Pragmática

A difícil linguagem das emoções

Em algum momento você já teve dificuldade de expressar suas emoções ou mesmo de colocar em palavras o que queria dizer?

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Por: Sara de Moraes Simões e Carlos Augusto de Medeiros

Por diversas razões, muitas vezes, não aprendemos a identificar o que estamos sentindo, o que dificulta ainda mais expressarmos sentimentos. Além disso, não há garantias de que seremos aceitos ou acolhidos se nos “abrirmos” para os outros. Arrisco a dizer que, em algum momento, você possa ter escutado pérolas do tipo “você não tem motivo para ficar assim”, “deixe de besteira”, “você é muito sensível” ou “deixa de mimimi”. Ou seja, nem sempre as pessoas acolhem e respeitam os nossos sentimentos. Mas até que ponto reações insensíveis e pouco empáticas de certas pessoas justificam silenciarmo-nos acerca de nossos sentimentos? 

Na realidade, em nossa cultura, principalmente para os homens heterossexuais, expressar emoções é passível de repreensão social. Expressões do tipo “parece uma mulherzinha”; “engole o choro”; “seja homem” ou “chorou que nem uma menininha” seguem a demonstração de emoções, principalmente quando se tratam de pessoas do sexo masculino. Uma das leis científicas mais robustas da Psicologia estabelece que tendemos a deixar de fazer aquilo que resulta em dor, repreensão, castigo, rejeição, exclusão, ostracismo, etc. 

Ora, se a nossa expressão emocional é punida, provavelmente, tenderemos a deixar de expressamos nossas emoções e até de observá-las. Praticamente todo mundo que começa a chorar, pede desculpas por fazê-lo, o que dá a impressão de que se emocionar perante os outros é pecado. Isso pode ter resultados que impactam a saúde emocional nas pessoas. Muito(a)s clientes em terapia não conseguem nomear as suas emoções. Frequentemente, quando lhes perguntam o que sentiram em uma dada situação, ele(a)s descrevem a situação em outras palavras ao invés de nomear a emoção sentida. 

Não é por capricho que nós psicólogo(a)s insistimos na importância de aprendermos a expor nossas emoções. Ao relatarmos à outra pessoa o que estamos sentindo, estamos dando oportunidade para que ela seja empática. Além disso, ao nos atentarmos à emoção que sentimos, temos uma noção mais clara do impacto e gravidade que certos eventos produzem em nós, mais especificamente, em nossa felicidade. 

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Expressar insatisfação é muito importante nas relações pessoais. Adjetivar a pessoa e não o seu comportamento pode ajudar a vencer uma discussão, porém, contribui pouco para a mudança de atitudes que nos incomodam. O mesmo vale para culpabilizar o outro pelo que estamos sentindo. Três elementos são cruciais para a expressão da insatisfação: 1. Relatar a atitude da outra pessoa que nos atingiu; 2. Relatar como nos sentimos com tal atitude; e 3. Solicitar, de modo claro e objetivo, a mudança de atitude que desejamos. 

Num exemplo comum, a mãe, diante da pia cheia de louças sujas, diz para seu filho de 19 anos: “Você é um preguiçoso e não se importa comigo que trabalho o dia inteiro”. Essa fala costuma ter mais o objetivo de fazer com o que o filho se sinta culpado do que realmente fazer com que ele passe a lavar a louça suja. Uma evidência disso é o fato de a própria mãe vir a lavar a louça. Uma fala mais assertiva seria composta dos três elementos: “Você não lavou a louça que sujou. Fiquei muito triste por você não ter feito a sua parte, deixando para mim uma tarefa que era sua. Por favor, lave a louça”. É claro que, caso a mãe, ainda assim, lave a louça, a fala assertiva também será inócua. 

Ouvir o desabafo dos outros também não é fácil. Você já observou a frequência com a qual tentamos solucionar “problemas” que não são nossos? Nesses casos, escutamos brevemente o relato e logo expressamos nossa opinião, apresentando sugestões de como resolver o problema como se fosse algo trivial. Quem nunca disse para um(a) amigo(a) que se queixa de uma relação abusiva: “Largue esse(a) traste!” Mas quem já viveu relações abusivas sabe como é difícil sair delas. 

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Inclusive, temos dificuldade de aceitar o fato de não seguirem o nosso conselho. Temos que entender que, muitas vezes, quando desabafam conosco, apenas desejam serem ouvidos sem críticas, sem julgamentos e sem ouvir conselhos simplistas que são difíceis de seguir. Fala-se muito da importância da empatia nos dias de hoje. Todavia, raramente, sabemos como sermos empáticos. Apenas ouvir e oferecer o ombro, já é um bom começo. 






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