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Quinto Ato

Fomos traídos pelas estrelas

Por Theófilo Silva 18/05/2021 7h38
Fomos traídos pelas estrelas

Foi num baile de máscaras, na casa do senhor Capuleto, em Verona, que Romeu avistou Julieta pela primeira vez, dando início a mais bela história de amor de todos os tempos. Num relance em que Julieta afasta a máscara por um momento, enquanto dançava, Romeu dispara “Por acaso meu coração amou até agora? Jurai que não, meus olhos, pois até agora não havia conhecido a verdadeira beleza”.

Trouxe de volta a história dos dois adolescentes que nos encanta há mais de quatro séculos, para falar de amor, de namoro, de juventude, nos tempos de peste. Quase ninguém sabe, ou observou que a tragédia de Romeu e Julieta só ocorreu porque Frei João, o frade encarregado de entregar a carta de Frei Lourenço para Romeu, foi proibido de sair de casa pela polícia por causa de um surto de peste bubônica na cidade. Assim, a missiva não chegou às mãos de Romeu. A carta dizia que Julieta tinha tomado um sonífero, que lhe dava a aparência de morta, com o intuito de driblar seus pais, que eram contrários ao casamento dos dois. Daí que a tragédia..

Fico me perguntando como estão se sentindo os jovens, e até mesmo os já adultos que não podem mais ver-se livremente, contemplar, admirar os rostos, a cara, as faces, se aproximar, conversar, paquerar, nesse momento de isolamento social, em que quase todos nós, digo os lúcidos e responsáveis, não podem brincar, estudar, viajar, trabalhar, trocar ideias, praticar esportes coletivos, festejar… Tudo isso por conta da peste do Coronavírus que veio para destruir nossa vida na Terra, as relações sociais, para dizer o mínimo, já que está nos matando aos milhões. No caso dos jovens, seja na escola, seja na universidade, as aulas presenciais estão suspensas, e tudo acontece a distância, de forma virtual, em telas de smartfones e computadores. Para os jovens, isso é gravíssimo, terrível mesmo, já que estão num período de formação da personalidade, de conhecimento do mundo, e essa lacuna deixará sequelas, trazendo enorme prejuízos àqueles que mais precisam de convívio social para se tornarem adultos saudáveis e produtivos.

Sei que já existem estudos sobre isso, e a imprensa está sempre trazendo matérias, pesquisas e entrevistas com jovens, e com especialistas discutindo e debatendo o tema. E tudo que tenho lido e ouvido é que se trata de uma questão muito séria. Parte considerável da juventude está em casa deprimida, cansada, até mesmo do Smartfone e redes sociais. Pois precisam de esportes, festas, e outros atrativos para se manter ativos. Já que vida é movimento! Serão dois anos de Pandemia e mais de 700 dias de flagelos diários. Pelo menos o será no Brasil, isso numa perspectiva otimista, supondo que em março de 2022 todos nós estejamos vacinados.

Já aqueles que ainda estão na infância, vamos dizer que têm até 12 anos, pelo menos, que são quase imunes ao vírus, sãos afetados pelo isolamento de seus pais, pela quebra da rotina e pelo estranhamento desse novo comportamento, que os obriga a usar máscara, um componente que veem como algo que é usado por bandidos em filmes. E assim, a vida se arrasta a passos lentos e dolorosos, coberta de luto, com perdas diárias de vidas e sofrimento em hospitais.
Portanto, nossa juventude está tendo um destino parecido com de Romeu e Julieta, o de “Um casal de namorados traídos pelas estrelas”. Nós fomos traídos pelos céus, por “uma pestilenta aglomeração de vapores”, como diz Hamlet! E só nos resta isolar, não aglomerar, lavar as mãos e vacinar… E esperar o tempo passar!

Mas como dói!

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