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Sem Firula

Fim

Não há como negar: Eurico Miranda era um homem de extremos.

Para o bem e para o mal.

Contra ou a seu favor.

Dirigente vascaíno por meio século, chegando à presidência do clube e mantendo um poder poucas vezes questionado, Eurico Miranda morreu nesta terça-feira e, como de hábito, provocou reações extremas.

Até mesmo quem teve profundas desavenças com o dirigente manifestou-se. E não foi para criticar.

Quando era vice-presidente de Futebol, na gestão Antônio Soares Calçada, decidiu que deveria transformar o Vasco no grande rival do Flamengo, já então disparado o time de maior torcida do Rio de Janeiro.

Eurico Miranda já previa, há uns bons 30 anos, que dificilmente a cidade comportaria quatro grandes times (na época, eram cinco, incluindo o América).

E passou a bater forte no rival tricolor.

Por coincidência, ou não, foi a partir de sua gestão que o Vasco, até então freguês do Fluminense, virou o jogo.

Eurico chegava a dizer que não pagaria bicho em caso de vitória de seu time sobre a equipe das Laranjeiras.

“Obrigação”, cansou de dizer.

Foi Eurico, porém, o primeiro dirigente a brigar para que o Fluminense não fosse rebaixado, em 1996, alegando que “time grande não poderia cair”.

Talvez porque soubesse dos esquemas, mais tarde revelados, que provocaram aquela queda.

Ou, quem sabe, antevendo que seria ele, direta ou indiretamente, responsável por três quedas de seu Vasco.

Com um patrocínio até hoje pouco explicado, decidiu, antes dos Jogos Olímpicos de Sidney, em 2000, estruturar o departamento de esportes olímpicos do Vasco.

Dizia, com orgulho, que o Vasco tinha mais atletas na Austrália que vários países. Verdade.

Muitos deles, porém, saíram sem receber, frustrando aquele que parecia ser um projeto olímpico com reais condições de dar certo.

Sua atuação mais destacada sempre foi nos bastidores.

Conseguiu na Conmebol reconhecer o Sul-Americano de 1948 como um equivalente à Libertadores.

Conquistou, como presidente, uma Libertadores, mas frustrou-se ao perder ao Mundial de 2000, no Maracanã, para o Corinthians – em outra manobra de bastidor, conseguiu que o Vasco fosse convidado para o torneio.

Quando Roberto Dinamite estava voltando do Barcelona, atravessou a negociação entre o jogador e o Flamengo afirmando que um ídolo vascaíno jamais poderia jogar no rival.

Acabou, anos mais tarde, derrotado por Roberto nas urnas e, quando deu o troco, chegou a proibir o artilheiro de frequentar o clube.

Nos últimos anos, já afetado pela doença que o vitimou, passou a ser mais uma sombra no poder do que um corpo presente.

Mesmo assim, virou o jogo nas últimas eleições, numa manobra que levou o atual presidente ao cargo e o deixou como presidente do Conselho de Beneméritos.

Com o colunista, algumas situações curiosas.

Citarei apenas uma delas, que pouco tem a ver com o futebol.

Em 1998, a Unidos da Tijuca decidiu homenagear o Vasco em seu centenário fazendo do clube seu enredo – o presidente da escola de samba, português, é vascaíno e chegou a ser, anos depois, vice-presidente de Eurico Miranda.

Na escolha do samba-enredo, Eurico escolheu a composição que desejava. Critiquei, pois não era o melhor samba.

No desfile, a escola acabou rebaixada e ele, que acompanhava a apuração, virou-se para mim e falou “vou embora… aqui não mando nada”.

Detalhe: até hoje o samba é cantado pela torcida nos estádios.

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