O mercado de vinhos vive um momento de transformação, no qual tradição e inovação dividem espaço na estratégia das marcas. Esse movimento esteve presente na ProWine São Paulo 2026, que reuniu produtores, importadores, distribuidores e profissionais do setor em torno de oportunidades comerciais e novas tendências de consumo. Durante a cobertura para a Coluna Sucesso, do Jornal de Brasília, conversamos com representantes da organização, da produção brasileira, da enologia internacional e da comunicação especializada para entender os rumos desse mercado.
Segundo João Vita, um dos organizadores do evento, a feira chegou à sua sétima edição em São Paulo, após iniciar sua trajetória em 2018, ainda sob o nome Provino. A iniciativa foi idealizada por Malu Sevieri, a partir da percepção de uma oportunidade no mercado brasileiro. Com a licença da marca internacional ProWein, o evento ampliou sua presença e, nesta edição, ganhou um segundo pavilhão, impulsionado pela participação expressiva de produtores europeus.
Para Vita, o Brasil ocupa uma posição cada vez mais relevante no radar internacional. Enquanto mudanças no estilo de vida impactam o consumo de vinho nos mercados europeus, os produtores buscam novas oportunidades no país. A expansão da feira acompanha esse movimento.
Outro diferencial, segundo o organizador, está no perfil do público. Com foco estritamente B2B, a ProWine procura aproximar expositores de compradores qualificados, como importadores, distribuidores, proprietários de estabelecimentos, sommeliers e outros profissionais do setor. No segundo dia do evento, Vita relatou que a visitação já superava em 35% o total registrado no ano anterior e destacou também a qualidade dos visitantes.
A produção brasileira ganha espaço
Se a presença internacional amplia as possibilidades de negócios, a produção nacional também busca conquistar novos mercados. O Vale do São Francisco, no Nordeste brasileiro, esteve representado por empresas que levam os vinhos e espumantes de Petrolina a diferentes públicos.
Evandro Giacobbo, diretor comercial da Verano Brasil, apresentou os produtos das marcas Rio Valley e Garziera e destacou a oportunidade de mostrar a produção da região ao mercado internacional. A participação reforça a presença de uma vitivinicultura brasileira que se desenvolve em condições climáticas particulares e constrói sua própria identidade.
Na mesma direção, Francisco Echeverria, da Pater Dominus, ressaltou a qualidade dos produtos do Vale do São Francisco e a atuação da empresa na comercialização desses rótulos em Brasília. Para ele, a feira representa uma oportunidade de levar os vinhos e espumantes nordestinos a novos compradores e ampliar sua presença no mercado.
A presença dessas empresas ajuda a colocar em perspectiva uma questão importante: o crescimento do setor brasileiro não depende apenas da entrada de rótulos estrangeiros, mas também da capacidade dos produtores nacionais de conquistar distribuição, reconhecimento e espaço nas escolhas dos consumidores.
Casa Perini explora uma nova categoria
Entre as novidades da feira, a Casa Perini apresentou a Fit Bubbles, linha de bebidas sem álcool desenvolvida a partir de uma base de chá verde e infusões de frutas. Em conversa com a Coluna Sucesso, Pablo Perini explicou que o projeto levou sete anos de pesquisa e chega ao mercado em três versões: lichia, pera e morango branco.
Segundo Pablo, a linha é zero álcool, zero calorias, zero carboidratos e sem glúten. A proposta é oferecer uma experiência sensorial própria, com borbulhas finas e serviço em taça de espumante. O executivo também destacou o uso de uma carbonatadora especial no desenvolvimento do produto.
A Fit Bubbles não é um vinho desalcoolizado, mas uma nova categoria no portfólio da empresa. A distinção é importante para compreender a estratégia: em vez de reproduzir o vinho sem álcool, a marca explora outra base de ingredientes e amplia as possibilidades de consumo.
O lançamento aponta para uma transformação que merece atenção: as empresas do setor podem buscar crescimento não apenas disputando consumidores entre diferentes rótulos, mas também participando de novas ocasiões de celebração e convivência. Nesse contexto, a inovação passa pela criação de experiências que dialoguem com públicos e preferências distintos.
O vinho também disputa espaço na comunicação
Outra frente de transformação está nos canais utilizados para aproximar o público da cultura do vinho. Renato Vincoletto, CEO e fundador do SommCast TV, contou que o projeto começou como um podcast e evoluiu para uma plataforma de conteúdo audiovisual sobre vinhos e enogastronomia.
Segundo Renato, durante a ProWine a equipe gravou mais de vinte episódios e promoveu o lançamento oficial de seu aplicativo de streaming, disponível também para celulares e televisores. O conteúdo, que já podia ser acompanhado pelo YouTube e pelo Spotify, ganha assim um novo canal de distribuição.
A iniciativa acompanha uma mudança na maneira como o conhecimento sobre vinhos circula. Além da experiência presencial em feiras, restaurantes e degustações, as plataformas especializadas podem ampliar o acesso a informações sobre produtores, regiões, uvas e harmonizações.
A comunicação também foi um dos temas levantados pelo enólogo argentino Marcelo Pelleriti, que participou de uma degustação guiada de seus vinhos durante o evento. Com atuação internacional, Pelleriti destacou a importância de profissionais capazes de transmitir a história e o trabalho de quem produz.
“Necessitamos gente com muito coração e muita paixão para comunicar o trabalho de muita gente e de muitos produtores que lutam todos os dias”, afirmou, em tradução livre de sua declaração em espanhol.
O enólogo também falou sobre a presença de seus vinhos no Brasil por meio da importadora Del Maipo, que atua em São Paulo, Brasília e outros mercados. Para ele, ainda há espaço para ampliar a distribuição no país, cuja dimensão representa uma oportunidade de longo prazo.
Entre tradição e novos caminhos
A cobertura da ProWine São Paulo 2026 mostra um setor que se movimenta em diferentes direções. De um lado, produtores internacionais buscam ampliar sua presença no Brasil; de outro, empresas nacionais procuram fortalecer a distribuição e a visibilidade de seus rótulos. Ao mesmo tempo, novas categorias de bebidas e plataformas de conteúdo ampliam as possibilidades de relacionamento com o consumidor.
Mais do que acompanhar lançamentos, compreender essas mudanças exige observar como negócios, cultura e experiência se conectam. O futuro do mercado não será definido apenas pelo que chega à taça, mas também pela capacidade de produtores e marcas de construir relações duradouras com quem consome, comercializa e comunica o vinho.