo), décadas atrás. Antes mesmo de o nascer do sol e munidos com enxadas, pás, foices e muita disposição, os moradores, muitos deles já idosos, caminhavam por vários quilômetros para realizar os trabalhos pela vizinhança.

Hoje com 75 anos, Santos, mais conhecido no Quilombo como “seo” Ditinho Joana, mantém essa tradição, que teve início há cerca de 200 anos, antes mesmo da fundação do município, que tem 188 anos. Naquela época, os mutirões ajudavam membros da comunidade que não tinham condições de pagar por serviços como roçada de terrenos ou até mesmo para construir suas casas, por exemplo.

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Há alguns meses, os moradores se reuniram para construir um banheiro para uma moradora, que precisava usar o da vizinha.

Um dos últimos moradores a serem beneficiados com os mutirões foi o produtor rural Carlos Silva Cruz, 37. A comunidade se reuniu para construir uma casa, já que Braisão, como é conhecido na comunidade, viu sua família crescer com a chegada do bebê Ravi Cruz, agora com três meses. Ele já tinha um filho de oito anos.

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“Eu morava com minha esposa e filho na casa da sogra desde 2015. Aproveitamos o espaço do quintal dela para construir a casa. Cada morador colaborou de alguma forma, cedendo materiais de construção e mão de obra. Erguemos a casa em um ano e meio. Todos os sábados, entre 10 a 15 pessoas vinham em casa para tocar a obra, até mesmo da vizinha Paraisópolis (MG). E muitos que vieram ajudar eu nem conhecia”, recorda-se.

Atualmente, os mutirões também ajudam a prefeitura local com a limpeza de valas, rios, desobstrução de galerias pluviais, corte de mato, retirada de barreiras e galhos de árvores que interrompem as estradas de acesso ao bairro após as chuvas.

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“Os mutirões sempre existiram, é algo cultural. Os moradores antigos se mobilizavam para ajudar o próximo sem querer nada em troca. E ainda fazem com orgulho. Por aqui, as pessoas que geralmente nem têm condições financeiras acabam ajudando quem mais precisa”, diz o morador Valdir Pereira Ramos Filho, 37, que faz parte da nova geração de moradores que mantém a tradição dos mutirões.

“Hoje os moradores antigos e os mais jovens sabem das limitações dos órgãos públicos e auxiliam a prefeitura nessa questão, que por sua vez, cede maquinários e equipamentos. É uma parceria entre os moradores e os órgãos públicos”, frisa Filho.

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“A cidade tem 300 quilômetros de estradas vicinais e os moradores do Quilombo acabam nos ajudando quando temos equipes trabalhando no outro extremo da cidade. Sempre que possível cedemos maquinários e operadores para ajudar nos serviços mais pesados”, afirma o prefeito Ronaldo Venâncio (PP).

Apesar da idade, Ditinho Joana, bastante respeitado no bairro, acompanha algumas dessas ações. Ele é, inclusive, o responsável por entoar uma canção, batizada de “canto do mutirão”.

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“Naquela época vários grupos se revezavam para cantar, como forma de incentivá-los ao trabalho. No final do dia, todos se juntavam para cantarmos juntos. Eu quis aprender a cantar, pois quem cantava, trabalhava menos com a enxada”, diz, rindo, Ditinho Joana, que já perdeu as contas de quantos moradores já ajudou nas últimas décadas.

Segundo Ditinho Joana, os mutirões eram bem disputados, pois muitos dos moradores esperavam ansiosamente pela hora do almoço. “As esposas faziam a comida e era a hora mais esperada. Cada um dava um frango e fazíamos a festa”.

Um fato curioso que ele se recorda, contado por seu avô, é que certa vez, os moradores construíram uma casa, desde o alicerce e, depois, derrubaram a casa novamente. “Só para terem o prazer de construí-la novamente. Os mutirões uniam as pessoas”, concluiu.

O final dos mutirões sempre acabava em festa. “Vinha gente de toda a vila, até mesmo quem não participava dos mutirões. Então, de um jeito que a pessoa não ficasse constrangida, iluminávamos o rosto dela e dizíamos: ‘que bom que você veio à festa, mas não lembramos da sua presença no mutirão’. Então ela colocava a mão no bolso e dava uma contribuição em dinheiro para a festa”, diverte-se Ditinho Joana.

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As informações são da FolhaPress




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