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Morte suspeita e surto de coronavírus preocupam famílias de presos em MG

O presídio de Manhumirim tem 46% dos 344 casos confirmados no sistema prisional de Minas Gerais até a última sexta-feira (10)

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Fernanda Canofre
Belo Horizonte, MG

Na manhã do último sábado (4), gritos de presos em uma das celas do presídio de Manhumirim (a 303 km de Belo Horizonte), na região da Zona da Mata, chamaram a atenção de agentes, que encontraram Lucas Morais da Trindade, 28, desmaiado.

Até o dia anterior, ele não havia apresentado sintomas da Covid-19, apesar do teste rápido com resultado positivo em 25 de junho. Lucas foi levado ao Hospital Padre Júlio Maria e morreu no mesmo dia, dois dias depois do seu aniversário. Ele não tinha histórico de outras doenças, nem fazia uso contínuo de medicamentos.

Apesar da certidão de óbito apontar como causa da morte “coronavírus”, a Sejusp (Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública) diz que o caso está em investigação devido à possibilidade de estar atrelado a suposta ação de outro detento.

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O presídio de Manhumirim tem 46% dos 344 casos confirmados no sistema prisional de Minas Gerais até a última sexta-feira (10) – 338 presos cumprem quarentena dentro de unidades prisionais, um está internado e cinco em regime domiciliar, com tornozeleira eletrônica. Foram confirmadas três mortes. Ao todo, o estado tem 60 mil custodiados.

Segundo a Defensoria Pública do estado, o presídio tem 212 presos – antes das concessões de prisão domiciliar, eram 344. A Sejusp informa que a unidade tem 193 vagas.

No fim de junho, quando a unidade tinha 43 casos confirmados, familiares protestaram pedindo informações sobre o estado de saúde dos presos e a liberação dos infectados. Nesta quinta, o número de confirmados chegou a 159. Com Lucas, 160.

A Sejusp afirma que todos os presos infectados em Manhumirim estão assintomáticos. Porém, a reportagem teve acesso à receita médica e à ficha de atendimento de outro detento que testou positivo para o coronavírus e relatou tosse seca e perda de olfato e paladar. O médico prescreveu azitromicina e paracetamol.

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A família descobriu que o homem de 28 anos, réu primário por crime de roubo, foi levado duas vezes ao Hospital Padre Júlio Maria. Após procurar a direção, eles receberam uma receita para que adquirissem uma parte dos remédios. A médica do hospital recomenda o uso de cloroquina 150 mg.

“É um sentimento de impotência, que a gente não vale nada”, diz a mãe, que pediu para não ser identificada. “[Depois da notícia da morte de Lucas], eu não dormi a noite inteira. E agora, o próximo corpo vai ser do meu filho? Eu não peço um hotel cinco estrelas, mas dignidade, segurança.”

A dona de casa Adélcia Correa vive a angústia pela falta de notícias de dois filhos presos em Minas – uma filha está em uma unidade em Timóteo e um filho, em Manhumirim. O jovem de 26 anos também teve resultado positivo no teste rápido. Ele está preso há sete meses por tráfico de drogas, esperando julgamento.

“A gente não sabe se ele teve sintomas ou não, porque a gente não teve acesso a ele, nem visitas, nem nada. Quando a gente liga no presídio, a resposta é que está tudo bem, mas tem relatos de que tem presos sendo levados a hospitais. A gente não sabe o que está acontecendo lá dentro”, diz ela.

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A secretaria diz que os presos que tiveram resultado positivo para o Sars-CoV-2 estão isolados, que os demais detentos e servidores usam máscaras e que as unidades prisionais devem informar às famílias sobre o estado de saúde deles, a partir da autorização do detento.

A pasta diz ainda que não procede a informação de que tenha sido solicitada à família de um preso a compra de cloroquina mas que, caso desejem, familiares podem enviar espontaneamente medicamentos aos presos.

Morte sob investigação Lucas aguardava o julgamento de uma apelação para o próximo dia 28, depois de ter três habeas corpus negados. Preso em novembro de 2018, ele foi condenado a cinco anos e 10 meses, em primeira instância, depois que um adolescente disse ter comprado dele uma bucha de maconha por R$ 10. Em depoimento, Lucas negou que os dois se conhecessem e que fosse traficante.

Sem contato com o pai e tendo perdido a mãe cedo, ele foi criado por uma tia e pela avó materna em Espera Feliz (a 47 km de Manhumirim). A tia, que pediu para não ter o nome revelado, disse à reportagem que a última vez que falou com o sobrinho foi em maio, por telefone.

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Lucas trabalhava em um armazém de café e tinha dois filhos pequenos. Os meninos tinham dois e quatro anos na época que ele foi preso.

“Ele era um menino bom, era um menino trabalhador. Só tinha o defeito de usar essa porcaria de droga. E pobre. Pobre sempre sofre as consequências”, diz a tia. “A gente não pode ver ele, não pode fazer velório, não pode ver o enterro. É muito triste.”

Em um um áudio que começou a circular em grupos de WhatsApp, o advogado Felipe de Oliveira Peixoto fala emocionado sobre ter recebido a notícia da morte de Lucas, a quem representava, e lembra que ele foi preso com menos de 10 gramas de maconha.

“Para mim, é uma espécie de pena de morte. Você coloca uma pessoa presa, que deveria estar sob cuidados do estado, e tem um vírus mortal ali. Não tem como se esquivar, não é disponibilizado equipamento de segurança”, disse.

As informações são da Folhapress


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