Jornal de Brasília

Informação e Opinião

Quinto Ato

A crueldade está no ar

Por Theófilo Silva 27/04/2021 11h50
A crueldade está no ar

Peço emprestado o título da música “Love’s in the air”, O amor está no ar, do pop star australiano John Paul Young, belíssima canção, de 1978, sucesso até os dias de hoje, para fazer uma paródia, trocando a palavra mais bela e necessária da humanidade, Amor, pela sua oposta, Crueldade. Ah, sim, lembrando que essa canção deu nome a uma novela das Oito, O Amor está no ar, que virou jingle da Rede Globo. Quando digo que a crueldade está no ar, não estou me referindo apenas a praga invisível que inalamos ao respirarmos, e que está dizimando a humanidade, mas aos efeitos que ela está provocando nas mentes, na alma, nos corações das pessoas, dos brasileiros, em particular, tornando-os insensíveis e perversos, cruéis, na realidade.

Acessar os veículos de comunicação e, principalmente às redes sociais, esse fenômeno que expandiu a maldade a patamares quase medievais, é assistir a um filme de terror, daqueles que são vistos apenas por aqueles que padecem de insônia. E o pior é que esse horror, essa crueldade, é protagonizada não pelo povo, por gente comum, mas pelos poderosos, e por aqueles que são pagos, escolhidos pela sociedade para protegê-la, dirigi-la e dela cuidar. Por aqueles que exercem mandato popular, no executivo e legislativo. E todo esse horror é capitaneado por ninguém menos que um capitão que agora ocupa a presidência da República. Culpá-lo por todo esse círculo de horrores seria um exagero, mas é que ele tem sido o tocador, o animador principal, o Chacrinha ao contrário, do terror que nos circunda, nos aprisiona, nos maltrata, e assassina, transformando o Brasil num enorme campo de concentração. Jamais imaginei que enfrentaríamos uma desgraça na presidência pior do que o infame Collor de Mello, que confiscou a poupança do povo brasileiro, levando três mil pessoas ao suicídio em uma única semana.

Shakespeare sempre alertou para o perigo das massas populares, da multidão desenfreada que nada enxerga, seja em Coriolano, Júlio César e Henrique IV. O que elegeu Bolsonaro, esse ser, completamente despreparado e cruel, foram três fatores: o algoritmo, com suas redes sociais; as Fake News e uma facada que o transformou em coitadinho, em vítima, coisa que as massas adoram. Levamos um tiro pelas costas ao eleger esse sujeito. Hoje o Brasil envergonha o mundo.

Mas há esperança, Bolsonaro está derretendo. Com Lula livre das condenações e podendo ser candidato, já se vê a coisa mudar de figura, já que a sociedade está sentindo o impacto, a calamidade social. Assim, as pesquisas indicam que, hoje, Bolsonaro seria dizimado por Lula, perderia para Ciro Gomes, Luciano Huck, João Dória… Enfim, “perde até para um cachorro”, isso para usar uma expressão popular.

E assim, a fome se alastra no país; o desemprego bate recorde; os aluguéis sobem 23%, para uma inflação de 5%; o desmatamento da Amazônia cresce; empresas estrangeiras se retiram do país; as nações fecham seus aeroportos para nós; a inadimplência dos consumidores bate recorde; a gasolina aumenta 40%; políticos corruptos assumem os principais cargos da República; militares se apossam da máquina pública; o paquidérmico, caríssimo e ineficiente poder judiciário protege os oligarcas e pune os pobres; o Rio de Janeiro virou um antro de bestialidades; os índices de natalidade despencam; a desigualdade social só cresce… Um círculo de horrores diários é o que estamos vivendo, transformando o Brasil num país sem presente e sem futuro.

O que fazer? Somente o povo, a sociedade civil organizada, o povo, pode dar um basta nessa situação insuportável. Diz Carlos Drummond de Andrade que “Nós somos apenas homens, e a natureza traiu-nos”. No caso do Brasil, sempre fomos traídos por aqueles que deveriam cuidar do povo.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE






Você pode gostar