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Morre de Covid liderança quilombola do Rio

Tia Uia, neta de ex-escravizada, foi internada na madrugada de terça (9), com Covid-19, mas não resistiu. Morreu na quarta-feira (10)

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Foto: divulgação/Ricardo Alvez
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Adriano Maneo
Rio de Janeiro, RJ

Quando um griô de uma comunidade tradicional morre, é como se uma biblioteca queimasse por inteiro e viesse abaixo. O termo griô vem da África Ocidental e se refere aos indivíduos que na tradição oral preservam e transmitem a memória, as histórias, as canções, mitos e outros elementos que definem a cultura de um povo, geralmente de descendência africana ou indígena.

No Quilombo da Rasa, em Búzios (RJ), uma dessas bibliotecas vivas morreu por Covid-19. Carivaldina de Oliveira Costa, 78, a Tia Uia, neta de ex-escravizada, foi internada na madrugada de terça (9), com Covid-19, mas não resistiu. Morreu na quarta-feira (10), deixando um legado de resistência e orgulho pela sua história e de seus antepassados.

Ela foi a terceira pessoa quilombola da Rasa a morrer pelo novo coronavírus naquela semana. Segundo o presidente da Associação de Remanescentes do Quilombo da Rasa e técnico de enfermagem no posto de saúde, Adriano Gonçalves, 44, cerca de 30 pessoas da comunidade estão com suspeita de infecção pela Covid-19. Cerca de 420 famílias vivem no quilombo.

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Segundo o Observatório Quilombos sem Covid, há no Brasil 619 casos confirmados e 77 mortes em comunidades quilombolas. Outros 190 casos estão sendo monitorados.

O Quilombo da Rasa já foi reconhecido pela Fundação Palmares e está em fase de contestação no longo processo de titulação pelo governo federal. Tia Uia teve participação importante no estudo inicial de reconhecimento e identificação do território.

“Ela brigou até os últimos dias, mas sempre com um sorriso enorme no rosto e as portas abertas para quem fosse”, lembra Gonçalves. “Estava sempre nas reuniões, nas viagens para Brasília.”

Os antepassados da Rasa eram pessoas de Angola escravizadas e trazidas para trabalhar na Fazenda Campos Novos. Após a abolição da escravidão, elas se estabeleceram nas terras onde se situa hoje o bairro da Rasa.

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Uia e seu irmão Valmir conheciam bem essa história e fundaram juntos a associação do quilombo, presidida inicialmente por ela, que passou a liderar a luta contra empreendimentos turísticos de grande porte e a especulação imobiliária no território quilombola. Procurado pela reportagem, Valmir não pôde falar. Também estava internado com o novo coronavírus.

Sobrinha de Tia Uia, a professora Gessiane Nazário, 33, reforça que a matriarca era um contraponto à “história irreal contada pelo turismo de Búzios”, que segundo ela, estigmatiza “os quilombolas da Rasa”.

“Ela me ensinou muito sobre a história da minha família, que estava esquecida. Foi minha mentora no movimento quilombola e falava da importância de eu afirmar minha identidade”, lembra. “Ela entendia a o valor da perpetuação de nossa ancestralidade e fazia questão de me ensinar músicas de antigamente.

Eram músicas que os descendentes de escravizados cantavam nas roças, nos anos 40, 50. Ela dizia ‘aprende para ensinar às crianças'”.

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Tia Uia deixa seis filhos, oito irmãos e a mãe, Dona Eva, de 110 anos.

As informações são da FolhaPress


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