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À sombra do mundo errado

Nesses cinco mil anos de civilização, a impressão que temos é de que só crescemos. No entanto, a injustiça ainda predomina e a desigualdade é assustadora

Por Theófilo Silva 31/08/2023 5h00
Foto: Mehmet Turgut Kirkgoz/Pexels

Um homem pobre se queixa com seus companheiros durante um protesto: “O que sobra dos poderosos bastaria para socorrer-nos. Se nos dessem somente o que lhes é supérfluo, enquanto estivesse em bom estado, poderíamos acreditar que nos auxiliam por humanidade; mas acham que somos caros demais para sermos sustentados. A magreza que nos aflige – o espetáculo de nossa miséria – são o inventário encarregado de manter detalhada a abundância deles”.

Pessoas carentes e famintas são comuns em quase todos os lugares do mundo, mas quem está desabafando aqui é um cidadão de Roma, da época dos Césares. E essa pérola sábia e amargurada dita por ele é mera criação de Shakespeare, em Coriolano. Havia fome em Roma – e na Londres elisabetana – e o povo estava pronto para saquear os armazéns pertencentes aos patrícios, os ricos da época.

Cito esse trecho de Shakespeare, provando que as coisas pouco mudaram, para frisar que apenas 80 indivíduos têm mais de dinheiro que metade da população mundial (4 bilhões de pessoas) e que, brevemente, apenas 1% das pessoas terá a mesma quantidade de dinheiro que todos os outros 99%. São números aterradores, que apontam para uma situação insustentável: a de que a humanidade não está no caminho certo. Sei que nunca esteve, mas as coisas não precisavam ser assim.

Fico me perguntando se estamos melhores… nesses cinco mil anos de civilização, a impressão que temos é de que só crescemos, progredimos, evoluímos, melhoramos de vida. Descobrimos o fogo; nos vestimos; combatemos doenças, pestes, epidemias, forças da natureza; domamos os animais; multiplicamos o tamanho dos vegetais; diminuímos a fome; fatiamos o tempo; passamos a andar debaixo d’água e a voar; controlamos a escuridão; ultrapassamos a velocidade do som; fomos à lua; mais que dobramos nossa média de idade e registramos muitas outras realizações extraordinárias que só podem ser chamadas de avanços. No entanto, a injustiça ainda predomina e a desigualdade é assustadora.

A quantidade de crises, guerras, revoluções que enfrentamos ao longo desse período é incontável, e são pouquíssimos os anos que a humanidade desfrutou de paz sem conflitos. A crença em Deus e as religiões têm sido, ao longo desses cinquenta séculos, um consolo para os mais sofridos, e é também uma fonte permanente de guerras entre ocidente cristão e oriente islâmico. As ideologias e utopias que surgiram nos últimos séculos se propuseram a resolver todos os problemas da humanidade ficaram para trás e ceifaram milhões de vidas. Cada século tem uma peculiaridade e se propõe a resolver as dores dos homens.

A ciência e a tecnologia apresentam novidades todos os dias e integraram o mundo por meio da internet, aviões e smartphones. Mesmo o mais empedernido dos céticos ou niilistas não tem como negar o poder surpreendente e até mesmo incompreensível da tecnologia. Apesar de todo esse poder transformador, a fome não foi debelada. No Brasil, temos diversas dificuldades, mas estamos fora do mapa da fome da ONU. Fome, essa feia palavra que escraviza o ser humano, causada pela corrupção nos governos e falta de sensibilidade social que predomina na quase totalidade da humanidade. São muito poucos aqueles que se preocupam com o sofrimento dos menos favorecidos. Parece ser prerrogativa dos que já foram pobres, que passaram necessidade, que sofreram na carne, ter sensibilidade social. Os que nasceram “em berço de ouro”, na opulência, muito dificilmente conseguem se compadecer ou mesmo enxergar o sofrimento alheio.

Homens como o bilionário Bill Gates e o ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton são raríssimos. Cito esses dois porque o trabalho que eles realizam em prol dos mais frágeis, principalmente na sofrida África, é admirável e é exemplo a ser seguido. Insensibilidade e ganância são maiores do que solidariedade e piedade. Assim, marchamos num mundo desigual. Hoje nada mais pode ser escondido. Estamos vivendo um de fim de ciclo em que tudo parece novo, mas confuso e estreito, apesar da tecnologia digital. Onde encontrar consolo?

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Vivemos ainda, como disse Carlos Drummond de Andrade em seu poema que dá título a esse artigo, “à sombra do mundo errado”, porque “somos apenas homens e a natureza traiu-nos”!






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