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Quinto Ato

Mas é tudo tão estranho!

Por Theófilo Silva 06/07/2021 1h00
Mas é tudo tão estranho!

João levou uma pancada na cabeça e entrou em coma, ficou inconsciente, e perdeu a memória em janeiro de 2020, e voltou à tona agora, em julho de 2021. Na primeira vez que saiu à rua e viu todo mundo mascarado, passando álcool nas mãos e evitando se aproximar dele, disse para si mesmo a sentença de Horácio, ao avistar o fantasma do rei Hamlet: “Mas é tudo tão estranho!”. Isso seria apenas o começo da estranheza que o cercou dali para frente.

Nunca as diferenças entre as pessoas ficaram tão evidentes. A peste desnudou a alma humana, transformando o homem em outro ser: se melhor ou pior do que era antes ainda não dá para saber. O mundo mudou, e nesse momento, mudou para pior, e essa mudança cruel atacou com muito mais força o ocidente: os EUA, a Europa, a América latina, e o nosso Brasil. O oriente avança, a China decolou e voa como um supersônico. A quantidade de mortes pela peste no país mais populoso do mundo é a metade da riquíssima Suíça, que tem uma população 160 vezes menor do que o gigante asiático. O Japão também ostenta cifras irrisórias de mortandade. Mesmo se formos falar da Índia, país onde impera a pobreza absoluta, que tem 400 mil mortos, os números, mesmo assim são pequenos. A crise é planetária, mas o ocidente é o mais atingido. Um novo mundo está se desenhando. E esse desenho não é favorável a nós.

João teve ainda muitas surpresas. Seu segundo susto foi ouvir uma voz gritando “Bota a máscara, idiota!”. Foi quando ele correu de volta para casa, ligou o computador e começou a ler as notícias. A primeira manchete dizia que a temperatura do Alaska, um dos lugares mais frios do planeta, chegou a 33 graus centígrados e que o calor provocou um terremoto nas geleiras. No Canadá a temperatura chegou a 49,6 graus, e que mais de 500 pessoas morreram de calor. Abriu outro site, e lá dizia que Amazônia teve, em 2020, nada menos que 103 mil focos de queimadas, um recorde.

E de repente ele começou a ver a repetição das palavras Covid e Coronavírus, seguidas das manchetes: “EUA apresentam mais de 600 mil mortes de Covid-19. Mundo apresenta quase 200 milhões de pessoas contaminadas pelo Coronavírus e 4 milhões de mortos. Brasil é hoje o centro da peste de Covid, com 19 milhões de casos e 526 mil mortos”. Em seguida falava-se de vacina, uso de máscaras e álcool gel como formas de combate a transmissão da doença. A outra palavra mais repetida foi pandemia, pandemia, pandemia… E vacina, seguida de AstraZeneca, Coronavac, Pfizer, Jansen, Covaxim… “Primeira dose, segunda dose, imunização. Veja sua faixa de idade. Procure um posto de saúde”. E assim, ele foi acordando de seu sono letárgico e percebendo o novo mundo ao seu redor, depois de tanto tempo inconsciente. Sim, ele disse para si mesmo, mais uma vez: “Estamos vivendo um período semelhante ao da Peste Negra, na idade média, ou da Gripe espanhola, no início do século XX”.

Quem achar que a peste do Coronavírus não está ligada as mudanças climáticas – e a gigantesca maioria da população pensa assim – “Pode tirar o cavalinho da chuva” –, isso para usar uma expressão popular que tem a ver as forças da natureza. As consequências de nossas escolhas chegaram. O planeta está cobrando a fatura, a forma de tratar o meio ambiente, gerou uma resposta do ecossistema as enormes agressões sofridas por ele. Trata-se de uma verdade incontestável. É a confirmação do que eu já disse aqui, repetindo Shakespeare: “A natureza, ela mesma se encontra flagelada…”. Se não tivermos consciência disso vamos sucumbir. Os sinais visíveis são um tapa na nossa cara.

Querem uma prova? Os bilionários americanos Elon Musk, Jeff Bezos e Richard Branson já montaram suas naves espaciais, e estão se preparando para abandonar o planeta Terra. E que Deus tenha piedade de nós! Pobre João!

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