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Quanto pesa um coração

“Como seria o coração de um homem público, um governador, um presidente? Quanto pesaria o coração de nosso presidente Jair Bolsonaro? Se é que ele tem coração!”

Por Theófilo Silva 04/08/2022 8h00
Imagem ilustrativa

Os antigos egípcios, que acreditavam na vida após a morte, tinham por costume pesar o coração dos seus mortos. O coração era colocado num dos pratos da balança e, no outro, como contrapeso, era posto uma pena. O objetivo era saber o peso dos “pecados” que aquele indivíduo cometera em vida. Como eles aferiam isso, só os sacerdotes sabiam. O que nos interessa nessa história é a noção de achar que o comportamento de um ser humano, as boas ou más ações que praticara em vida, pudesse ficar marcado, registrado e alterar o peso real de seu coração. Essa atitude é de uma singularidade que merece ser observada com muito respeito pelos nossos contemporâneos.

Hoje sabemos que tudo pode estar registrado nas tramas neuronais do cérebro, a memória, depois que descobrimos que o coração não passa de um mero órgão de bombear sangue – muito embora dois terços da humanidade continuem acreditando que ele é o responsável por nossas emoções. Os poetas, músicos e romancistas preferem continuar falando do coração, nunca do cérebro.

A noção egípcia de culpa, o peso do coração no tribunal dos faraós e sua forma de julgar os homens — já que a vida continuava depois a morte, daí o tamanho de seus túmulos: as pirâmides — mexe com a nossa imaginação. Permite especular quem seriam aqueles cujas ações poderiam alterar o peso de seu coração, para mais ou para menos. É curioso imaginar como seria o coração de um eterno apaixonado. De Vinícius de Moraes, por exemplo! E o de Shakespeare?!

Podemos, assim, imaginar que ações poderiam deixar o coração mais pesado ou mais leve! Com certeza o coração de um perverso: um ladrão, um assassino, um traficante de drogas, um estuprador, uma mãe que abandonou o filho seriam muito pesados. E que o coração de alguém generoso, honrado, benemérito, pacificador seria bastante leve. Quantas toneladas pesariam o coração de Stalin, Hitler, Charles Manson e outros monstros? E como seria o coração de Jesus, Buda, Madre Teresa de Calcutá, Francisco de Assis? Flutuariam? Viria, pois, daí, a noção de alma?

Os egípcios, construtores de pirâmides, foram na altura do terceiro milênio antes de Cristo, o povo mais evoluído da humanidade. A construção da Grande Pirâmide de Quéops, sem a tecnologia que conhecemos hoje, desafia os estudiosos modernos. A perfeição e a complexidade de sua construção fizeram os homens acreditarem por quase cinco mil anos que ela fosse construída por divindades ou por extraterrestres. Uma grande bobagem. Portanto, suas preocupações com um “tribunal” dos mortos são muito sábias e devem ser respeitadas.

Agora, como seria o coração de um homem público? Dos discípulos de Maquiavel, Bismarck, Elizabeth I, Napoleão ou de um mero prefeito? Como seria o coração de um homem público, um governador, um presidente? Quanto pesaria o coração de nosso presidente Jair Bolsonaro? Se é que ele tem coração! Dois quilos, três quilos? Não seria interessante que o coração registrasse suas ações!

Trago essa história antiga, aparentemente tão estranha, até bárbara, para mostrar minha indignação diante de tanta injustiça no mundo. Injustiça, quase toda ela, causada pelos próprios homens. A pergunta é: quando haverá justiça no mundo? Seria maravilhoso que a tese dos egípcios fosse realidade. Seria bom que o coração aumentasse seu peso, e que o coração dos perversos pudesse explodir com seu peso, e que o dos bons flutuasse!

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Como sempre, Shakespeare me consola. Dois homens contemplam um poderoso profundamente angustiado, e murmuram: “Ele está com o coração pesado… Não queria ter um coração desses dentro de meu peito, nem por todo ouro de qualquer rei da cristandade”.

Eu também não!








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