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Isolamento na pandemia tem brigas familiares e fiscais de quarentena

Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), afirma que os chamados “fiscais da quarentena” podem ser vistos como uma espécie de carolas

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Isabella Menon
São Paulo, SP

“A pandemia já acabou, não está vendo?” foi o que Larissa Araújo ouviu quando se recusou a almoçar na casa de uma amiga da família. Ela, que é estudante de jornalismo em Recife e ajuda a mãe em um comércio de rua, conta que sua família é tachada de louca no bairro por ainda seguir recomendações de isolamento social.

Pessoas próximas a elas também dizem que o medo do coronavírus que seus familiares sentem é fruto de “falta de fé em Deus”.

Para trabalhar, ela precisa sair de casa, mas diz que não abusa da sorte como os vizinhos, que têm feito festas de pagode, churrasco e até arraial.

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“Parece que onde eu vivo só eu e minha família estamos nos resguardando”, diz. Ela estima que ela e mãe nunca venderam tanta cerveja.

A reportagem ouviu relatos de quem se envolveu em discussões com familiares ou amigos por discordâncias em relação ao isolamento social, tanto entre aqueles que estão isolados, como Larissa, quanto entre os começaram a flexibilizar a quarentena.

Larissa diz não entrar em discussão com quem discorda de suas opiniões, assim como Wigvan Pereira, 30, que mora em São Paulo e decidiu passar a quarentena com sua família.

Ele faz parte de de grupo de risco para a Covid-19 e está na fazenda dos seus pais em Uruaçu, no interior de Goiás. O problema, no caso, mora ao lado: seus tios são vizinhos dos pais e costumam ir ao centro da cidade várias vezes durante a semana e não são muito cuidadosos. Também fazem festas e reuniões familiares.

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“Eu penso que a dificuldade das pessoas é entender que qualquer pessoa pode se contaminar. Parece que acham que se você ama a pessoa ela estará imune”, diz Wigvan. “A pandemia serviu para revelar o egoísmo entre as pessoas, que colocam o prazer imediato à frente do bem coletivo.”

Ele também pondera que, na zona rural, a sociabilidade é diferente, e encontrar os parentes mais próximos acaba sendo necessário às vezes.

“Não entro em atritos porque a situação já está desgastante o suficiente. Não conseguiria lidar com mais um peso”, diz ele, que vê um componente político nas discussões sobre a pandemia. “Quanto mais adeptos ao presidente, mais negacionistas elas parecem ser.”

A estudante de medicina Jade, 20 (que prefere não divulgar o sobrenome para evitar mais brigas), também passou a quarentena em família. Em São José do Rio Preto (SP), onde mora, ela usou o isolamento como uma oportunidade para aproximar sua família e a de seu namorado, e foram todos para um sítio. “Pensamos que não ia durar tanto tempo e queríamos usar o período para unir os familiares”, conta.

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A viagem começou em março. Tudo ia às mil maravilhas até que a tia do namorado começou a criar intrigas. “Ela dizia que coronavírus não existia, mas achava um absurdo a gente pedir comida em restaurante. Sempre ouvíamos ‘vai saber se não cuspiram na sua comida'”, diz.

Em meados de junho, elas brigaram e a quarentena em família acabou. “Desde então não nos falamos mais. Agora a tia está tentando convencer os familiares a tomarem vermífugo [ivermectina, droga ainda em testes contra o coronavírus].”

As brigas também fizeram parte da quarentena da estudante de psicologia Nadia Kfouri, 19, cujo avô morreu de Covid-19. “Passei três meses em casa, fiquei sem vê-lo e ele morreu”, conta.

Depois de tanto tempo em isolamento, notou uma piora na ansiedade e passou a andar de bicicleta e encontrar alguns amigos, mas acabou brigando com um deles por motivos políticos e sofreu bullying de pessoas próximas por furar a quarentena.

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Já Giovanna, 22, que também pediu para ter o sobrenome ocultado, conta que já brigou muito com aqueles que cobram dos outros isolamento social por meio das redes sociais.

“Penso que não dá pra colocar o pé na jaca, tem que ter cuidado, mas a vida tem que continuar e temos que nos readaptar”, diz. “Já briguei muito, mas pelo fato das pessoas fingirem não estar saindo e colocarem o dedo na cara dos outros. Se a pessoa não for pra academia, esteticista, cabeleireiro ou o que não for considerado ‘útil’, essas pessoas vão perder os empregos. E aí quem cuidará delas?”, questiona.

Christian Dunker, psicanalista e professor do Instituto de Psicologia da USP (Universidade de São Paulo), afirma que os chamados “fiscais da quarentena” podem ser vistos como uma espécie de carolas.

“Ao controlar o gozo do outro, a pessoa mantém a repressão sob si mesmo. Ou seja, na medida que eu critico, vigio, ao mesmo tempo, indiretamente, eu to me dizendo ‘olha o que eu não posso fazer'”, afirma.

Dunker acredita que a quarentena possa ser dividida em três fases. Na primeira, quando tudo era inédito e acima da nossa capacidade de entendimento. A segunda é quando a rotina passou a se tornar cansativa e repetitiva, com uma falta de variação de estímulos e sensação de prisão doméstica, em que o final de semana se emenda com a semana.

E, por fim, a terceira e atual fase, classificada como uma espécie de fadiga, em que os recursos acabam e muitos não aguentam mais e, por isso, há tantos atos de transgressão.

As informações são da FolhaPress




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