Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Blogs e Colunas

O Profeta dos Algoritmos

Por Theófilo Silva 26/10/2021 3h56
O Profeta dos Algoritmos

Aldous Huxley pode ser chamado de profeta dos algoritmos, tal a precisão de suas previsões encontradas em sua obra Admirável Mundo Novo, escrita em 1932. Em uma das passagens mais argutas, Aldous Huxley diz que: “A ditadura científica do futuro ocorrerá em muitas partes do mundo, e será muito parecida com o padrão de Admirável Mundo Novo, do que o padrão de 1984, de George Orwell”. Diz ainda que as pessoas poderão concordar com o estado de servidão. E continua: “Isso fará parte de uma série de técnicas que a oligarquia controladora que sempre existiu e possivelmente sempre existirá, leve as pessoas a amarem sua servidão…”. Quanta verdade há nessas poucas palavras. Estamos vivendo sob a ditadura científica, a ditadura da tecnologia, dos algoritmos, da Internet, verdade contida nos Smartfones, esse apêndice que passou a ser usado pelas empresas de tecnologia para nos transformar em dependentes químicos e assim controlarem nossas vidas.

Sim, as pessoas estão amando sua servidão. Elas andam, comem, brincam, namoram, fazem amor, dormem, acordam com o belo “monstrinho” na mão, no ouvido, ou olhando para ele, acariciando-o com os dedos, como se fosse um filho amado ou alguém que elas não viam há muito tempo. E nesse aparelhinho que facilitou enormemente nossas vidas, também encontram veneno e substâncias tóxicas em forma de mentiras, de notícias falsas e de conteúdos que geram vícios tão cruéis quanto qualquer droga pesada. A quantidade de gente que tem adoecido por conta desse vício é enorme e tem preocupado os governos de todo o mundo.

Huxley viveu em um dos períodos mais difíceis da história da humanidade, durante as duas guerras mundiais, que provocaram uma catástrofe sem precedentes, incluindo o uso da bomba atômica, que gerou a perspectiva que o planeta poderia ser destruído. Seu livro foi escrito entre essas duas guerras. Huxley, oriundo de uma família de gênios, viraria uma celebridade após seu livro se tornar um “Best seller”. Ele morreu no auge da Guerra Fria, quando por muito pouco não ocorreu uma terceira guerra mundial, em 1961, durante a Crise dos Mísseis, entre EUA e União Soviética. Por isso que ele continuou afirmando em suas entrevistas que a ameaça da ditadura tecnológica permanecia.

Aldous Huxley era um apaixonado por Shakespeare, tanto que o título de seu livro Admirável Mundo Novo é uma passagem da peça A Tempestade, de autoria do bardo de Stratford. Não gostaria de colocar Shakespeare em contraposição a Huxley. Mas posso dizer que Shakespeare continua atualíssimo, mesmo após quatrocentos anos de sua morte. Tudo que ele disse sobre o ser humano é atual, premonitório, isso é unanimidade entre todos que o leem. É dito que nós não lemos Shakespeare, ele é que nos lê. Tenho certeza que Shakespeare não compartilharia da opinião que Huxley tem do futuro da humanidade. Foi por isso que o bardo Stratford colocou o ser humano como centro de sua obra. Shakespeare é otimista com a humanidade. Mesmo com todas as desgraças que nos atingiram e que ainda nos cercam, mesmo assim continuamos insistindo em transformar o mundo em lugar digno de se viver. Diria que Huxley estava certo quanto ao perigo que a tecnologia oferece, e dizer isso em 1932 foi uma premonição sobre o poder dos algoritmos, e é impressionante que ele tenha conseguido enxergar isso, quase um século atrás. A Internet e suas redes sociais são prova material do que ele disse. No entanto, não acho que a tecnologia vai acabar com o mundo.

Trago essa discussão com o objetivo de levar às pessoas, principalmente os mais jovens, a refletir sobre as preocupações de Aldous Huxley. A pergunta é: será que a tecnologia é controlada por uma minoria autoritária que está transformando os homens em meros robôs? Tudo leva a crer que sim. Fica aqui a minha indagação!








Você pode gostar