A cena é comum em consultórios ortopédicos brasileiros. Um paciente entre 55 e 65 anos chega relatando uma dor no joelho que começou há cinco, seis, às vezes dez anos. No início, doía só ao subir escada. Depois, ao levantar da cadeira. Agora, dói até parado.
A imagem do raio-X mostra o que o exame físico já indicava: a cartilagem está desgastada, o espaço articular reduzido, e a dor que o paciente vinha “aguentando” há quase uma década é, na verdade, uma doença crônica em estágio avançado.
Essa demora tem nome técnico. Os reumatologistas e ortopedistas chamam de diagnóstico tardio, e ele é hoje o principal obstáculo ao tratamento da artrose de joelho no Brasil.
Segundo o Ministério da Saúde, cerca de 30 milhões de brasileiros convivem com a doença, número que tende a crescer junto com o envelhecimento da população e o avanço da obesidade.
A Organização Mundial da Saúde estima que entre 60% e 80% das pessoas acima dos 60 anos já apresentam algum grau de degeneração articular, e o joelho é uma das articulações mais afetadas.
Em Brasília, o cenário acompanha a tendência nacional, mas tem um agravante demográfico. Levantamento citado pelo governo do Distrito Federal aponta que o número de moradores com mais de 65 anos deve dobrar entre 2015 e 2030, e que os idosos serão 25% da população da capital até 2050.
A pressão sobre serviços ortopédicos e de reabilitação tende a se intensificar nos próximos anos, e o ponto crítico continua sendo o mesmo: chegar cedo ao especialista.
Por que tantos pacientes esperam anos para tratar
A artrose, também chamada de osteoartrite ou gonartrose quando atinge o joelho, é uma doença degenerativa em que a cartilagem que reveste as extremidades dos ossos se desgasta progressivamente.
Em estágios avançados, há contato direto entre as superfícies ósseas, deformidade do membro e dor incapacitante. O processo é, em geral, lento. E é exatamente essa progressão silenciosa que faz tantos pacientes ignorarem os primeiros sinais.
A dor inicial costuma aparecer em situações específicas. Subir e descer escadas, agachar para pegar um objeto no chão, ficar muito tempo em pé. O paciente reduz essas atividades, sente alívio, e atribui o desconforto ao “cansaço da idade” ou ao “joelho ruim de família”. Quando a dor passa a ser constante, a doença já costuma estar em grau moderado a grave.
Pesquisas nacionais reforçam o quanto o problema é subdimensionado. Dados da Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia mostram que cerca de 10% da população entre 30 e 50 anos já apresenta algum grau de artrose, geralmente associado a traumas antigos, sobrecarga esportiva ou excesso de peso.
Segundo Dr. Ulbiramar Correia, médico de joelho que atende em Goiânia, não se trata, portanto, de uma doença exclusiva da terceira idade, embora o envelhecimento concentre os casos sintomáticos.
Estudos com idosos brasileiros mostram ainda que mulheres são mais afetadas do que homens, com prevalência sintomática de cerca de 18% entre as acima de 60 anos contra 10% entre os homens da mesma faixa.
O peso real do sobrepeso na articulação
Um dos dados que mais surpreende pacientes diz respeito à carga mecânica que o joelho suporta. Cada quilo extra de peso corporal representa, em movimento, cerca de quatro quilos de carga adicional sobre a articulação.
Isso significa que perder cinco quilos pode reduzir em vinte quilos a sobrecarga sobre o joelho a cada passo. Em uma caminhada de meia hora, a diferença é considerável.
O cruzamento entre obesidade e artrose tem sido objeto de estudo recorrente nos últimos anos. Pesquisas brasileiras associam diretamente a osteoartrite de joelho a componentes da síndrome metabólica, sugerindo que a doença não é apenas mecânica, mas também inflamatória.
A descoberta tem implicações práticas: controle de peso, atividade física orientada e ajuste alimentar passaram a integrar, na maioria dos protocolos, a primeira linha de tratamento, antes mesmo de qualquer medicação contínua.
Quando o tratamento clínico ainda funciona
Existe uma janela em que a artrose responde bem a medidas conservadoras. Nessa fase, a cartilagem está desgastada, mas ainda preservada o suficiente para permitir um plano de cuidado sem cirurgia.
Fortalecimento muscular do quadríceps, perda de peso, fisioterapia, ajuste de impacto nas atividades diárias e, em alguns casos, infiltrações específicas conseguem controlar a dor e adiar significativamente a progressão da doença.
O problema é que essa janela tem prazo. Quando o paciente demora a procurar um médico que cuida de artrose no joelho, as opções vão sendo descartadas uma a uma. A cartilagem que poderia ser preservada com seis meses de fisioterapia bem orientada, dois anos depois pode estar irrecuperável.
A diferença entre um tratamento clínico bem-sucedido e uma indicação cirúrgica costuma ser, em larga medida, o tempo entre o início dos sintomas e a primeira consulta especializada.
A avaliação inicial geralmente inclui exame físico detalhado, radiografias com carga (em pé) nas posições de frente, perfil e axial, e, em alguns casos, ressonância magnética para identificar lesões associadas em meniscos e ligamentos.
