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Sobre a natureza humana

Tudo nos leva a crer que é impossível mudar o caráter dos homens, de mudarmos suas naturezas

Por Theófilo Silva 16/09/2021 3h41
Sobre a natureza humana

Em certo momento, Brutus pergunta para si mesmo: “O caso está em saber até que ponto possa modificar-lhe a natureza… Para dizer a, verdade nunca soube que as paixões de César dominassem mais que sua razão…”. Essa passagem se encontra na peça A Tragédia de Júlio César, e é dita pelo senador Marcus Junius Brutus, refletindo sobre a conspiração em curso para matar o poderoso Júlio César, que quer tornar-se ditador, pondo fim a República romana! Talvez Brutus não tenha pensado exatamente isso, mas Shakespeare pôs essas palavras em sua cabeça, e é sobre elas que vou dissertar agora. Pergunto: será que é possível mudar a natureza dos homens, mudar seu caráter, modificar-lhes a forma de agir e de pensar? Transformar alguém mau, louco, perverso num ser humano leal, generoso, equilibrado em suas ações?

E Brutus continua refletindo: “Todos nós nos levantamos contra o espírito de César e no espírito dos homens não existe sangue! Oh! Por que não podemos matar o espírito de César, sem desmembrarmos César!”. Ele está perguntando: será possível destruir, matar o pensamento de César, sua forma de agir, enfim, sua alma, sem desmembrar seu corpo, sem matá-lo? Ou seja, deixar que o homem Júlio César continue vivo, como grande general, historiador e estadista que é, matando a apenas a sua natureza interior? Será possível? E Brutus era uma espécie de filho dileto de César. No entanto, Brutus não queria que Roma virasse uma ditadura.

Tudo nos leva a crer que é impossível mudar o caráter dos homens, de mudarmos suas naturezas. Se nos debruçarmos sobre os grandes estudiosos da mente humana, como: Freud, Jung, Reich, Skinner e muitos outros, vemos que se trata de uma tarefa praticamente impossível, e que somente terapias longas podem fazer com que essas pessoas modifiquem ligeiramente sua forma de agir. Já a justiça, a dos homens, as leis, o poder judiciário pune aqueles que exorbitam, que quebram o pacto social, retirando-os do nosso convívio, prendendo-os, impedindo-os de viverem em sociedade.

Entre os mais de mil personagens de Shakespeare, diria que poucos deles conseguem alterar suas naturezas. Temos o caso de Iachimo, em Cimbelino, que não sendo exatamente um criminoso, mas um caluniador, se arrepende e repara o mal que fez a Imogene. O caso mais discutido em toda a obra de Shakespeare é o de Edmundo, filho ilegítimo, bastardo, do duque de Gloucester. Edmundo é um homem frio, incapaz de qualquer sentimento, que não seja sua ambição cega pelo poder. Ele leva várias pessoas que o amam a morte, e quando é confrontado pelo seu irmão em um duelo, já quase morrendo, diz: “Anseio por vida. Apesar de meu caráter, quero fazer algum bem…”. E conta sobre sua trama em curso para matar o Rei Lear e sua filha. Os estudiosos se dividem em suas opiniões, muitos acham que ele está apenas representando seu último papel. Já para Harold Bloom, Edmundo está realmente arrependido, embora faça isso às portas da morte. Eu diria que Shakespeare acreditava no ato de entreouvir-se, de conversar consigo mesmo, como forma de alterar nosso comportamento, tal é a quantidade de monólogos, os famosos solilóquios em suas peças. Mas daí a mudar nosso caráter…

Trouxe essa discussão porque nosso principal homem público, o presidente do Brasil, parece não mudar sua forma de ver o mundo, e alterar seu caráter oblíquo e tomar o caminho da sensatez na condução dos negócios da nação. O Brasil está mergulhado numa crise sem precedentes em todas as áreas. Hoje, a principal característica do Brasil é a instabilidade.

Mesmo Júlio César, um dos maiores generais e estadistas da história, fundador das bases do Império romano, errou muito movido por sua vaidade, e acabou tombando morto esfaqueado pelos seus colegas dentro do senado, murmurando: “Até tu, Brutus, meu filho!”. Sensatez, é disso que estamos precisando!

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