A classificação radiográfica, baseada em escalas como a de Ahlbäck ou Kellgren-Lawrence, ajuda a definir o grau da doença e o protocolo terapêutico mais adequado.
Como avaliar o profissional certo
A escolha do ortopedista faz diferença concreta no resultado. Joelho é uma articulação complexa, com cartilagem, ligamentos, meniscos, sinóvia e estruturas ósseas funcionando de forma integrada, e o tratamento da artrose envolve decisões que vão de fisioterapia e infiltração até osteotomias e artroplastias. Cada uma dessas opções exige experiência específica.
Alguns critérios ajudam a orientar a escolha. Formação reconhecida pela Sociedade Brasileira de Ortopedia e Traumatologia, registro com Registro de Qualificação de Especialista, vínculo com hospitais ou serviços que atendem volume relevante de casos e disponibilidade para discutir abertamente todas as opções terapêuticas, e não apenas a cirurgia, são marcadores importantes.
Em quadros mais delicados, vale pesquisar clínicas especialistas em joelho que ofereçam equipe multidisciplinar, com fisioterapeutas, médicos do esporte e nutricionistas atuando junto.
A segunda opinião também tem peso. Quando há indicação cirúrgica, especialmente para artroplastia total, é razoável que o paciente busque uma segunda avaliação antes de decidir.
Não se trata de desconfiança do primeiro profissional, e sim de uma prática editorialmente reconhecida pela própria comunidade médica para casos eletivos de maior porte.
A cirurgia como recurso, não como regra
Quando o tratamento conservador não é mais suficiente, a artroplastia entra como recurso terapêutico para casos graves. O procedimento consiste na substituição parcial ou total da articulação por uma prótese e tem mostrado bons índices de durabilidade.
Estimativas atuais indicam que cerca de 90% das próteses de joelho duram 20 anos ou mais, com índices de satisfação elevados em pacientes bem indicados e bem reabilitados.
Os números do SUS confirmam o crescimento da demanda. Dados do Sistema de Informações Hospitalares do Ministério da Saúde mostram que as artroplastias de joelho cresceram 52% no pós-pandemia, e a região Sudeste concentra mais da metade das internações por artrose no Brasil.
O Distrito Federal e o Centro-Oeste seguem a curva ascendente, refletindo o envelhecimento populacional e a ampliação do acesso a procedimentos de média e alta complexidade.
Ainda assim, a cirurgia é o último recurso. Boa parte dos pacientes que chegam à indicação cirúrgica poderia ter mantido a articulação por mais tempo se tivessem iniciado um plano clínico estruturado nos primeiros sinais da doença. É aí que a prevenção e o diagnóstico precoce mudam o jogo.
O papel da atividade física na prevenção
Há um equívoco frequente entre pacientes com artrose inicial: o de que parar de se exercitar protege a articulação. Acontece o contrário. Sedentarismo enfraquece o quadríceps, principal músculo estabilizador do joelho, e acelera a progressão da doença. O que preserva a articulação não é a ausência de movimento, e sim o movimento adequado.
Caminhada em ritmo moderado, hidroginástica, bicicleta com carga ajustada, musculação orientada e exercícios de fortalecimento excêntrico de quadríceps são modalidades que costumam aparecer nas recomendações de ortopedistas e fisioterapeutas para pacientes com artrose leve a moderada.
Esportes de impacto repetitivo, como corrida em asfalto e modalidades com saltos, exigem avaliação caso a caso. Para quem está retomando os treinos depois de uma lesão antiga ou de muito tempo parado, vale consultar orientações sobre como praticar atividades físicas com segurança antes de definir o programa.
A pré-participação esportiva, ainda pouco difundida no Brasil, é uma medida simples e útil. Trata-se de uma consulta com avaliação ortopédica e cardiovascular antes do início ou retomada de uma rotina de exercícios. Identifica desequilíbrios musculares, problemas articulares preexistentes e fatores de risco que, corrigidos, evitam lesões e protegem o joelho a médio prazo.
O que muda quando o paciente chega cedo
A diferença entre um quadro de artrose tratado precocemente e um quadro avançado não está apenas no tipo de procedimento utilizado. Está na qualidade de vida do paciente nos dez ou vinte anos seguintes.
“Quem chega ao especialista nos primeiros sintomas tem mais chances de manter as atividades cotidianas sem dor, preservar a articulação por mais tempo e, eventualmente, evitar a cirurgia”, evidencia os médicos especialistas do COE, centro ortopédico de referência em Goiânia.
A regra prática é simples. Dor no joelho que persiste por mais de três a quatro semanas, mesmo que de baixa intensidade, merece avaliação. Estalos frequentes acompanhados de desconforto, sensação de rigidez ao acordar, inchaço recorrente e perda de força no membro são sinais que não devem ser ignorados, principalmente em pessoas acima dos 40 anos, atletas amadores, pacientes com sobrepeso ou histórico familiar de artrose.
A artrose ainda é considerada uma doença incurável, no sentido de que a cartilagem desgastada não se regenera plenamente. Mas é hoje uma doença controlável, com protocolos bem estabelecidos e tecnologia cirúrgica madura para os casos em que ela se torna necessária.
O que falta, na maioria dos casos brasileiros, não é tratamento. É tempo. E tempo, no joelho, é exatamente o que se perde quando o diagnóstico chega tarde.